O Banzeiro Político e as Rasteiras no Varadouro das Eleições
O calendário eleitoral no Acre é feito de areia escorrendo fina na ampulheta, implacável e silencioso. À medida que os dias encurtam para o prazo fatal das convenções, o ar-condicionado dos gabinetes já não dá conta de esfriar o banzeiro das articulações na capital. Estamos cada vez mais nos aproximando daquela fase aguda: o fechamento dos acordos, os sorrisos largos para a foto oficial, os apertos de mão efusivos e, claro, as rasteiras polidas em supostos companheiros de trincheira. É a política fervendo em sua essência.
Convém, portanto, dar uma parada na confusão, dar um passo para trás e observar como as peças estão dispostas hoje neste xadrez amazônico de governo e Senado.
O Palácio e as Rasteiras de Casa
De um lado da praça, a corrida pelo Palácio Rio Branco. A cadeira principal logo trocará de mãos. Gladson Cameli arruma as gavetas para descer a rampa em abril, transferindo a caneta para a vice, Mailza Assis. Ela herda o peso e a capilaridade da máquina estatal, o que não é pouca coisa, mas sabe que o varadouro até a eleição não está limpo.
“Sem teto na sigla que o elegeu, Bocalom junta seu capital político debaixo do braço e bate à porta do PSDB e do Avante, avisando aos ventos que de recuar, não tem nem perigo.”
Pelo retrovisor, a chapa governista vê Alan Rick acelerando, pavimentando pontes sólidas no interior. E no meio dessa poeira toda, surge a figura de Tião Bocalom. Recém-saído de uma vitória maiúscula na capital, o prefeito virou um peregrino partidário. A rasteira, nesse caso, veio de dentro de casa: Bocalom viu o tapete do PL ser puxado por Márcio Bittar. O senador abandonou o barco do prefeito, preferindo desatar os nós para caminhar de mãos dadas com Gladson ou com o próprio Alan Rick.
Enquanto a centro-direita se engalfinha por protagonismo e legendas, a esquerda tateia o terreno, tentando colar os cacos com nomes como o de Thor Dantas, em busca de oferecer uma alternativa que sobreviva ao clima desfavorável.
O Senado, o STJ e o Angu de Caroço
Se a briga pelo governo é uma maratona exaustiva, a disputa pelas duas vagas ao Senado é uma verdadeira rinha em espaço confinado. A primeira cadeira já tem dono com o nome quase bordado no encosto: Gladson Cameli. O governador sai da chefia do Executivo direto para o pódio do favoritismo.
“O céu estaria de brigadeiro, não fosse uma nuvem densa que insiste em fazer sombra sobre o Palácio: a indefinição do julgamento no STJ.”
Nos corredores do poder, sabe-se que essa pendência jurídica é a única variável que realmente perturba o governador. A depender do vento em Brasília, um solavanco de proporções incalculáveis pode atingir toda a chapa.
Sobrevivendo a esse fantasma, o problema crônico mora na cadeira ao lado. O congestionamento para a segunda vaga na chapa de Mailza é tamanho que na porta não passa nem agulha. Márcio Bittar exige o espaço por gravidade política. Sérgio Petecão sorri de soslaio, balançando o gordo tempo de TV do PSD. Eduardo Velloso bate na mesa com a chancela do União Brasil.
E, para engrossar de vez o caldo, a ex-deputada Jéssica Sales (MDB) arregaçou as mangas e fincou posição exigindo a segunda vaga majoritária, transformando a aliança num verdadeiro barril de pólvora.
Enquanto a base do Palácio bate cabeça, a concorrência não perde tempo. Mara Rocha (Novo) deixou o compasso de espera e já está sacramentada na chapa de Alan Rick, formando uma trincheira consolidada e pronta para o embate nas urnas. Correndo em raia própria, Jorge Viana (PT) permanece como a sombra do xadrez, ditando a sobrevivência da esquerda.
