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MEIO AMBIENTE

Desmatamento na Amazônia cresce com chegada de cristão atrás de “Terra Prometida”

Há mais de 50 anos, na selva central do Peru, um homem chamado Ezequiel Ataucusi Gamonal fundou um dos mais importantes novos movimentos religiosos da América do Sul.

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Há mais de 50 anos, na selva central do Peru, um homem chamado Ezequiel Ataucusi Gamonal fundou um dos mais importantes novos movimentos religiosos da América do Sul. Sua doutrina de fé, baseada em um profundo sincretismo entre as tradições inca e andina, assim como a fé cristã, foi abraçada por pessoas no Peru, mas também se espalhou para países como Colômbia, Bolívia, Brasil, Argentina, Paraguai, Costa Rica e Estados Unidos. Existem até grupos em alguns países europeus, como a Espanha.

Ezequiel Ataucusi Gamonal fundou a Associação Evangélica da Missão Israelita do Novo Pacto Universal, em 1968 e já reúne milhares de pessoas. Segundo um de seus pastores em Ucayali e a investigação de LaMula.pe, eles poderiam ultrapassar 100.000 almas. Seus membros, que se autodenominam “congregados”, são homens e mulheres que adaptaram seus modos de viver, vestir e trabalhar a um credo baseado nos ensinamentos e ordens de seu profeta e fundador.

Os israelitas de Ezequiel Ataucusi são, segundo sua doutrina, o novo e real povo escolhido, assim como o foram antes o povo de Israel na Ásia e os incas no Peru.

Sob essa ordem de se dirigirem à nova “terra prometida”, na selva amazônica peruana, os fiéis têm se deslocado da costa e das montanhas peruanas para a selva, muitas vezes cruzando as fronteiras do Peru. Os processos de ocupação e mudança de uso das terras florestais pelos israelenses, também chamados de “os Ataucusi”, raramente foram violentos, mas mais de meio século após o início de sua colonização da Amazônia e vinte anos após a morte do profeta, verificamos que a migração para a selva peruana não parou.

Ezequiel Ataucusi, nascido em 1918, passou por várias religiões antes de fundar a sua. Seu credo foi inspirado em sua passagem pelo catolicismo, adventismo e pentecostalismo.
No final dos anos 50, o profeta disse que Deus lhe anunciou que a Terra Prometida estava na Amazônia e que o tempo do fim do mundo se aproximava. Ele também teria recebido os 10 mandamentos de Deus, mas explicados novamente para seu fiel cumprimento.

Por isso, Deus anunciou a ele que os crentes deveriam se isolar na selva, em lugares remotos, para se prepararem cultivando a terra e criando gado. Assim, os primeiros assentamentos israelitas foram organizados. O processo de colonização da Amazônia começava a tomar forma.

No ano 2000, quarenta anos após a fundação das primeiras colônias, morreu em Lima Ezequiel Ataucusi Gamonal, o profeta que disse que ressuscitaria no terceiro dia. Seu funeral, quando sua esperada ressurreição não ocorreu, custou mais de $ 200.000, custo que incluiu joias e uma coroa de ouro e pedras preciosas com a qual foi enterrado em um mausoléu construído em tempo recorde. O mausoléu está localizado no ponto central do movimento, em La Molina, quase nos arredores de Lima.

De acordo com a plataforma Global Forest Watch, de 2001 a 2021, Mariscal Ramón Castilla perdeu mais de 113.000 ha de floresta primária. Segundo as fontes consultadas, tanto do IIAP como do Manejo Florestal, o desmatamento na província de Mariscal Castilla e seus distritos está intimamente relacionado com a demanda de mandioca, milho amarelo, abacaxi, banana-da-terra, milho duro e feijão caupi, ambos para mercado local, nacional e internacional (Colômbia e Brasil). Embora nem todo o desmatamento possa ser atribuído aos israelenses, deve-se notar que somente o Alto Monte de Israel, o principal centro israelense, agora tem mais de 20.000 hectares desmatados. O desmatamento da dispersa população israelita é difícil de medir, mas supera facilmente o do Alto Monte.

