O debate sobre financiamento da educação no Brasil tem uma característica curiosa: ele parece sofisticado, mas gira quase sempre em torno de uma visão simplória demais para dar conta do problema: “falta dinheiro”.
O problema é a falta de dinheiro? A resposta mais honesta é incômoda: sim, falta dinheiro; mas isso não explica a essência do problema. O país, goste-se ou não, construiu ao longo das últimas décadas um conjunto robusto de instrumentos de financiamento. Temos Fundeb, temos transferências diretas para escolas, temos programas específicos, temos planos de estado decenais, temos metas ambiciosas. Não estamos exatamente no ponto zero.
E, ainda assim, as desigualdades educacionais seguem firmes, persistentes, quase como se nada disso tivesse acontecido. Isso deveria nos obrigar a reformular a tese. Mas, em vez disso, seguimos repetindo a mesma, talvez porque ela seja confortável. É sempre mais fácil discutir quanto falta do que discutir como o que existe funciona.
O Acre, por exemplo (onde fui secretário municipal, estadual de educação e governador, entre 1993 e 2010), não recebia complementação do Fundeb até 2020, quando finalmente foi adotado o mecanismo do Valor Aluno Ano Total (VAAT) corrigindo uma falha dos critérios de redistribuição. Mas hoje, com muito mais recursos transferidos da União, a educação do Acre caiu das dez primeiras colocações nas avaliações nacionais para as últimas.
O problema do financiamento da educação no Brasil não é, fundamentalmente, contábil. É estrutural. Está menos na quantidade de recursos e mais na forma como eles são geridos: organizados, distribuídos e, principalmente, transformados (ou não) em condições reais de oferta educacional de qualidade. Dito de outro modo: o problema não é só quanto se gasta. É o que acontece depois que o dinheiro chega.
Uma análise mais atenta das políticas recentes, especialmente das estratégias que tenho avaliado, revela algo que não costuma aparecer com destaque no debate público: não falta política pública. Falta uma abordagem sistêmica.
Temos instrumentos. Muitos, inclusive. O Fundeb redistribui recursos, o PDDE chega direto às escolas, o PAR tenta orientar o planejamento, programas específicos atendem públicos historicamente negligenciados. Cada um desses mecanismos, isoladamente, faz sentido. Alguns funcionam bem. Outros funcionam razoavelmente.
O problema é que eles coexistem mais do que se articulam.
O resultado disso é um sistema que, na prática, exige que cada rede de ensino seja um pouco especialista em decifrar regras, combinar fontes, cumprir exigências e, de preferência, fazer tudo isso com equipes técnicas robustas. O que, convenhamos, não é exatamente a realidade da maior parte dos municípios brasileiros.
E aí aparece um efeito pouco discutido: quem tem mais capacidade de gestão consegue usar melhor os instrumentos disponíveis. Quem não tem, fica preso na engrenagem. O financiamento, que deveria reduzir desigualdades, passa a operar condicionado por elas.
Nada muito surpreendente, mas raramente dito com clareza.
Nesse cenário, a palavra “equidade” ganhou espaço. Hoje ela aparece em praticamente todos os documentos relevantes. Virou, com razão, uma espécie de consenso civilizatório mínimo. Ninguém é contra equidade.
O problema começa quando a gente olha o que acontece depois que a palavra é escrita.Equidade virou princípio. Mas ainda não virou critério.
Isso faz toda a diferença. Como princípio, ela orienta o discurso. Como critério, ela reorganiza decisões. E reorganizar decisões significa mexer na forma como o dinheiro circula, quem recebe mais, quem recebe antes, quem precisa de apoio adicional.
Sem isso, seguimos operando uma lógica curiosa: falamos de equidade, mas distribuímos recursos como se todos partissem do mesmo ponto. Não partem.
E, em um país profundamente desigual, tratar todos de forma igual não é neutralidade. É método eficiente de reprodução de desigualdade.
Parte desse desencontro aparece no debate quase interminável entre Custo Aluno Qualidade inicial (CAQi) defendido pela Campanha Nacional Pelos Direitos a Educação e o VAAT criado no novo modelo redistributivo do Fundeb. De um lado, a tentativa legítima de definir o que é necessário para garantir qualidade. De outro, a tentativa igualmente necessária de entender quanto cada rede realmente tem para investir.
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Transformar isso em disputa é um daqueles movimentos tipicamente brasileiros: cria-se uma falsa oposição para não enfrentar o problema real.
Sem parâmetros de qualidade, corre-se o risco de naturalizar o mínimo possível. Sem olhar para a capacidade real de financiamento, corre-se o risco de propor o impossível.
O problema não está em um ou outro. Está na incapacidade de articular os dois.