No fim das contas, a matemática eleitoral é cruel: sobram caciques e faltam cadeiras. Até o dia 4 de abril, muitos que hoje dividem a mesma garrafa de café podem amanhecer apontando o dedo de trincheiras opostas. O angu está no fogo, o caroço não dissolve e, inevitavelmente, a fervura vai respingar em alguém.
Raio-X do Eleitorado
A matemática das urnas que definirá o destino do Governo e do Senado baseia-se num eleitorado altamente concentrado na capital e com leve maioria feminina.
Total de Eleitores Aptos612.448Aproximadamente 39% concentrados apenas em Rio Branco.
Perfil por Gênero
52%
48%
Mulheres Homens
Faixa Etária Predominante
25 a 34anos
Representam quase 24% do eleitorado. Uma massa votante jovem que cobra emprego e segurança.
Fontes: Tribunal Superior Eleitoral (TSE) / TRE-AC (Dados base 2024)
Cruzeiro do Sul é uma cidade singular. É a capital do Juruá, o segundo maior colégio eleitoral do Acre e um território que costuma exercer papel decisivo na política estadual. Foi nesse cenário que, em 2024, acompanhei de perto uma das eleições municipais mais disputadas da história recente do município.
Vi o esforço das pessoas, a mobilização das lideranças, a militância nas ruas e a construção de uma frente política ampla. Por isso, ao observar o cenário atual, às portas de uma nova eleição estadual, é impossível não questionar o significado das escolhas que estão sendo feitas.
Zequinha Lima foi reeleito com 24.478 votos, equivalentes a 50,20% dos votos válidos. Jéssica Sales recebeu 24.281 votos, ou 49,80%. A diferença foi de apenas 197 votos. Não foi uma vitória folgada, individual ou construída isoladamente. Foi uma vitória coletiva, alcançada no limite e decidida por uma margem menor do que a população de muitas comunidades rurais de Cruzeiro do Sul.
Agora, em 29 de junho de 2026, Zequinha anunciou apoio ao senador Alan Rick na disputa pelo governo do Acre. Com isso, afastou-se do projeto eleitoral da governadora Mailza Assis, embora ambos filiados ao Progressistas. Zequinha afirmou que Alan representa o melhor projeto para o estado, alegou que vinha sofrendo tentativas de isolamento e declarou que não recebeu de Mailza o mesmo respeito que teria oferecido a ela. Ao mesmo tempo, manteve seu apoio a Gladson Cameli para o Senado.
Todo agente político possui liberdade para mudar de posição. Lealdade democrática não significa obediência cega, submissão permanente ou impossibilidade de discordar. O problema não está apenas em mudar de caminho. Está em esclarecer por que o caminho anterior, apresentado ao eleitor como uma união em defesa de Cruzeiro do Sul, deixou de ser adequado menos de dois anos depois da eleição.
A justificativa de que determinado candidato representa “o melhor projeto” é insuficiente quando não vem acompanhada de propostas, compromissos públicos e resultados esperados para a população.
Na política, gratidão não pode significar dependência eterna. Mas também não pode ser tratada como uma palavra descartável depois que a eleição termina.
Quem vence por apenas 197 votos precisa reconhecer que cada apoio foi determinante. Nenhuma liderança, partido, militante ou profissional pode reivindicar sozinho a propriedade daquela vitória. Da mesma maneira, o prefeito não pode ser tratado como propriedade do grupo que o apoiou.
Existe, porém, uma diferença entre independência e apagamento da história.
A autonomia política permite que Zequinha escolha outro palanque. A responsabilidade pública exige que ele reconheça as mãos que ajudaram a sustentá-lo quando sua reeleição estava ameaçada. Confiança não se rompe apenas quando alguém muda de candidato. Rompe-se principalmente quando as razões da mudança não são apresentadas com clareza suficiente.
A ironia política é evidente: a candidata derrotada por Zequinha passou a ocupar espaço justamente no grupo do qual o prefeito decidiu se afastar.