O desmatamento é observado em pequenas parcelas, a maioria das quais com menos de 5 hectares, mas pode ultrapassar 20 hectares, concentrando-se em áreas próximas aos centros povoados de San Pablo, Caballococha, Alto Monte, Cushillo Cocha, Jerusalém, Santa Teresa, Santa Rosa e em as zonas ribeirinhas. Grandes extensões de pastagens também foram geradas para a atividade pecuária, concentrando-se em áreas próximas aos núcleos populacionais de Alto Monte, Caballococha, Santa Teresa, Santa Rosa e também em áreas adjacentes a rios.

A pecuária bovina e caprina é uma das atividades que também tem incentivado o desmatamento. Os distritos mais afetados pelo desmatamento do gado são San Pablo (onde está localizado o Alto Monte de Israel), Ramón Castilla e Yavarí.

Os israelitas praticam uma agricultura migratória não tradicional, através do sistema intensivo de monocultura, entre os quais se destacam o cultivo de arroz, pituca, witina, banana e, em menor escala, o cultivo de kiwicha e mandioca, entre outros. Os israelenses se tornaram a principal força econômica nessa área de fronteira, influenciando cidades como Letícia na Colômbia, Tabatinga no Brasil e Santa Rosa e Iquitos no Peru.

O impacto combinado dos assentamentos israelenses na Amazônia peruana atinge dezenas de milhares de hectares. Estimativas da especialista em monitoramento de desmatamento Carla Limas indicam que é possível que os 36 assentamentos fundados por Ezequiel Ataucusi tenham causado o desmatamento de pelo menos 108 mil hectares. “Se assumirmos que os assentamentos conhecidos ultrapassam os 3.000 hectares, não é descabido pensar nesse número. Estamos falando de processos de colonização de décadas e de uma migração que não parou no tempo. Os israelenses foram pioneiros na ocupação em várias partes da Amazônia peruana. Além disso, pela idade de suas mobilizações, sua verdadeira pegada nas florestas pode nunca ser realmente conhecida”, indica.

Texto original de Iván Brehaut, do site La Brava https://revistalabrava.com

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Mineração ilegal no rio Nanay, Peru, amplia alerta na fronteira

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A fumaça preta subiu sobre o rio Nanay na quinta-feira, 30 de julho de 2026, depois que um grupo instalado em sete dragas impediu uma operação da Marinha do Peru nos arredores de Puca Urco, distrito de Alto Nanay, na região amazônica de Loreto. A ata da ocorrência atribui aos ocupantes das embarcações agressões com pedaços de madeira e o lançamento de um recipiente de combustível incendiado contra os militares, que receberam ordem para recuar. Mulheres e menores de idade estavam no local. O confronto, ocorrido dois dias depois das festas de independência do Peru, expôs a perda de controle sobre uma área onde a mineração ilegal passou a combinar ouro, dinheiro, armas e resistência organizada à fiscalização.

O fogo aparece entre estruturas flutuantes cobertas por lonas. Homens, mulheres e crianças permanecem sobre balsas e embarcações amarradas umas às outras. A cena não se parece com uma frente de mineração isolada, montada às pressas para desaparecer ao primeiro ruído de motor militar. Há moradia, cozinha, combustível, comunicação e gente suficiente para formar uma barreira humana diante da operação. Essa estrutura transforma o rio em território ocupado e aumenta o risco de uma tragédia sempre que as forças de segurança tentam chegar às dragas.

Um dos supostos participantes do ataque já havia sido investigado por outra ocorrência em Puca Urco, em 15 de junho de 2023. O caso, aberto por resistência ou desobediência à autoridade, acabou arquivado. A nova acusação ainda precisa passar por investigação, identificação formal dos envolvidos e direito de defesa. A repetição de confrontos no mesmo lugar, porém, ajuda a compreender por que integrantes do Ministério Público peruano passaram a defender a declaração de estado de emergência e uma intervenção permanente das forças policiais e militares no Alto Nanay.

