O ex-Senador da República e ex-Conselheiro da Anatel, Aníbal Diniz, celebra os 27 anos da agência reguladora e reflete sobre as conquistas e os desafios enfrentados ao longo dessa trajetória. Diniz destaca os avanços no setor de banda larga fixa, a importância das políticas de regulação assimétrica e a expansão da competitividade, com a crescente presença de pequenos prestadores. No entanto, ele também aponta os desafios no setor móvel, onde a concentração de mercado entre as grandes operadoras ainda limita a concorrência. A análise de Diniz reforça a necessidade de políticas públicas que incentivem o compartilhamento de espectro e a entrada de novos prestadores, visando uma maior competitividade e a democratização do acesso à conectividade no Brasil.
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Diniz: Anatel 27 anos – conquistas e desafios!
Por: Aníbal Diniz*
A criação da Anatel ocorreu em 16 de julho de 1997, por meio da Lei Geral de Telecomunicações, no contexto da reforma e privatização do setor de telecomunicações no Brasil. Sua instalação oficial, contudo, se deu em 5 de novembro de 1997, data em que a agência iniciou formalmente suas atividades como o primeiro órgão regulador independente do país, com a missão de universalizar a oferta, ampliar a competição e garantir qualidade dos serviços de telecomunicações.
Vinte e sete anos transcorreram desde o nascimento deste amadurecido órgão do Estado brasileiro, cuja trajetória é marcada pelo fiel compromisso com a inclusão digital, a modernização das redes e o estabelecimento de uma cobertura ampla e acessível. Várias gerações de profissionais formadas nesse período fazem da Anatel o órgão regulador com a equipe técnica mais preparada entre as agências. Para mim, ter feito parte de seu conselho diretor é motivo de orgulho e engrandecimento curricular.
Em 1997, o setor de telecomunicações brasileiro enfrentava um cenário de atraso tecnológico e limitações de infraestrutura, com baixa penetração de linhas telefônicas e acesso precário em muitas regiões do país. A privatização do setor, associada à criação da Anatel, marcou um ponto de inflexão, trazendo investimentos, modernização e expansão dos serviços. O panorama de então, caracterizado por filas para obtenção de linhas fixas e altos custos, contrasta drasticamente com a realidade atual: o Brasil hoje ocupa posição de destaque na implementação do 5G, consolidando-se como um dos líderes globais na adoção dessa tecnologia de última geração. Essa transformação, fruto de avanços regulatórios e investimentos consistentes em infraestrutura, impulsionou o país a um novo patamar, com conectividade ampliada e serviços de alta velocidade que beneficiam desde centros urbanos até áreas rurais, promovendo uma sociedade mais interconectada e inovadora.
Nesse período, a Anatel teve atuação destacada, especialmente no serviço de banda larga fixa, com a criação de políticas regulatórias que incentivaram a multiplicação do número de prestadores, resultando em melhorias significativas na expansão e na qualidade dos serviços, na redução do preço por megabit trafegado e, fundamentalmente, na acessibilidade para a população brasileira, em todas as regiões do Brasil. O desafio agora é fazer com que a competitividade aconteça no serviço móvel, atualmente concentrado em três operadoras, que dominam 98% do mercado e do espectro destinado a esse serviço.
Regulação Assimétrica e PPPs
Uma das principais estratégias adotadas pela Anatel foi a promoção da regulação assimétrica, que buscou nivelar o campo de competição entre as grandes operadoras e os Prestadores de Pequeno Porte (PPPs), conceito que ganhou existência no mundo jurídico e regulatório na revisão do Plano Geral de Metas de Competição – PGMC em 2018, que tive a honra de relatar antes e depois da consulta pública. Essa intervenção regulatória permitiu que pequenos provedores regionais conseguissem competir de forma eficiente com os grandes players do setor, como Vivo, Claro e Tim, e transformassem por completo a realidade do mercado de banda larga fixa no Brasil.