Enquanto as lideranças organizam seus palanques, a população continua avaliando ruas, unidades de saúde, escolas, limpeza pública, ramais e serviços básicos.
Reportagens locais vêm registrando reclamações sobre infraestrutura urbana, manutenção das vias e diferença entre anúncios e entregas. Esses registros não substituem uma pesquisa completa de opinião pública, mas mostram que existe cobrança social e que ela não pode ser ignorada.
Os 197 votos de diferença demonstram que quase metade do eleitorado preferia outra administração. Isso, por si só, deveria impor humildade, diálogo permanente e atenção redobrada às cobranças da sociedade.
Quem é, afinal, a grande liderança do Juruá?
Parte da imprensa política local apresenta Gladson Cameli como a principal liderança regional e atribui a ele papel decisivo na reta final da eleição de 2024. Sua participação foi relevante, mas a vitória de Zequinha Lima não pode ser creditada a uma única liderança. A campanha reuniu a então vice-governadora Mailza Assis, deputados federais e estaduais, entre eles Clodoaldo Rodrigues, Pedro Longo e Nicolau Júnior, além da vice Delcimar Leite, de Valéria Lima (eleita a vereadora mais votada do município) e de uma extensa rede de aliados dos setores político, empresarial e religioso, bem como lideranças comunitárias de bairros, ramais e comunidades. A lista de apoios é ampla e praticamente interminável, o que reforça um fato incontestável: a vitória foi resultado de uma construção coletiva, e não da força isolada de qualquer liderança.
Por fim, pude constatar, sem recorrer ao clichê, que a maior liderança do Juruá é o próprio eleitorado. Foram os eleitores que decidiram a eleição por uma diferença de apenas 197 votos. São eles que utilizam os serviços públicos, enfrentam diariamente os problemas da cidade e arcam com as consequências das alianças e das rupturas políticas. Lideranças passam por partidos, mudam de palanque e organizam seus interesses. A população permanece.
Zequinha tem o direito de escolher seu palanque. A população tem o direito de perguntar quais compromissos, interesses e projetos estão por trás dessa escolha. E, principalmente, tem o direito de decidir se o novo caminho representa Cruzeiro do Sul ou apenas só uma movimentação no tabuleiro eleitoral.
Por isso, o debate não deve ser apenas sobre quem Zequinha apoiará em 2026. A questão central é saber se ele está honrando a confiança recebida em 2024.
A política permite novos caminhos. Mas lealdade, compromisso, transparência, confiança e gratidão exigem que ninguém apague as pontes depois de atravessá-las.
Aos pré-candidatos e aos que já se consideram eleitos, fica o lembrete: todos têm a sua chance. Entre traídos, traidores, promessas e interesses, existe uma força maior, o povo. E, no fim, é o povo quem decide.
Todo ciclo eleitoral tem suas etapas. Há a das filiações, a das pesquisas, a das convenções e, antes de todas elas, a mais divertida: a temporada dos profetas eleitorais.
É quando surgem as análises definitivas, as sentenças irrefutáveis e as certezas absolutas sobre uma eleição que ainda nem começou de verdade. Basta um café, uma roda de conversa ou um artigo mais inspirado para decretar: “a eleição será decidida em Cruzeiro do Sul.” Ainda mais quando decisões recentes entram no roteiro, como o anúncio de apoio de Zequinha Lima a Alan Rick e as movimentações que colocam Jéssica Sales como provável vice na chapa de Mailza, como se essas definições fossem suficientes para encerrar o debate antes mesmo de ele começar.
Será?
Cruzeiro do Sul é, sem dúvida, um dos maiores colégios eleitorais do Acre. Tem peso político, tradição e lideranças influentes. Mas reduzir o resultado de uma eleição à vontade de um único município é uma simplificação que nem a matemática eleitoral consegue explicar.
Aliás, se a tese estiver correta, surge um pequeno problema: quem exatamente influencia e decide em Cruzeiro do Sul? Zequinha Lima e Jéssica Sales?