Entre janeiro e abril de 2026, a Fiscalía peruana registrou 29 pontos de mineração ilegal em Iquitos, Maynas e Nauta. O número cobre apenas ocorrências que chegaram aos órgãos públicos. Em rios extensos, com canais escondidos pela floresta e longas distâncias entre as comunidades, parte das dragas pode funcionar durante semanas sem ser alcançada por qualquer fiscalização.

Puca Urco já havia recebido uma grande operação em junho. A Marinha peruana apreendeu e destruiu balsas, motores, geradores, compressores, bombas, combustível, equipamentos de internet via satélite e outros materiais avaliados em 411.830 soles. Ao longo daquele mês, quatro operações nos rios Nanay, Amazonas, Marañón e Tigre terminaram com 20 dragas destruídas e bens avaliados em mais de 800 mil soles. De janeiro a maio, o governo peruano calculou em mais de 1,2 bilhão de soles o valor de máquinas e insumos destruídos em ações contra a mineração ilegal no país.

Menos de um mês depois, sete dragas estavam reunidas novamente na área. O intervalo curto entre a operação de junho e o confronto de julho expõe o limite das ações temporárias. O Estado chega, destrói equipamentos e parte. A engrenagem que sustenta a mineração continua funcionando por meio de fornecedores de combustível, motores, peças, antenas, alimentos, mercúrio e compradores dispostos a receber o ouro. Uma draga perdida pode ser substituída quando o lucro permanece alto e os financiadores continuam fora do alcance das operações fluviais.

O Nanay não é apenas um caminho para embarcações clandestinas. A bacia fornece água para Iquitos, a maior cidade da Amazônia peruana, e abastece comunidades que dependem diretamente do rio para beber, cozinhar e pescar. A mineração remove o fundo dos cursos d’água, espalha sedimentos e usa mercúrio para separar o ouro. Pesquisas realizadas na região encontraram concentrações do metal acima dos limites recomendados em peixes e em moradores da bacia. O veneno percorre a cadeia alimentar e se acumula no corpo, com riscos maiores para crianças e gestantes.

O confronto de Puca Urco ocorreu dentro de uma crise que já ultrapassou os órgãos ambientais do Peru. Comunidades indígenas e ribeirinhas levaram o país às instâncias da Comunidade Andina por falhas no combate ao garimpo e ao tráfico de mercúrio. Em julho de 2026, o Tribunal de Justiça da Comunidade Andina admitiu um caso contra o Estado peruano por possíveis violações das obrigações regionais de enfrentamento à mineração ilegal. A disputa pode obrigar o governo a rever leis, operações e mecanismos de rastreamento do ouro.

O rio Nanay fica ao norte do Acre e não atravessa a fronteira brasileira. Loreto se relaciona diretamente com o estado do Amazonas, enquanto o território acreano encontra os departamentos peruanos de Ucayali e Madre de Dios. A distância entre Puca Urco e as aldeias do Alto Juruá não quebra, contudo, a conexão entre os crimes. O ouro, a cocaína, a madeira, o combustível, o mercúrio e o dinheiro circulam por redes que atravessam rios, trilhas, estradas clandestinas, pistas de pouso e cidades dos dois países.

Essa ligação ganhou um rosto concreto no início de julho, quando a ameaça atravessou a linha internacional e entrou na Terra Indígena Kampa do Rio Amônia, em Marechal Thaumaturgo, no Acre. Nos dias 5 e 6, homens armados invadiram o território do povo Ashaninka e percorreram a comunidade à procura de lideranças. A denúncia foi apresentada por Francisco Piyãko, coordenador-geral da Organização dos Povos Indígenas do Rio Juruá e uma das principais vozes da comunidade Apiwtxa.

Na noite de 6 de julho, cinco homens encapuzados, armados com fuzis e falando espanhol chegaram à casa de uma liderança que não estava na aldeia. Era a segunda entrada do grupo em poucos dias. Famílias assustadas reuniram as crianças em um imóvel para protegê-las enquanto pediam socorro. Quando as forças de segurança chegaram, os invasores já haviam desaparecido pela floresta, deixando rastros no caminho.