Fruto da regulação assimétrica e do conceito de PPP, o Brasil conta atualmente com mais de 20 mil prestadores de banda larga fixa que levam fibra óptica até a casa do cliente, responsáveis por aproximadamente 54% das 50 milhões de assinaturas de banda larga no país. Isso faz do Brasil o país com o maior número de fornecedores desse serviço no mundo ou o país com o mercado de banda larga fixa mais competitivo do mundo. Essa diversidade de prestadores permitiu uma redução nos preços dos serviços e uma melhora significativa na qualidade, especialmente nos menores municípios, aqueles com até 30 mil habitantes, que chegam a ter mais de 85% dos acessos em banda larga fixa fornecidos por PPPs.
A expansão da competição teve um efeito direto na conectividade e acessibilidade dos serviços. Com o crescimento dos PPPs, regiões antes desassistidas, como áreas rurais e pequenas cidades, passaram a ter acesso à internet de qualidade. Isso foi possível graças à maior flexibilidade dos prestadores regionais, que conseguiram adaptar suas operações para atender às demandas locais de forma mais ágil.
Além disso, a competição acirrada resultou em uma redução no preço do megabit, o que beneficiou diretamente os consumidores. Com mais opções de prestadores, os usuários passaram a ter acesso a uma internet mais rápida e acessível, promovendo a inclusão digital em todas as regiões do país.
Desafio do serviço móvel
Embora a Anatel tenha alcançado um sucesso notável no setor de banda larga fixa, o serviço móvel ainda enfrenta desafios consideráveis em termos de competitividade. Atualmente, o mercado de telefonia móvel permanece concentrado em três grandes operadoras — Vivo, Claro e TIM — que, juntas, controlam cerca de 98% do espectro de radiofrequências no país.
Essa concentração de mercado não apenas limita as opções para os consumidores, mas também impede o desenvolvimento de uma concorrência mais saudável e equilibrada que se reflita em custos menores para os diversos setores da economia cada vez mais dependentes de redes de comunicação e infraestrutura de dados. As grandes operadoras controlam a maior parte do espectro de radiofrequências, um recurso essencial para a oferta de serviços móveis. A resistência dessas empresas em compartilhar o espectro agrava ainda mais o cenário, dificultando a entrada de novos prestadores e limitando a inovação e a redução de preços.
Diante desse cenário, a Anatel enfrenta agora o desafio de replicar no setor móvel o sucesso que obteve na banda larga fixa. Para isso, será necessário promover políticas que incentivem o compartilhamento do espectro de radiofrequências e a entrada de novos players no mercado. Medidas como a regulação assimétrica para forçar o compartilhamento e uso eficiente do espectro e a adoção de iniciativas que facilitem a operação de prestadores regionais poderão ser essenciais para equilibrar o mercado e trazer benefícios diretos ao consumidor.
Na condição de ex-Conselheiro da Anatel, responsável pela criação do conceito de PPP tal como ele é definido hoje, e como consultor da Associação NEO, entidade sem fins lucrativos que representa cerca de 200 PPPs, parabenizo a Anatel pelos avanços conquistados no setor de banda larga fixa e me comprometo a somar esforços com o órgão regulador para que intervenções eficientes sejam adotadas para alcançarmos a tão desejada competitividade no serviço móvel. Os prestadores que integram a Associação NEO têm plena confiança na capacidade técnica da Anatel para enfrentar o desafio de atingir a concorrência no serviço móvel, assim como fez com sucesso no serviço de banda larga fixa.
O incremento da competitividade no setor de serviços móveis será um pilar essencial para assegurar que um número maior de consumidores e indústrias tenha acesso a serviços de excelência e valores mais equitativos, ampliando de forma decisiva a inclusão digital e promovendo a democratização do acesso à conectividade em todas as camadas da sociedade.
O avanço de muitas aplicações e indústrias estratégicas no Brasil dependem dessa conectividade. Internet das coisas (IoT), veículos autônomos, cidades inteligentes (smart cities), telemedicina e saúde remota, automação industrial e indústria 4.0, redes de utilities inteligentes (smart grids), educação à distância, entre outros exemplos, exigem uma infraestrutura móvel robusta e com custo acessível para que o setor produtivo nacional se reinvente e promova empregos de qualidade para as futuras gerações.