Mas isso exige sair da zona confortável das fórmulas prontas e entrar no terreno mais complexo da realidade. Se há um ponto cego nesse debate, ele atende pelo nome de capacidade estatal. E aqui a ironia é inevitável: discutimos bilhões com sofisticação, mas ignoramos quem vai, de fato, operar esse sistema.
Conheço Secretarias Municipais em São Paulo, maior estado do Brasil, que funcionam em uma única sala precária com apenas duas pessoas (o Secretário/a e um/a ajudante, nem sempre adjunto/a.
Não basta transferir recursos. É preciso que alguém consiga acessar, planejar, executar e monitorar esse uso. E isso não é igual em todo o território nacional.
Há redes com estrutura, equipes técnicas, sistemas organizados. E há redes que operam no limite, com alta rotatividade, pouca capacidade instalada e enorme pressão cotidiana.Se o desenho do financiamento ignora isso, o resultado não é neutro. Ele tende a favorecer quem já tem mais condição de operar o sistema.
Ou seja, o problema não é só quanto chega. É quem consegue fazer algo com o que chega.
E aí entra uma variável que costuma ser tratada como detalhe, mas não é: o território. O Brasil não é homogêneo. Essa frase é repetida com frequência, mas raramente levada às últimas consequências. Territórios indígenas, regiões amazônicas, áreas rurais, periferias urbanas: cada um desses contextos apresenta desafios específicos que não cabem em soluções padronizadas. Quando o financiamento ignora isso, ele não apenas perde eficiência. Ele erra o alvo.
Equidade, no Brasil, é necessariamente territorial. E isso exige mais do que boas intenções. Exige capacidade de leitura da realidade, uso qualificado de dados e disposição para diferenciar políticas. O contrário disso é aplicar a mesma régua em contextos completamente distintos e depois se surpreender com os resultados desiguais.
No fim das contas, o diagnóstico não é tão misterioso quanto às vezes parece. O Brasil não sofre de ausência de instrumentos de financiamento. Sofre de dificuldade de organizá-los como sistema.
Temos fragmentação, critérios ainda pouco explícitos de equidade, desigualdade de capacidade estatal e baixa integração entre financiamento, dados e planejamento.
Nada disso é exatamente novo. Mas, enquanto continuarmos tratando o problema como se fosse apenas de insuficiência de recursos, continuaremos errando o foco.
A saída, por sua vez, não passa necessariamente por criar mais um mecanismo. Passa por reorganizar o que já existe.
Isso implica integrar instrumentos, tornar a equidade um critério real de decisão, investir em capacidade de gestão e usar dados de forma sistemática. Implica, sobretudo, assumir que financiamento não é só transferência de recurso. É parte de uma arquitetura de Estado.
Pode parecer menos empolgante do que anunciar novas soluções. E, de fato, é. Mas é o tipo de trabalho que faz diferença. No fim, o debate sobre financiamento da educação é menos técnico do que se costuma dizer. Ele envolve escolhas.
Escolhas sobre quem deve ser priorizado, sobre como lidar com desigualdades, sobre que tipo de sistema queremos construir. E essas escolhas aparecem de forma muito concreta, longe dos documentos, na vida de quem está na escola.
É ali que se mede se o financiamento funciona ou não.
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E, por enquanto, os resultados sugerem que ainda temos mais instrumentos do que sistema e mais discurso que equidade de fato.
Há escolhas que não são administrativas. São atos de poder — e o poder jamais é neutro. Toda decisão revela uma arquitetura: quem decide, em nome de quem se decide e quais vidas podem ser sacrificadas para que a ordem se mantenha.
Em um estado como o Acre, onde mulheres são assassinadas violentamente por serem quem somos, nenhuma decisão institucional pode ser compreendida como técnica. Não há neutralidade possível em uma realidade estruturada por desigualdades de gênero, raça e classe. Toda escolha, portanto, toma posição. E toda posição é, em si, uma definição de valor sobre a vida.
Recentemente, o Tribunal de Contas do Estado teve a oportunidade de se renovar com a escolha de um (a) novo (a) conselheiro (a). Não se tratava apenas do preenchimento de uma vaga, mas da possibilidade de deslocar a racionalidade do controle público — tensionando os próprios critérios que definem o que conta como controle, resultado e interesse público. Ou, mais profundamente, de reconfigurar o próprio sentido do interesse público.
Essa oportunidade surge em um momento de inflexão. O modelo tradicional, centrado na lógica sancionadora e na contabilidade formal, já não responde à realidade social. Não há legitimidade na prestação de contas quando os passivos sociais se acumulam — basta olhar para ver. A técnica que ignora a vida concreta deixa de ser técnica: torna-se ideologia.