Piyãko afirmou que os homens não entraram no território apenas para retirar madeira, caçar ou usar o rio como passagem. Eles procuravam pessoas específicas. A denúncia entregue às autoridades sustenta que as lideranças corriam risco de morte. “Eles nunca tinham entrado no nosso território. A gente acha isso muita audácia”, afirmou Francisco Piyãko.

A comunicação do caso levou ao envio de equipes do Grupo Especial de Operações em Fronteira, do Centro Integrado de Operações Aéreas, da Secretaria de Justiça e Segurança Pública do Acre e do Exército. O primeiro contingente policial chegou à região no dia 7 de julho, e um novo grupo foi deslocado no dia 9. A presença armada trouxe uma resposta imediata, mas as lideranças Ashaninka cobraram proteção contínua, inteligência e cooperação com o Peru. Missões de alguns dias não acompanham organizações que conhecem os canais dos rios, mudam rotas e esperam a retirada das equipes públicas.

A invasão rompeu uma fronteira que a comunidade conseguiu defender durante décadas. Os Ashaninka do rio Amônia recuperaram áreas degradadas, organizaram sistemas próprios de vigilância, fortaleceram a produção comunitária e impediram a instalação de atividades ilegais dentro da terra indígena. Essa resistência transformou Apiwtxa em barreira contra a ocupação criminosa, mas também colocou suas lideranças no caminho de grupos interessados em abrir rotas entre o Peru e o Brasil.

A conexão está na estrutura que permite aos negócios ilegais crescerem dos dois lados da fronteira: pouca presença permanente do Estado, rios difíceis de vigiar, estradas abertas sem controle, circulação de armas, comunicação por satélite, lavagem de dinheiro e comunidades que se tornam o primeiro obstáculo à passagem dos criminosos.

No lado peruano próximo ao Acre, o departamento de Ucayali concentra uma extensa rede de estradas ilegais usadas por atividades ligadas à retirada clandestina de madeira, ao cultivo de coca, ao tráfico de drogas e a outros crimes ambientais. A abertura ou reativação de ramais aproxima esses negócios das cabeceiras dos rios que entram no Brasil. Desde 2021, Francisco Piyãko já alertava para a reabertura ilegal da estrada UC-105, projetada para ligar Nuevo Italia a Puerto Breu e capaz de pressionar territórios Ashaninka nos dois países.

O avanço das organizações criminosas também mudou a natureza da ameaça. Durante anos, muitas comunidades enfrentaram madeireiros, caçadores e invasores interessados em retirar recursos naturais. Agora, lideranças descrevem grupos que reúnem narcotráfico, mineração ilegal, exploração de madeira, armas e lavagem de dinheiro. As mesmas rotas podem transportar cocaína em uma viagem, combustível em outra e ouro sem origem comprovada no retorno.

Para os Ashaninka, a fronteira política não divide famílias, língua, memória ou território ancestral. Há comunidades no Acre e no Peru, unidas por relações de parentesco e circulação tradicional. Para as organizações criminosas, a linha internacional também perde importância, mas por outra razão: ela cria duas jurisdições, diferentes estruturas policiais e brechas que permitem escapar de uma operação atravessando rios ou caminhos na mata.

A fumaça sobre as balsas do Peru e o medo dentro das casas de Apiwtxa pertencem à mesma crise amazônica, embora não tenham os mesmos responsáveis comprovados. O crime avança onde encontra território, lucro e silêncio. A população local permanece na linha de frente, espremida entre homens armados e operações que chegam depois da denúncia.

Combater essa estrutura exige mais do que destruir dragas ou mandar patrulhas por alguns dias. Brasil e Peru precisam compartilhar inteligência, vigiar o comércio de combustível e mercúrio, rastrear o ouro, bloquear pistas e estradas clandestinas, investigar financiadores, proteger lideranças ameaçadas e manter equipes nas áreas críticas. Sem essa presença, o custo recai sobre quem vive à margem dos rios.