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Ao completar 27 anos, a Anatel tem motivos para celebrar os avanços significativos alcançados na promoção da competição no setor de telecomunicações, especialmente na banda larga fixa. No entanto, o caminho pela frente ainda apresenta desafios, principalmente no setor móvel. Com sua expertise técnica e histórico de sucesso, a expectativa é que a Anatel continue a desempenhar um papel crucial no desenvolvimento de um mercado mais competitivo, justo e acessível para todos os brasileiros.
*Aníbal Diniz, 61, Advogado (OAB-DF), consultor da AD Advisors e da Associação NEO desde junho de 2020. Graduado em História pela UFAC, atuou no jornalismo (1984- 1992), foi assessor de comunicação da Prefeitura de Rio Branco (1993-1996), Secretário de Comunicação do Governo do Acre (1999-2010), Senador da República PT-AC (2011 e 2014) e Conselheiro da Anatel (2015 – 2019).
O debate sobre financiamento da educação no Brasil tem uma característica curiosa: ele parece sofisticado, mas gira quase sempre em torno de uma visão simplória demais para dar conta do problema: “falta dinheiro”.
O problema é a falta de dinheiro? A resposta mais honesta é incômoda: sim, falta dinheiro; mas isso não explica a essência do problema. O país, goste-se ou não, construiu ao longo das últimas décadas um conjunto robusto de instrumentos de financiamento. Temos Fundeb, temos transferências diretas para escolas, temos programas específicos, temos planos de estado decenais, temos metas ambiciosas. Não estamos exatamente no ponto zero.
E, ainda assim, as desigualdades educacionais seguem firmes, persistentes, quase como se nada disso tivesse acontecido. Isso deveria nos obrigar a reformular a tese. Mas, em vez disso, seguimos repetindo a mesma, talvez porque ela seja confortável. É sempre mais fácil discutir quanto falta do que discutir como o que existe funciona.
O Acre, por exemplo (onde fui secretário municipal, estadual de educação e governador, entre 1993 e 2010), não recebia complementação do Fundeb até 2020, quando finalmente foi adotado o mecanismo do Valor Aluno Ano Total (VAAT) corrigindo uma falha dos critérios de redistribuição. Mas hoje, com muito mais recursos transferidos da União, a educação do Acre caiu das dez primeiras colocações nas avaliações nacionais para as últimas.
O problema do financiamento da educação no Brasil não é, fundamentalmente, contábil. É estrutural. Está menos na quantidade de recursos e mais na forma como eles são geridos: organizados, distribuídos e, principalmente, transformados (ou não) em condições reais de oferta educacional de qualidade. Dito de outro modo: o problema não é só quanto se gasta. É o que acontece depois que o dinheiro chega.
Uma análise mais atenta das políticas recentes, especialmente das estratégias que tenho avaliado, revela algo que não costuma aparecer com destaque no debate público: não falta política pública. Falta uma abordagem sistêmica.
Temos instrumentos. Muitos, inclusive. O Fundeb redistribui recursos, o PDDE chega direto às escolas, o PAR tenta orientar o planejamento, programas específicos atendem públicos historicamente negligenciados. Cada um desses mecanismos, isoladamente, faz sentido. Alguns funcionam bem. Outros funcionam razoavelmente.
O problema é que eles coexistem mais do que se articulam.
O resultado disso é um sistema que, na prática, exige que cada rede de ensino seja um pouco especialista em decifrar regras, combinar fontes, cumprir exigências e, de preferência, fazer tudo isso com equipes técnicas robustas. O que, convenhamos, não é exatamente a realidade da maior parte dos municípios brasileiros.
E aí aparece um efeito pouco discutido: quem tem mais capacidade de gestão consegue usar melhor os instrumentos disponíveis. Quem não tem, fica preso na engrenagem. O financiamento, que deveria reduzir desigualdades, passa a operar condicionado por elas.
