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Direto ao ponto

Espantoso! Bittar diz que pediu atenção a processo de Gladson e fala abre debate sobre influência política

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Senador afirmou em podcast que, quando há acesso a alguém “importante”, é possível pedir que a pessoa “dê uma olhada melhor” em um processo; declaração ocorreu após condenação de Gladson Cameli no STJ

Há declarações políticas que, pela gravidade institucional, ultrapassam o terreno da simples opinião e passam a exigir debate público. A entrevista do senador Márcio Bittar ao podcast Papo Informal, de Luciano Tavares, parece ser uma delas.

Ao comentar a condenação do ex-governador Gladson Cameli pelo Superior Tribunal de Justiça, Bittar relatou que tentou ajudar o aliado político acionando pessoas que, segundo ele, poderiam olhar o caso com mais atenção. O senador afirmou que, quando alguém tem acesso a uma pessoa “importante”, pode pedir que ela “dê uma olhada melhor” em determinado processo.

A frase, por si só, levanta questionamentos. Mas o contexto a torna ainda mais relevante.

Não se tratava de um processo qualquer. Gladson enfrentava uma das maiores ações penais da história política do Acre, acusado de integrar um esquema envolvendo fraudes em licitações, lavagem de dinheiro, peculato, corrupção e organização criminosa. Em 6 de maio de 2026, a Corte Especial do STJ condenou o ex-governador a 25 anos e 9 meses de prisão.

Foi sobre esse processo que Bittar relatou ter feito gestões pessoais para chamar atenção à tese da defesa.

O senador justificou a atitude dizendo que agiu por amizade e humanidade, diante da alegação dos advogados de Gladson de que haveria provas obtidas de forma irregular. O ponto sensível é que essa não era uma conversa abstrata sobre garantias constitucionais. Era precisamente uma das principais linhas adotadas pela defesa do ex-governador no STF.

Nos últimos meses, os advogados de Gladson recorreram sucessivamente ao Supremo Tribunal Federal tentando suspender, limitar ou esvaziar partes do processo no STJ.

Em novembro de 2025, o ministro Gilmar Mendes suspendeu temporariamente o andamento da ação penal após pedido da defesa envolvendo acesso a documentos do Coaf.

Em dezembro, a Segunda Turma do STF anulou parte das provas produzidas entre 2020 e 2021, acolhendo parcialmente argumentos sobre diligências supostamente realizadas sem supervisão adequada do STJ.

Em abril de 2026, o ministro André Mendonça voltou a determinar o desentranhamento de provas daquele período, o que alimentou nova ofensiva jurídica da defesa para tentar barrar ou adiar o julgamento.

Tudo isso ocorreu enquanto os advogados sustentavam justamente a tese mencionada por Bittar no podcast: a existência de provas irregulares.

Ou seja: o senador não estava comentando genericamente o funcionamento da Justiça. Ele falava sobre um processo concreto, em andamento, envolvendo um aliado político poderoso, cuja estratégia jurídica dependia diretamente de decisões no Supremo Tribunal Federal.

É nesse ponto que a fala assume peso institucional.

Bittar não é um cidadão comum comentando o caso de um amigo. É senador da República. Ocupa cargo de poder, transita em Brasília, participa de articulações políticas nacionais e tem acesso a espaços que a maioria da população jamais terá. Por isso, quando ele afirma que tentou chamar atenção de pessoas “importantes” para o processo de Gladson, a declaração abre um debate necessário sobre os limites entre amizade, política e Justiça.

A defesa de qualquer acusado tem direito ao contraditório, à ampla defesa, ao devido processo legal e ao uso de todos os recursos previstos em lei. Gladson, como qualquer cidadão, tinha e tem direito de recorrer, questionar provas, apontar nulidades e buscar decisões favoráveis nos tribunais superiores.

O problema não está no exercício técnico da defesa. O problema aparece quando uma autoridade política trata como normal a possibilidade de acionar relações pessoais para pedir atenção especial a um processo criminal de aliado.

Esse não é o caminho acessível ao cidadão comum.

O trabalhador processado, o pequeno comerciante investigado, o servidor público acusado injustamente, a mãe assistida pela Defensoria Pública, nenhum deles dispõe do privilégio de telefonar para “pessoas importantes” em Brasília pedindo atenção especial ao próprio processo.