No entanto, a inflexão não se concretizou. A escolha recaiu sobre um perfil aderente ao padrão dominante, reafirmando uma racionalidade estrutural que define — e limita — o horizonte do possível. Mais do que uma decisão da Governadora, evidencia-se a continuidade de um regime de poder que se reproduz por meio de heranças — preservando, sob novas formas, a mesma lógica de concentração.
O que se apresenta aqui é uma reflexão — consciente de seus limites, mas comprometida com o risco de pensar. O campo permanece aberto, porque todo ponto de vista é sempre visto de um ponto.
É justamente nesse ponto que a questão central se instala. Não se trata de perguntar por que, no exercício do poder, uma mulher não escolhe outra mulher. Trata-se de examinar sob quais condições essa escolha se torna possível — e quais limites ela revela. A pergunta não recai sobre a decisão, mas sobre o campo de possibilidades que a antecede. Sobre o sistema que torna algumas escolhas pensáveis e outras simplesmente inviáveis.
É nesse deslocamento que a aparência de contradição se desfaz. Não há contradição quando uma mulher, no exercício do poder, não escolhe outra mulher. Há coerência com a lógica que organiza o próprio poder. O problema, portanto, não está na escolha isolada — mas no desenho do próprio campo em que escolher se torna possível.
As análises feministas mostram que o poder não é apenas um espaço que se ocupa, mas uma estrutura que organiza previamente as formas de agir, decidir e legitimar decisões. Gênero, raça e classe não são atributos acessórios: são forças que configuram o que pode ser reconhecido como legítimo.
Gerda Lerner é precisa ao afirmar que o patriarcado só se sustenta com a cooperação das mulheres — uma cooperação produzida historicamente, moldada por recompensas, limites e expectativas. Não se trata de adesão livre, mas de inserção em uma ordem que antecede o sujeito e condiciona suas possibilidades.
Bell hooks aprofunda essa tensão ao alertar que a presença de mulheres no poder não garante transformação. Mulheres também podem operar dentro da lógica que as subordina, reproduzindo hierarquias sob outras formas. A identidade, por si só, não rompe estruturas.
E é nesse ponto que a advertência de Angela Davis se impõe com clareza: não basta ocupar posições nas estruturas de poder — é preciso confrontar as lógicas que as sustentam. Caso contrário, a presença não transforma: apenas reorganiza a permanência.
É assim que o sistema se perpetua. Não pela exclusão absoluta, mas pela seleção precisa. O poder não apenas impede — ele autoriza seletivamente. Define quem pode entrar, em que condições e até onde pode ir.
Por isso, o momento atual dos Tribunais de Contas é decisivo. Não se trata de ajuste técnico, mas de mudança de paradigma. E mudança de paradigma não ocorre sem ruptura.
Uma dessas rupturas é evidente: romper a predominância masculina e instituir a paridade de gênero no plenário de julgamentos e decisões — espaço em que o poder deixa de ser discurso e se torna consequência.
Defender maior presença de mulheres nos espaços de poder é parte dessa disputa — e é uma defesa que precisa ser sustentada. Por isso, continuarei afirmando-a. Mas fazê-lo sem abdicar da crítica às escolhas que reproduzem a lógica dominante não é contradição. É coerência política. Se o poder segue operando sob a aparência de neutralidade, não se trata de desconhecimento. Trata-se de escolha. E nenhuma escolha é neutra.
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*Naluh Gouveia é conselheira e diretora da Escola de Contas do TCE-AC.
Neste Domingo de Ramos, a saudação que ecoa entre os cristãos atravessa séculos e permanece viva: Jesus é o nosso Rei. Não um rei de poder terreno, cercado por exércitos ou riquezas, mas o Rei do amor, da entrega e da paz.
A entrada de Jesus em Jerusalém, acolhido com ramos e esperança, simboliza mais do que um momento histórico. Representa a escolha consciente de reconhecer, em sua palavra e em seu exemplo, um caminho possível para a humanidade — um caminho que passa pela humildade, pelo serviço e pela capacidade de amar até as últimas consequências.
“Prova de amor maior não há que doar a vida.” Essa verdade, mais do que uma frase, é um convite à reflexão. Em um mundo marcado por conflitos, intolerância e individualismo, a mensagem de Jesus continua atual e necessária. Ele nos ensinou que reinar não é dominar, mas servir; não é impor, mas acolher.
Saudar Jesus como Rei neste dia é, portanto, mais do que um gesto de fé: é um compromisso. Compromisso de buscar a paz onde há discórdia, de praticar o bem onde há indiferença, de cultivar a esperança mesmo diante das adversidades.