Nada muito surpreendente, mas raramente dito com clareza.
Nesse cenário, a palavra “equidade” ganhou espaço. Hoje ela aparece em praticamente todos os documentos relevantes. Virou, com razão, uma espécie de consenso civilizatório mínimo. Ninguém é contra equidade.
O problema começa quando a gente olha o que acontece depois que a palavra é escrita.Equidade virou princípio. Mas ainda não virou critério.
Isso faz toda a diferença. Como princípio, ela orienta o discurso. Como critério, ela reorganiza decisões. E reorganizar decisões significa mexer na forma como o dinheiro circula, quem recebe mais, quem recebe antes, quem precisa de apoio adicional.
Sem isso, seguimos operando uma lógica curiosa: falamos de equidade, mas distribuímos recursos como se todos partissem do mesmo ponto. Não partem.
E, em um país profundamente desigual, tratar todos de forma igual não é neutralidade. É método eficiente de reprodução de desigualdade.
Parte desse desencontro aparece no debate quase interminável entre Custo Aluno Qualidade inicial (CAQi) defendido pela Campanha Nacional Pelos Direitos a Educação e o VAAT criado no novo modelo redistributivo do Fundeb. De um lado, a tentativa legítima de definir o que é necessário para garantir qualidade. De outro, a tentativa igualmente necessária de entender quanto cada rede realmente tem para investir.
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Transformar isso em disputa é um daqueles movimentos tipicamente brasileiros: cria-se uma falsa oposição para não enfrentar o problema real.
Sem parâmetros de qualidade, corre-se o risco de naturalizar o mínimo possível. Sem olhar para a capacidade real de financiamento, corre-se o risco de propor o impossível.
O problema não está em um ou outro. Está na incapacidade de articular os dois.
Mas isso exige sair da zona confortável das fórmulas prontas e entrar no terreno mais complexo da realidade. Se há um ponto cego nesse debate, ele atende pelo nome de capacidade estatal. E aqui a ironia é inevitável: discutimos bilhões com sofisticação, mas ignoramos quem vai, de fato, operar esse sistema.
Conheço Secretarias Municipais em São Paulo, maior estado do Brasil, que funcionam em uma única sala precária com apenas duas pessoas (o Secretário/a e um/a ajudante, nem sempre adjunto/a.
Não basta transferir recursos. É preciso que alguém consiga acessar, planejar, executar e monitorar esse uso. E isso não é igual em todo o território nacional.
Há redes com estrutura, equipes técnicas, sistemas organizados. E há redes que operam no limite, com alta rotatividade, pouca capacidade instalada e enorme pressão cotidiana.Se o desenho do financiamento ignora isso, o resultado não é neutro. Ele tende a favorecer quem já tem mais condição de operar o sistema.
Ou seja, o problema não é só quanto chega. É quem consegue fazer algo com o que chega.
E aí entra uma variável que costuma ser tratada como detalhe, mas não é: o território. O Brasil não é homogêneo. Essa frase é repetida com frequência, mas raramente levada às últimas consequências. Territórios indígenas, regiões amazônicas, áreas rurais, periferias urbanas: cada um desses contextos apresenta desafios específicos que não cabem em soluções padronizadas. Quando o financiamento ignora isso, ele não apenas perde eficiência. Ele erra o alvo.
Equidade, no Brasil, é necessariamente territorial. E isso exige mais do que boas intenções. Exige capacidade de leitura da realidade, uso qualificado de dados e disposição para diferenciar políticas. O contrário disso é aplicar a mesma régua em contextos completamente distintos e depois se surpreender com os resultados desiguais.
No fim das contas, o diagnóstico não é tão misterioso quanto às vezes parece. O Brasil não sofre de ausência de instrumentos de financiamento. Sofre de dificuldade de organizá-los como sistema.