Eles dependem dos autos. Dependem do protocolo. Dependem do advogado. Dependem do prazo. Dependem da fila. Dependem da burocracia.

A fala de Bittar alimenta justamente a percepção de que autoridades com mandato podem ter acesso a caminhos que não estão disponíveis à maior parte da população. E essa percepção, por si só, já é danosa para a confiança pública nas instituições.

É importante fazer a distinção jurídica correta.

Até aqui, não há prova pública de crime. A simples declaração de Bittar, isoladamente, não comprova tráfico de influência, interferência efetiva no Judiciário ou qualquer conduta penalmente enquadrável. O artigo 332 do Código Penal, que trata do tráfico de influência, exige elementos específicos, como solicitação ou obtenção de vantagem indevida a pretexto de influenciar ato de funcionário público.

Mas reduzir o problema apenas à existência ou não de crime seria minimizar a dimensão real do episódio.

Há condutas que podem não configurar crime e, ainda assim, serem politicamente graves, moralmente questionáveis e institucionalmente corrosivas.

A Constituição estabelece a independência entre os Poderes e determina que a administração pública seja regida pelos princípios da legalidade, impessoalidade e moralidade. A lógica republicana existe exatamente para impedir que amizade, proximidade política ou prestígio pessoal criem atalhos dentro do Estado.

O próprio Código de Ética da Magistratura Nacional afirma que juízes devem atuar sem influência externa indevida e preservar distância equivalente das partes. Mais do que ser imparcial, a Justiça precisa parecer imparcial.

A fala de Bittar produz justamente o efeito contrário: reforça, na opinião pública, a sensação de que existe uma Justiça mais acessível aos influentes e outra reservada aos cidadãos comuns.

O episódio ganha contornos ainda mais delicados porque Bittar não é um observador externo. Trata-se de um senador da República, aliado político de Gladson Cameli e figura com trânsito no campo da direita acreana e nacional. Sua fala, portanto, não é a de um amigo comum. É a de alguém que ocupa posição de poder dentro da República e relata ter buscado ajuda em torno de um processo criminal de grande repercussão.

A ministra Nancy Andrighi acabou rejeitando a tese central da defesa, afirmando que as provas anuladas pelo STF não sustentavam nem a denúncia nem o mérito da condenação. O STJ entendeu que havia elementos autônomos suficientes para condenar Gladson.

Mas a gravidade política da entrevista permanece.

Porque o centro da questão já não é apenas o resultado do julgamento. É o retrato institucional sugerido pela fala do senador: um ambiente em que autoridades parecem considerar natural acionar relações pessoais para tentar ajudar aliados diante da Justiça.

Em síntese: a defesa de Gladson tinha o direito de recorrer ao STF, discutir nulidades e questionar provas. Isso faz parte do Estado Democrático de Direito.

O que causa preocupação é outra coisa. É um senador da República tratar como gesto comum o uso de acesso privilegiado para pedir atenção especial ao processo criminal de um aliado político.

Numa democracia saudável, Justiça se acessa por direitos.

Não por amizade.

Não por influência.

E muito menos pelos corredores invisíveis do poder.

Assista ao vídeo:

Direto ao ponto

A escolha que vai definir a coerência da chapa de Jorge Viana

Com a saída de Binho Marques, Naluy Macedo, Nazaré Araújo e Aníbal Diniz aparecem nos bastidores para a primeira suplência da chapa ao Senado.

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A impossibilidade de Binho Marques permanecer como primeiro suplente abre uma nova etapa na composição da chapa de Jorge Viana. A definição de quem ocupará a vaga passa a se relacionar com o discurso de futuro apresentado pelo candidato. Entre os nomes que circulam nos bastidores estão Naluy Macedo, Nazaré Araújo e Aníbal Diniz.

Naluy Macedo levaria para a chapa a participação do PCdoB, dos movimentos de mulheres e de uma geração que busca espaço nas decisões. Vice-presidente do partido em Rio Branco e presidente da União Brasileira de Mulheres no Acre, atua na defesa do SUS, da educação pública e de políticas para as mulheres e para a juventude negra e periférica. Importante pontuar que Naluy se torna um nome para o futuro, pois ela atualmente é concursada no Estado.

Nazaré Araújo acrescentaria experiência na administração estadual. Foi vice-governadora, exerceu o governo e participou de ações nas áreas de assistência social e políticas para as mulheres. Na primeira suplência, levaria à chapa conhecimento sobre o funcionamento do Executivo estadual.