Imagem criada • Entrada triunfal em Jerusalém
É também um reencontro interior. Um momento de reconhecer nossas falhas, nossas ausências, e, ao mesmo tempo, nossa capacidade de recomeçar. Aproximar-se de Jesus é, antes de tudo, aproximar-se daquilo que nos torna mais humanos: a compaixão, a resiliência e a disposição de servir.
Que este Domingo de Ramos não seja apenas uma celebração, mas uma renovação de propósito. Que ao dizer “Jesus é o nosso Rei”, possamos também viver como discípulos de sua palavra — espalhando, com gestos concretos, aquilo que Ele sempre pregou: o bem e a paz.
*Zé Américo Silva é jornalista e devoto do Glorioso Nosso Senhor do Bonfim
No último domingo, fomos tomados por um abalo profundo com a passagem do nosso Txai Macedo. O sentimento de perda mexeu com todos nós. Mas, em meio à dor, vivenciamos algo histórico. Por isso, minha primeira palavra precisa ser de gratidão ao povo Puyanawa por ter recebido o corpo dele para ser enterrado em sua terra.
Normalmente, quando as pessoas não-indígenas fazem a sua passagem, seus corpos são levados de volta para o seu mundo lá fora, para as cidades. Mas o nosso povo entendeu que plantar o corpo do Macedo em um território nosso simboliza algo muito forte. Ele está sendo devolvido a um chão que representa todos os territórios indígenas do Juruá. É um gesto de toda a região recebendo e abraçando um homem que tanto fez por nós. Quando olhamos para a vida dele, percebemos que a única família que ele realmente escolheu ter fomos nós: os povos da floresta.
Para nós, o nosso Txai não morreu. Ele virou um pássaro. Ele virou um Japó. A partir de hoje, nós o veremos sempre nessa miração do espírito. Ele vai voar junto conosco, andando pelas aldeias, nos guiando como sempre fez.
Macedo andou por toda essa região e fez dela a sua casa. Ele teve a firmeza de costurar a Aliança dos Povos da Floresta e de ajudar a criar as primeiras Reservas Extrativistas. Ele fez um enfrentamento imenso contra os poderosos. Nossa região era formada por seringais que tinham donos, homens que carregavam sobrenomes de peso. Macedo foi muito ameaçado, mas sobreviveu a tudo isso sob a proteção sagrada de todos os nossos pajés. Ele orientou os mais antigos; como o seu Mário, o seu Beto Nukini, Antônio Piyãko, o seu Chico Varela, o Davi Lopes, o Felipe Sereno, o seu Raimundo, no Gregório, mostrando os caminhos de uma luta que, muitas vezes, não sabíamos como travar.
Eu, pessoalmente, sinto muito a sua falta. Quando eu era mais novo e via o tamanho daquele homem, eu queria ser o Txai Macedo. Ele olhava para mim e dizia: “Francisco, comece a falar. Comece a se preparar para ser a voz do teu povo. Nós vamos passar, e vocês precisam assumir isso”. Eu duvidava. Eu mal sabia falar português na época, achava que nunca conseguiria representar o meu povo. Mas foi o incentivo dele que me fez criar responsabilidade. Todos os passos que dei na minha vida como liderança foram orientados por ele.
Hoje, graças a essa luta movida a muita coragem, quase 80% da nossa região virou área protegida, entre Parques Nacionais, Terras Indígenas e Reservas Extrativistas. Ganhamos o nosso espaço. Mas é exatamente aqui que mora a minha maior preocupação e a mensagem que quero deixar para a nossa juventude.
Uma coisa é conquistar; outra coisa, muito mais difícil, é cuidar do que se conquistou. Nós fomos movidos pelo espírito de luta e de guerra para garantir essas terras. Agora, a nova geração tem uma missão muito maior: a responsabilidade de manter a união entre os povos e proteger cada território desse. É preciso pensar na região como um todo. Se os mais novos não conhecerem com profundidade o que essa terra custou, qual foi o preço e o sofrimento dessas conquistas, corremos o risco de jogar tudo fora.
Confesso que me sinto abalado. Estamos perdendo nossas grandes lideranças de força, homens e mulheres com a capacidade e a firmeza do Macedo. O mundo de hoje parece não respeitar mais as lideranças como antes, e isso tenta nos enfraquecer.
Por isso, precisamos manter a sua memória viva. O nosso Txai agora é pássaro, é espírito, é semente plantada na terra Puyanawa. E nós, que ficamos, temos o dever sagrado de cuidar da floresta que ele nos ajudou a salvar.
Francisco Piyãko é liderança do Povo Ashaninka, da Aldeia Apiwtxa. Atualmente é Coordenador da Organização dos Povos Indígenas do Rio Juruá (Opirj)