Temos fragmentação, critérios ainda pouco explícitos de equidade, desigualdade de capacidade estatal e baixa integração entre financiamento, dados e planejamento.
Nada disso é exatamente novo. Mas, enquanto continuarmos tratando o problema como se fosse apenas de insuficiência de recursos, continuaremos errando o foco.
A saída, por sua vez, não passa necessariamente por criar mais um mecanismo. Passa por reorganizar o que já existe.
Isso implica integrar instrumentos, tornar a equidade um critério real de decisão, investir em capacidade de gestão e usar dados de forma sistemática. Implica, sobretudo, assumir que financiamento não é só transferência de recurso. É parte de uma arquitetura de Estado.
Pode parecer menos empolgante do que anunciar novas soluções. E, de fato, é. Mas é o tipo de trabalho que faz diferença. No fim, o debate sobre financiamento da educação é menos técnico do que se costuma dizer. Ele envolve escolhas.
Escolhas sobre quem deve ser priorizado, sobre como lidar com desigualdades, sobre que tipo de sistema queremos construir. E essas escolhas aparecem de forma muito concreta, longe dos documentos, na vida de quem está na escola.
É ali que se mede se o financiamento funciona ou não.
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E, por enquanto, os resultados sugerem que ainda temos mais instrumentos do que sistema e mais discurso que equidade de fato.
Há escolhas que não são administrativas. São atos de poder — e o poder jamais é neutro. Toda decisão revela uma arquitetura: quem decide, em nome de quem se decide e quais vidas podem ser sacrificadas para que a ordem se mantenha.
Em um estado como o Acre, onde mulheres são assassinadas violentamente por serem quem somos, nenhuma decisão institucional pode ser compreendida como técnica. Não há neutralidade possível em uma realidade estruturada por desigualdades de gênero, raça e classe. Toda escolha, portanto, toma posição. E toda posição é, em si, uma definição de valor sobre a vida.
Recentemente, o Tribunal de Contas do Estado teve a oportunidade de se renovar com a escolha de um (a) novo (a) conselheiro (a). Não se tratava apenas do preenchimento de uma vaga, mas da possibilidade de deslocar a racionalidade do controle público — tensionando os próprios critérios que definem o que conta como controle, resultado e interesse público. Ou, mais profundamente, de reconfigurar o próprio sentido do interesse público.
Essa oportunidade surge em um momento de inflexão. O modelo tradicional, centrado na lógica sancionadora e na contabilidade formal, já não responde à realidade social. Não há legitimidade na prestação de contas quando os passivos sociais se acumulam — basta olhar para ver. A técnica que ignora a vida concreta deixa de ser técnica: torna-se ideologia.
No entanto, a inflexão não se concretizou. A escolha recaiu sobre um perfil aderente ao padrão dominante, reafirmando uma racionalidade estrutural que define — e limita — o horizonte do possível. Mais do que uma decisão da Governadora, evidencia-se a continuidade de um regime de poder que se reproduz por meio de heranças — preservando, sob novas formas, a mesma lógica de concentração.
O que se apresenta aqui é uma reflexão — consciente de seus limites, mas comprometida com o risco de pensar. O campo permanece aberto, porque todo ponto de vista é sempre visto de um ponto.
É justamente nesse ponto que a questão central se instala. Não se trata de perguntar por que, no exercício do poder, uma mulher não escolhe outra mulher. Trata-se de examinar sob quais condições essa escolha se torna possível — e quais limites ela revela. A pergunta não recai sobre a decisão, mas sobre o campo de possibilidades que a antecede. Sobre o sistema que torna algumas escolhas pensáveis e outras simplesmente inviáveis.
É nesse deslocamento que a aparência de contradição se desfaz. Não há contradição quando uma mulher, no exercício do poder, não escolhe outra mulher. Há coerência com a lógica que organiza o próprio poder. O problema, portanto, não está na escolha isolada — mas no desenho do próprio campo em que escolher se torna possível.