Aníbal Diniz levaria para a chapa o conhecimento do Senado e da organização política do grupo. Foi secretário de Comunicação nos governos de Jorge Viana e Binho Marques e exerceu mandato de senador. Sua indicação manteria a relação da suplência com a trajetória do projeto.

Binho continuará na coordenação das campanhas de Jorge Viana e Thor Dantas. Sua participação preserva o vínculo com a chapa e permite que contribua na formulação de propostas, na articulação com os partidos e no diálogo com setores da sociedade.

Jorge tem defendido a participação de Binho nas discussões sobre o futuro do Acre e sobre as próximas disputas. A permanência dele na campanha mostra que a mudança na suplência não representa afastamento do projeto, mas o exercício de outra função dentro da mesma construção.

Carla Brito permanece como segunda suplente, mantendo na composição a presença feminina e a representação do Podemos e do Vale do Juruá. A definição da primeira suplência pode incluir o PCdoB e os movimentos sociais, por meio de Naluy; a experiência de governo de Nazaré; ou a passagem de Aníbal pelo Senado.

A palavra política pertence a Jorge Viana, em diálogo com os partidos da Frente Ampla. Os nomes apresentados nos bastidores possuem atuação pública e relação com o projeto. A coerência estará em escolher quem poderá representar a aliança e assumir as responsabilidades da função.

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Acre

Repetição convence. Trajetória permite avaliar

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A grande regra de uma campanha é repetir uma mensagem simples, clara e consistente até que ela seja facilmente reconhecida pelo público.

Isso não significa falar exatamente a mesma coisa todos os dias. Significa reforçar a mesma ideia central por diferentes ângulos, formatos e exemplos.

Existe, inclusive, um fenômeno estudado pela psicologia chamado efeito da verdade ilusória. Ele mostra que, quando uma afirmação é repetida várias vezes, ela se torna mais familiar e, por isso, tende a parecer mais plausível para as pessoas.

É justamente por isso que a repetição é uma ferramenta tão poderosa.

Mas há uma diferença fundamental: em uma comunicação ética, a repetição serve para fixar uma mensagem verdadeira, útil e verificável, nunca para fabricar uma “verdade”.

Se você muda sua mensagem a cada postagem, o público dificilmente saberá pelo que você quer ser lembrado. A consistência constrói reconhecimento, confiança e posicionamento.

Na política, essa lógica também está presente. Toda campanha procura estabelecer uma narrativa, um slogan, uma identidade e uma mensagem capaz de ser facilmente reconhecida pelo eleitor. Isso faz parte da estratégia de comunicação.

O problema começa quando o eleitor passa a confundir reconhecimento com capacidade.

Uma campanha eficiente pode fazer com que um candidato seja lembrado. Mas ser lembrado não responde, por si só, à pergunta mais importante de uma eleição para o Poder Executivo: quem está preparado para governar?

Governar um Estado é diferente de legislar. Também é diferente de atuar como gestor técnico. O governador administra um orçamento bilionário, coordena secretarias, lidera milhares de servidores, executa políticas públicas e responde diretamente pelos resultados da administração estadual. Já deputados e senadores exercem funções constitucionais voltadas à elaboração de leis, fiscalização e representação política. Gestores técnicos, por sua vez, podem acumular grande experiência administrativa sem, necessariamente, terem exercido a chefia do Poder Executivo.

Essa distinção não estabelece uma hierarquia entre as funções. Apenas demonstra que são experiências institucionais diferentes, com responsabilidades distintas.

No Acre, os nomes que se apresentam para a disputa de 2026 refletem exatamente essa diversidade de trajetórias.

A atual governadora Mailza Assis chegou ao comando do Estado após exercer a vice-governadoria, assumindo o governo em razão da desincompatibilização do então governador Gladson Cameli. Antes disso, exerceu mandato de senadora na condição de suplente. A eleição de 2026 será a primeira em que disputa a chefia do Poder Executivo estadual como cabeça de chapa, submetendo diretamente seu nome e sua gestão, pouco mais de 3 meses, ao julgamento do eleitor.

O senador Alan Rick construiu sua trajetória política no Poder Legislativo, tendo exercido mandato de deputado federal e, atualmente, de senador. Sua experiência pública está concentrada na atividade parlamentar.