Fonte: OjoPúblico

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Ventanias deixam cinco mortos e rastro de danos em SP e RJ

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As ventanias provocadas pelo avanço de uma frente fria deixaram ao menos cinco mortos, dez feridos e uma sequência de apagões, quedas de árvores e interrupções no transporte nos estados de São Paulo e do Rio de Janeiro entre quarta-feira (29) e quinta-feira (30). O impacto mais severo ocorreu na quarta, quando as rajadas passaram de 120 km/h no interior paulista e de 100 km/h na capital fluminense. Nesta quinta, o vento perdeu força em parte da região, mas milhares de moradores continuavam sem energia, vias permaneciam bloqueadas e equipes trabalhavam na retirada de árvores e na recuperação dos serviços.

Três mortes foram registradas em São Paulo. Em Santos, um homem em situação de rua morreu após ser atingido pela queda de uma árvore na Avenida Almirante Cochrane, no bairro Estuário. Em Cesário Lange, na região de Sorocaba, uma árvore caiu sobre um veículo e matou o motorista. A terceira vítima era um pescador que estava em uma embarcação que naufragou no canal entre São Sebastião e Ilhabela. Outras quatro pessoas que estavam no barco foram resgatadas.

No Rio de Janeiro, duas pessoas morreram depois que um muro desabou em Santa Teresa, na região central da capital. Um corpo também foi encontrado nesta quinta durante as buscas por um pescador desaparecido no mar de Tarituba, em Paraty, mas a identificação ainda não havia sido concluída e o caso não tinha sido incorporado ao balanço oficial das mortes relacionadas à ventania.

As rajadas mais intensas ocorreram no estado de São Paulo. Itaporanga e Itaí registraram ventos de 124,9 km/h, enquanto Taquarituba chegou a 117 km/h. Em Santos, a velocidade alcançou 111,8 km/h. Na Região Metropolitana, houve rajada de 75,3 km/h no bairro da Saúde, na capital, e de 70,4 km/h no Aeroporto de Congonhas.

O vendaval provocou danos mais graves em municípios como Cubatão, Jacareí, Laranjal Paulista, Cesário Lange, São Sebastião, Santos, Peruíbe e São Vicente. Somente na capital e na Grande São Paulo, o Corpo de Bombeiros recebeu 42 chamados para quedas de árvores. Em Santos, foram registrados destelhamentos, quedas de muros e dezenas de árvores derrubadas. Um contêiner caiu sobre a rede elétrica na área portuária.

A falta de energia atingiu 106 mil clientes na área atendida pela Enel em São Paulo durante o pico das ocorrências. Na capital, aproximadamente 62 mil imóveis chegaram a ficar sem luz. O transporte aéreo também sofreu reflexos: Congonhas teve 54 voos cancelados na quarta-feira. Nesta quinta, outras três chegadas e duas partidas foram canceladas durante os ajustes da operação. Em Guarulhos, dois voos precisaram ser direcionados para outros aeroportos na quarta, mas as atividades transcorreram sem novas alterações relevantes nesta quinta.

Na cidade do Rio de Janeiro, o vento chegou a 105,5 km/h no Aeroporto Internacional do Galeão. Também foram registradas rajadas de 95,4 km/h na Marambaia, 87,5 km/h na Vila Militar e 83,3 km/h no Campo dos Afonsos. O Corpo de Bombeiros recebeu centenas de chamados no estado, incluindo cortes de árvores, salvamentos e desabamentos.

O Centro de Operações e Resiliência contabilizava 346 registros de quedas de árvores na capital fluminense até as 19h12 desta quinta-feira. Desse total, 49 ocorrências ainda estavam em atendimento. Os chamados se espalharam pelas zonas Norte, Sul, Oeste e Central, com bloqueios em vias importantes e danos próximos a residências, unidades de saúde e corredores de transporte.