E Nicolau Júnior? E Gladson Cameli? E Delcimar Leite? E Clodoaldo Rodrigues?
E a vereadora Valéria Lima, a mais votada da última eleição municipal? E o presidente da Câmara, Elter Nóbrega? Eles deixaram de influenciar o eleitorado? Ou simplesmente desapareceram porque alguém resolveu resumir a política de Cruzeiro do Sul a um ou dois sobrenomes?
A verdade é que Cruzeiro do Sul não tem uma única liderança. Tem um alfabeto inteiro delas. Deputados, vereadores, ex-parlamentares, lideranças comunitárias, empresariais, religiosas e políticas formam um mosaico que nunca coube em uma manchete.
Quem enxerga apenas uma letra provavelmente ainda não aprendeu a ler a política do Juruá.
E isso vale para qualquer município do Acre. Toda eleição produz a tentação de encontrar um “dono” dos votos, um “grande eleitor” ou um atalho para explicar o comportamento do eleitorado. Mas a política real é muito menos conveniente do que as teorias prontas.
As eleições de 2026 não serão decididas por um artigo, por uma pesquisa isolada, por uma roda de conversa ou pela vontade de um único grupo político. Serão decididas nas urnas, voto a voto, em Rio Branco, Cruzeiro do Sul, Sena Madureira, Tarauacá, Brasileia, Feijó, Xapuri, Mâncio Lima, Rodrigues Alves e em todos os demais municípios acreanos.
Existe um detalhe que continua escapando a todas as profecias: o eleitor acreano não usa cabresto, não gosta de “já ganhou” e costuma reagir mal a qualquer tentativa de traição ou imposição.
Até lá, os profetas continuarão fazendo previsões. Faz parte do jogo. Só esqueceram de combinar com o eleitor.
O MDB voltou a fazer o que já virou rotina: anunciar apoio à pré-candidatura de Mailza Assis e garantir que Jéssica Sales será a vice-governadora.
O anúncio foi feito novamente por Vagner Sales, durante o café da manhã promovido pelo Progressistas. A convicção foi a mesma das outras ocasiões.
O detalhe é que a principal personagem dessa história continua sem assumir publicamente o papel que seu partido insiste em anunciar. Jéssica Sales segue distante desses encontros e, quando tratou do assunto em entrevista ao Bar do Vaz, preferiu não confirmar a condição de vice, deixando a definição para as articulações políticas.
Na política, quem anuncia uma candidatura costuma ser o próprio candidato. Neste caso, o anúncio continua sendo feito por terceiros.
O encontro ainda reservou outro momento que merece reflexão. Em vez de concentrar o discurso na construção de um projeto para o Acre, Vagner Sales preferiu subir o tom contra o prefeito de Cruzeiro do Sul, Zequinha Lima, chamando-o de traidor e defendendo sua expulsão do Progressistas.
A crítica política faz parte da democracia. Mas, se Zequinha precisa prestar contas, que seja principalmente pela gestão que entrega à população.
Cruzeiro do Sul, a segunda maior cidade do Acre, convive com problemas conhecidos, obras que demoram a sair do papel, reclamações constantes sobre serviços públicos e uma sensação crescente de estagnação. Para muitos moradores, a cidade parece presa ao ciclo do “mais do mesmo”, enquanto as respostas seguem lentas e insuficientes.
Nos bastidores, também cresce a percepção de que as principais decisões da administração estão concentradas em um grupo cada vez menor de auxiliares, reduzindo o diálogo político e administrativo. Se essa leitura não corresponde à realidade, cabe ao próprio prefeito Zequinha demonstrar o contrário por meio de resultados, transparência e maior abertura.
No fim, a troca de acusações produz manchetes, mas não resolve os problemas de Cruzeiro do Sul. A população espera menos conflitos pessoais e mais soluções concretas.
E quanto ao MDB, permanece a mesma pergunta que acompanha todos esses encontros: se a candidatura de Jéssica Sales à vice está realmente definida, por que a única confirmação que ainda falta é justamente a da própria anunciada?