Tião Bocalom possui uma trajetória consolidada no Poder Executivo. Foi prefeito de Acrelândia por três mandatos e prefeito de Rio Branco por dois mandatos. No segundo mandato na capital, renunciou ao cargo para disputar o Governo do Acre nas eleições de 2026. Sua experiência pública está concentrada na administração municipal, com atuação direta na gestão do Poder Executivo.

Thor Dantas tem sua atuação ligada à gestão técnica e ao serviço público, tendo coordenado equipes e projetos, inclusive durante a pandemia. Sua experiência, entretanto, não inclui a chefia de um Poder Executivo estadual ou municipal.

Esses fatos ajudam a responder uma pergunta que toda democracia madura deveria fazer: quais experiências cada candidato traz para o cargo que pretende ocupar?

A comunicação continuará sendo decisiva. Os slogans serão repetidos. Os vídeos serão compartilhados. As redes sociais amplificarão mensagens todos os dias.

Mas, quando as urnas se abrirem, talvez a pergunta mais importante não seja quem conseguiu repetir melhor uma mensagem, e sim qual trajetória demonstra maior aderência às responsabilidades do cargo em disputa.

A estratégia de comunicação pode apresentar um candidato. A história de vida e a experiência pública permitem ao eleitor compreender quem ele é.

No fim, campanhas podem tornar uma mensagem conhecida. A trajetória é que oferece elementos concretos para que cada cidadão forme o seu próprio julgamento.

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Direto ao ponto

A esquerda sem nome

A ausência de uma candidatura identificada com a esquerda expõe uma crise de representação. O PT foi, por mais de três décadas, o único partido competitivo desse campo.

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No Acre, nas eleições para o governo estadual, a esquerda nunca construiu uma alternativa eleitoral relevante fora do PT. A frase pode soar dura, mas a série histórica de 1990 a 2022 demonstra claramente e lhe dá sustentação. Não se trata de negar a existência de outros partidos, militantes ou tradições progressistas. Trata-se de reconhecer que, na disputa pelo Palácio Rio Branco, somente o PT conseguiu transformar identidade de esquerda em voto competitivo, organização duradoura e vitória.

O movimento começou antes da primeira vitória. Em 1990, Jorge Viana recebeu 28,34% dos votos válidos no primeiro turno, avançou à etapa decisiva e terminou com 45,39%. Quatro anos depois, Tião Viana alcançou 24,68%. O PT ainda não governava, mas já ocupava um espaço político reconhecível. Havia nome, partido, oposição e um eleitorado capaz de identificar quem representava aquele campo.

A virada veio em 1998, quando Jorge Viana venceu no primeiro turno com 57,70%. Em 2002, chegou a 63,58%, o ponto mais alto da série. Depois vieram Binho Marques, em 2006, e duas vitórias de Tião Viana, em 2010 e 2014. Foram cinco eleições consecutivas vencidas por candidatos do PT e vinte anos de governo. Todas as vitórias classificadas pelo relatório como de esquerda tiveram a mesma sigla.

Reprodução do gráfico “Esquerda x centro/direita”, do relatório Eleições para o Governo do Acre — análise histórica e ideológica, 1990 a 2022. (Elaborado por André Cajarana) O levantamento mostra a participação dos dois campos nos votos válidos do primeiro turno ao longo de 32 anos.

A dependência fica ainda mais clara quando se observam as demais candidaturas desse campo. O PSOL obteve 0,34% em 2006, 0,56% em 2014 e 0,26% em 2022. A REDE registrou 0,66% em 2018. Em 2022, Jorge Viana teve 24,21%, enquanto a soma de todas as candidaturas classificadas como de esquerda foi de 24,47%. Por cálculo, o PT respondeu por aproximadamente 98,9% desse voto. Eleitoralmente, na disputa pelo governo, o PT não foi apenas o maior partido da esquerda acreana: foi quase toda a sua expressão.

A série histórica pode ser resumida em quatro números: cinco vitórias consecutivas do PT, vinte anos de governo, um pico de 63,58% em 2002 e uma participação de 24,47% em 2022.

Isso não significa que a identidade petista permaneceu intacta. Depois do auge de 2002, a curva recuou. O campo de esquerda somou 50,29% no primeiro turno de 2014, caiu para 35,21% em 2018 e chegou a 24,47% em 2022, uma perda de 39,11 pontos percentuais desde o pico. A retração também foi territorial: em 2002, a esquerda superava 50% em 19 municípios; em 2022, não alcançou maioria agregada em nenhum. Naquele último pleito, ficou abaixo de 26% tanto em Rio Branco quanto no conjunto do interior.