O fornecimento de energia seguia como um dos principais problemas no Rio. No pico da crise, cerca de um milhão de consumidores chegaram a ficar sem luz no estado. No fim da tarde desta quinta, aproximadamente 372 mil clientes ainda estavam sem energia, sendo 296 mil na capital e quase 76 mil em municípios atendidos pela Enel, como Maricá, Paraty, Mangaratiba, Areal, Sumidouro e Três Rios.

A circulação dos trens continuava prejudicada. O ramal Japeri operava parcialmente, com suspensão entre Comendador Soares e Japeri e também na extensão até Paracambi. No ramal Saracuruna, passageiros precisavam fazer baldeação e enfrentavam intervalos maiores. O metrô voltou a operar normalmente após sofrer paralisações e oscilações de energia na quarta-feira. No Aeroporto Santos Dumont, quatro voos foram cancelados nesta quinta como reflexo das condições meteorológicas do dia anterior.

A ventania foi provocada pelo encontro entre o ar quente que predominava sobre parte do Sudeste e a massa de ar frio associada à frente fria. Na cidade de São Paulo, a temperatura no Aeroporto de Congonhas caiu de 29°C para 21°C em cerca de meia hora durante a chegada do sistema. Essa mudança rápida aumentou a velocidade dos ventos e favoreceu a formação das rajadas destrutivas.

Para a noite desta quinta-feira, a previsão para o Rio era de ventos moderados, céu nublado a parcialmente nublado e possibilidade de chuvisco ou chuva fraca isolada. Em São Paulo, ainda havia risco de novas rajadas, principalmente na metade oeste do estado, onde poderiam ocorrer pancadas de chuva, raios e áreas de instabilidade. Na faixa leste, incluindo a capital e o litoral, a tendência era de nebulosidade e chuva fraca em pontos isolados.

Mesmo com a redução da velocidade do vento, o risco permanece em locais com árvores danificadas, muros instáveis, telhados, placas, andaimes e fios elétricos caídos. A recomendação é evitar áreas arborizadas, não estacionar veículos sob árvores, manter distância de estruturas frágeis e nunca tocar em cabos derrubados. Emergências devem ser comunicadas à Defesa Civil pelo número 199 ou ao Corpo de Bombeiros pelo 193.

Foto: Agência Brasil

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Chuvas no Sul: RS tem inundações e Paraná segue em alerta

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As chuvas e os temporais que atingem a Região Sul desde segunda-feira, 27 de julho, deixaram rios acima da cota de inundação, cidades alagadas, estradas bloqueadas e propriedades rurais destruídas no Rio Grande do Sul nesta quarta-feira, 29. A instabilidade avançou durante a madrugada sobre Santa Catarina e chegou ao Paraná, empurrada por uma frente fria, por áreas de baixa pressão e por uma corrente de ventos que transporta calor e umidade para o centro-sul do continente. O Rio Grande do Sul permanece como o ponto mais grave da crise, enquanto catarinenses e paranaenses acompanham o deslocamento das tempestades para o norte.

No interior de Selbach, a agricultora Rosângela Castelli, de 47 anos, correu com o marido, a filha e a sogra para dentro do banheiro quando o vento cercou a propriedade da família na noite de terça-feira. “A casa foi a única coisa que ficou intacta”, contou. Árvores foram arrancadas, um galpão perdeu o telhado e o barracão usado no manejo dos animais ficou destruído. Na manhã seguinte, vizinhos e trabalhadores retiravam ferragens e postes que haviam caído sobre as camas das vacas. A ordenha robotizada precisou funcionar com gerador, enquanto a família tentava manter os animais alimentados e reconstruir uma rotina interrompida em poucos segundos.

A cena vivida por Rosângela resume o tamanho do problema desta semana: a chuva não atinge apenas ruas e casas próximas aos rios. Ela entra na produção de leite, derruba instalações, mata animais, interrompe estradas e corta energia. Em Giruá, Sete de Setembro e Senador Salgado Filho, outro tornado destruiu casas e galpões, derrubou árvores e deixou quatro pessoas da mesma família feridas. Três continuavam hospitalizadas nesta quarta-feira. “É uma vida que eu perdi”, disse o agricultor Gilço Amaral Mikocak, que se protegeu debaixo de uma mesa antes de pedir socorro por mensagem.