As análises feministas mostram que o poder não é apenas um espaço que se ocupa, mas uma estrutura que organiza previamente as formas de agir, decidir e legitimar decisões. Gênero, raça e classe não são atributos acessórios: são forças que configuram o que pode ser reconhecido como legítimo.
Gerda Lerner é precisa ao afirmar que o patriarcado só se sustenta com a cooperação das mulheres — uma cooperação produzida historicamente, moldada por recompensas, limites e expectativas. Não se trata de adesão livre, mas de inserção em uma ordem que antecede o sujeito e condiciona suas possibilidades.
Bell hooks aprofunda essa tensão ao alertar que a presença de mulheres no poder não garante transformação. Mulheres também podem operar dentro da lógica que as subordina, reproduzindo hierarquias sob outras formas. A identidade, por si só, não rompe estruturas.
E é nesse ponto que a advertência de Angela Davis se impõe com clareza: não basta ocupar posições nas estruturas de poder — é preciso confrontar as lógicas que as sustentam. Caso contrário, a presença não transforma: apenas reorganiza a permanência.
É assim que o sistema se perpetua. Não pela exclusão absoluta, mas pela seleção precisa. O poder não apenas impede — ele autoriza seletivamente. Define quem pode entrar, em que condições e até onde pode ir.
Por isso, o momento atual dos Tribunais de Contas é decisivo. Não se trata de ajuste técnico, mas de mudança de paradigma. E mudança de paradigma não ocorre sem ruptura.
Uma dessas rupturas é evidente: romper a predominância masculina e instituir a paridade de gênero no plenário de julgamentos e decisões — espaço em que o poder deixa de ser discurso e se torna consequência.
Defender maior presença de mulheres nos espaços de poder é parte dessa disputa — e é uma defesa que precisa ser sustentada. Por isso, continuarei afirmando-a. Mas fazê-lo sem abdicar da crítica às escolhas que reproduzem a lógica dominante não é contradição. É coerência política. Se o poder segue operando sob a aparência de neutralidade, não se trata de desconhecimento. Trata-se de escolha. E nenhuma escolha é neutra.
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*Naluh Gouveia é conselheira e diretora da Escola de Contas do TCE-AC.
Neste Domingo de Ramos, a saudação que ecoa entre os cristãos atravessa séculos e permanece viva: Jesus é o nosso Rei. Não um rei de poder terreno, cercado por exércitos ou riquezas, mas o Rei do amor, da entrega e da paz.
A entrada de Jesus em Jerusalém, acolhido com ramos e esperança, simboliza mais do que um momento histórico. Representa a escolha consciente de reconhecer, em sua palavra e em seu exemplo, um caminho possível para a humanidade — um caminho que passa pela humildade, pelo serviço e pela capacidade de amar até as últimas consequências.
“Prova de amor maior não há que doar a vida.” Essa verdade, mais do que uma frase, é um convite à reflexão. Em um mundo marcado por conflitos, intolerância e individualismo, a mensagem de Jesus continua atual e necessária. Ele nos ensinou que reinar não é dominar, mas servir; não é impor, mas acolher.
Saudar Jesus como Rei neste dia é, portanto, mais do que um gesto de fé: é um compromisso. Compromisso de buscar a paz onde há discórdia, de praticar o bem onde há indiferença, de cultivar a esperança mesmo diante das adversidades.
Imagem criada • Entrada triunfal em Jerusalém
É também um reencontro interior. Um momento de reconhecer nossas falhas, nossas ausências, e, ao mesmo tempo, nossa capacidade de recomeçar. Aproximar-se de Jesus é, antes de tudo, aproximar-se daquilo que nos torna mais humanos: a compaixão, a resiliência e a disposição de servir.
Que este Domingo de Ramos não seja apenas uma celebração, mas uma renovação de propósito. Que ao dizer “Jesus é o nosso Rei”, possamos também viver como discípulos de sua palavra — espalhando, com gestos concretos, aquilo que Ele sempre pregou: o bem e a paz.
*Zé Américo Silva é jornalista e devoto do Glorioso Nosso Senhor do Bonfim