Há, portanto, uma corrente histórica de eleitores que votou na esquerda, ou naquilo que reconhecia como esquerda, durante mais de três décadas. Essa corrente não surgiu de uma abstração. Ela foi organizada por candidaturas, símbolos, lideranças e uma narrativa de pertencimento. Pode ter diminuído, mas não pode ser declarada extinta apenas porque deixou de encontrar uma oferta eleitoral equivalente.

É justamente aí que 2026 adquire importância. No cenário político apresentado até agora, o PT não pretende lançar candidatura ao governo, e nenhum outro partido de esquerda ocupa esse espaço. Thor Dantas, por sua vez, não reivindica a representação desse campo e afirma não se alinhar nem à esquerda nem à direita. Se esse quadro chegar às urnas, a eleição não terá apenas uma esquerda enfraquecida: terá uma esquerda sem candidato que se apresente como tal.

A pesquisa Delta encomendada pela TV Gazeta, divulgada nesta sexta-feira, 17 de julho, registra o senador Alan Rick com 38,27% no cenário estimulado. A Governadora Mailza Assis aparece com 19,48% e Tião Bocalom com 19,28%, tecnicamente empatados. Thor Dantas tem 1,79%; brancos e nulos somam 4,08%, e 17,10% não sabem ou não responderam. Na espontânea, Thor é citado por 0,10%, enquanto 71,37% não sabem ou não respondem. O levantamento ouviu 1.006 pessoas nos municípios acreanos entre 11 e 15 de julho, com margem de erro de três pontos percentuais e nível de confiança de 95%.

Esses números não provam que Thor tem baixo desempenho porque rejeita uma identidade ideológica. A pesquisa mede intenção de voto, não as causas de cada escolha. Seria imprudente transformar correlação em explicação. Mas o levantamento permite uma pergunta legítima: quem conversa hoje com o eleitor que, em 2022, ainda entregou quase um quarto dos votos válidos às candidaturas classificadas como de esquerda?

Dizer que não se é de esquerda nem de direita pode parecer uma tentativa de ampliar o eleitorado. Contudo, neutralizar a identidade não cria automaticamente uma síntese; às vezes apenas deixa órfãos os que procuravam representação. Eleição não é um seminário de teoria política, mas tampouco é uma disputa sem memória. O eleitor vota em pessoas, governos e circunstâncias, porém também vota em pertencimentos acumulados ao longo do tempo.

Identidade ideológica, sozinha, não garante vitória. O próprio declínio do PT demonstra isso. São necessários liderança, estrutura, credibilidade, programa e capacidade de interpretar o presente. Mas a ausência de identidade cobra um preço: dificulta explicar a razão de existir de uma candidatura, distingui-la das demais e conservar uma base quando o ambiente se torna adverso. Sem identidade, uma força política pode até receber votos; dificilmente constrói continuidade.

Para o PT, abrir mão da candidatura ao governo não seria apenas uma decisão tática. Significaria renunciar ao principal palco em que o partido construiu sua história no Acre. Um partido pode apoiar aliados, disputar cargos proporcionais e sobreviver institucionalmente. Ainda assim, quando deixa de apresentar ao eleitor uma interpretação própria do Estado, perde centralidade, voz e capacidade de formar novas lideranças.

Por isso, falar agora em fim definitivo do PT seria precipitado. Mas é possível dizer que  politicamente: o ciclo iniciado em 1998 já terminou, e 2026 pode marcar o desaparecimento do PT como competitivo na eleição para o Governo do Acre.

A possível pá de cal não está apenas na derrota passada, mas na ausência presente. Em 2018 e 2022, a esquerda perdeu nas urnas; em 2026, corre o risco de nem disputar sua própria identidade. Para um campo político que já governou o Acre por vinte anos e chegou a reunir 63,58% dos votos válidos, esse vazio merece mais do que silêncio.

Merece uma reflexão direta: quando uma corrente de eleitores continua existindo, mas ninguém aceita representá-la pelo nome, o problema não é somente eleitoral. É uma crise de identidade, organização e futuro.

Foto: Sérgio Vale

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