Até o meio-dia desta quarta-feira, pelo menos 85 municípios gaúchos haviam registrado estragos. Seis rios estavam acima da cota de inundação em dez cidades e havia ao menos 18 bloqueios em rodovias estaduais. O quadro inclui alagamentos urbanos, granizo, destelhamentos e quedas de árvores. A Defesa Civil emitiu alertas vermelhos para trechos dos rios Taquari, Gravataí e Uruguai, com risco muito alto de inundação, além de acompanhar a elevação do Jacuí, do Caí e do Sinos.

A água que cai agora encontra um território com pouca capacidade de absorção. Em várias áreas do norte, da Serra, dos Vales e da Região Metropolitana, o solo já estava encharcado pelas chuvas anteriores. Passo Fundo havia acumulado 328 milímetros em julho até a tarde de terça-feira, mais que o dobro da média histórica do mês. Vacaria somava 335,8 milímetros, enquanto Lajeado chegava a 223 milímetros. Quando a terra está saturada, uma parcela maior da chuva corre diretamente para ruas, arroios e rios, acelerando enxurradas e elevações repentinas.

O Instituto Nacional de Meteorologia trabalha com acumulados que podem alcançar 200 milímetros em pontos do Rio Grande do Sul entre 27 de julho e 3 de agosto. Na terça-feira, áreas gaúchas estiveram sob aviso vermelho para volumes superiores a 100 milímetros em 24 horas. A combinação de uma frente fria no oceano, um corredor de baixa pressão entre o Paraguai e o Sul do Brasil e a intensificação do Jato de Baixos Níveis criou condições para chuva intensa, granizo e rajadas de vento. Esse jato funciona como uma faixa de ventos nos primeiros quilômetros da atmosfera, levando umidade e ar aquecido para a região onde as tempestades se formam.

Em Santa Catarina, a madrugada e a manhã desta quarta-feira foram marcadas por temporais, raios, rajadas de vento e granizo no Grande Oeste, nos Planaltos e no Litoral Sul. Na metade leste, a chuva permaneceu por mais tempo e alcançou intensidade moderada em diferentes pontos. A Defesa Civil classificou como moderado a alto o risco de alagamentos, destelhamentos, danos na rede elétrica e quedas de árvores. A tendência é de afastamento das instabilidades durante a tarde, com tempo mais firme na quinta-feira e chuva fraca isolada no Litoral, no Vale do Itajaí e nos Planaltos.

A trégua catarinense, porém, não representa o fim da vigilância. O tempo deve permanecer firme em grande parte do estado na sexta-feira, mas os ventos ganham força. No sábado, uma nova frente fria se aproxima das áreas próximas à divisa com o Rio Grande do Sul. No domingo, voltam as condições para pancadas de chuva e temporais isolados, principalmente no sul catarinense.

No Paraná, o risco se deslocou para o noroeste, oeste e centro do estado nesta quarta-feira. A previsão inclui chuva intensa em curto intervalo, descargas elétricas, granizo e rajadas fortes. Na quinta-feira, as tempestades devem ficar mais concentradas no oeste, com atenção para municípios como Umuarama, Cascavel e Francisco Beltrão. Outras áreas paranaenses ainda podem receber chuva isolada. A sexta-feira tende a ser mais estável, embora rajadas entre 40 e 60 quilômetros por hora possam atingir o oeste e o sul do estado.

O fim de semana exige acompanhamento contínuo. O INMET prevê nova intensificação da chuva no Rio Grande do Sul, especialmente na porção sul, com volumes que podem chegar a 60 milímetros. Em Santa Catarina, a frente fria retorna pela divisa gaúcha. A localização exata das tempestades mais severas pode mudar à medida que o sistema avança, mas o risco cresce quando vento, granizo e chuva volumosa encontram rios elevados, encostas úmidas e estruturas já danificadas.

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