Tensões surgiram na Marcha para Jesus deste ano com a presença da vice-governadora Mailza Assis, gerando debates nos bastidores. Enquanto líderes religiosos reiteravam que o propósito do evento era exclusivamente celebrar a fé em Jesus Cristo, a demonstração de apoio político, evidenciada pelo boné que ela usou com o nome do ex-presidente não reeleito em 2022, desviou o foco para questões partidárias e ideológicas.
“A presença da vice-governadora Mailza Assis na Marcha para Jesus não foi apenas uma participação comum, mas sim uma demonstração de apoio político.” Para alguns líderes, essa atitude desviou o foco do evento religioso para questões políticas, indo contra a decisão dos organizadores de que a marcha seria exclusivamente para Jesus e não um desfile de políticos ou posições políticas ideológicas.
Lideranças comentavam nos bastidores que a atitude da vice-governadora sugere que “ou ela não foi devidamente informada sobre a natureza do evento, o que seria impossível pela sua formação e conduta.”
“É essencial que nossos líderes políticos reconheçam os limites entre expressar suas crenças pessoais e respeitar o propósito de eventos religiosos.” Alguns citaram que outros políticos estiveram presentes, mas se colocaram em anonimato.
Questionada por jornalista, Mailza Assis afirmou que escolheu o boné aleatoriamente: “Eu sempre gosto de sair na Marcha Para Jesus com boné, peguei o primeiro que vi pela frente. Foi aleatório”, garantiu.
No Brasil, sempre aparece um motivo para dizer que o ano ainda não começou. Primeiro é o Carnaval. Depois a Páscoa. Em seguida vêm as festas juninas. Quando se percebe, já tem férias, segundo semestre, Natal se aproximando e em ano eleitoral, político correndo atrás do tempo perdido.
É, em ano eleitoral, essa sensação fica ainda maior. E, quando tem Copa do Mundo no meio, a política precisa disputar atenção com quase tudo: futebol, arraial, igreja, família, rede social, festa de bairro, conversa de esquina e conta para pagar.
É nesse clima que a nova pesquisa Real Time Big Data no Acre deve ser lida. Não como sentença, nem como ponto final. O levantamento mostra um momento em que a política já se mexe nos bastidores, os grupos já fazem suas contas, os pré-candidatos tentam ocupar espaço, mas boa parte do eleitorado está de longe.
A eleição, por enquanto, ainda não pegou fogo.
Tem Copa, tem São João, tem roçado, tem comércio, tem gente trabalhando, tem família se organizando e tem muito eleitor que só vai parar para olhar política mais adiante. Os nomes aparecem quando são colocados na mesa, mas isso não quer dizer que a disputa já tenha tomado conta da rua, da feira, do bairro, da igreja ou da conversa espontânea do povo.
O ambiente, neste momento, parece mais importante do que o placar.
Mas há uma contradição que não pode passar despercebida.
O Acre foi, nos últimos ciclos eleitorais, um dos estados onde o discurso conservador, antipetista e moralizante encontrou terreno fértil. Pátria, família, Deus, bons costumes e combate à corrupção viraram palavras repetidas em palanques, redes sociais, igrejas e rodas de conversa.
Também se tornou comum ouvir que não se vota em “ladrão”, que não se protege “bandido de estimação” e que corrupção não pode ser tolerada.
Por isso, chama atenção que, dentro da amostra de 1.600 eleitores ouvidos pela pesquisa, apareça em posição de destaque para uma disputa majoritária um condenado pelo Superior Tribunal de Justiça a mais de 25 anos de prisão por crimes ligados a organização criminosa, corrupção ativa e passiva, peculato, lavagem de dinheiro e fraudes em licitações. A defesa nega irregularidades e ainda pode recorrer. Mas o fato político está posto.
A questão, portanto, não é apenas eleitoral. É cultural.
Esse talvez seja o ponto mais sensível do levantamento. A pesquisa não mede apenas intenção de voto. Ela também expõe o espaço que existe entre aquilo que parte do eleitorado diz defender e aquilo que aceita na prática.
É cedo para cravar qualquer coisa. Mas não é cedo para observar o ambiente.
A política ainda tenta entrar de vez na rotina do eleitor. Enquanto isso, a Copa, os arraiais, o trabalho, a igreja e a vida real ocupam o centro da cena.
Pode até não ser crime, mas tem peso moral e consequências políticas. Em Brasília, a regra é velha: quando um poderoso se vê acuado, a caneta vira arma, e a pauta vira escudo.
Foi assim com Eduardo Cunha. Acuado, pressionado e com o próprio mandato por um fio, ele partiu para cima de Dilma Rousseff. Depois, em entrevistas, fez questão de se colocar como um dos grandes responsáveis pelo impeachment. Aquilo não foi apenas uma disputa jurídica; foi também briga política, vingança, sobrevivência e cálculo frio de poder.
A pergunta agora é se Davi Alcolumbre pode seguir caminho parecido.
A comparação não é perfeita. Cunha era mais explosivo, mais frontal, mais disposto ao confronto aberto. Alcolumbre é diferente. Age mais no bastidor, no acordo, no aperto silencioso. Mas o mecanismo começa a lembrar: quem controla a pauta controla o medo.
Hoje, Alcolumbre tem nas mãos várias armas. Pode acelerar ou segurar CPIs. Pode pautar projetos que criam rombo para o governo. Pode dificultar indicações ao STF. Pode abrir espaço para discussões sobre impeachment de ministros do Supremo. Pode deixar o governo sangrar sem precisar declarar guerra.
E impeachment de Lula? Hoje parece mais ameaça do que realidade. Não há clima claro para isso como houve em 2016. Mas, em Brasília, ameaça também tem valor. Serve para assustar, negociar, cobrar proteção e medir força.
Já o impeachment de ministro do STF é uma arma mais próxima do Senado. Mesmo que não avance até o fim, só a possibilidade de pautar o tema já pressiona o Supremo, anima a oposição e encarece qualquer movimento contra o presidente da Casa.
É aí que mora o risco.
Quando um presidente do Congresso passa a operar como alguém que precisa se defender, cada pauta deixa de ser apenas pauta. Vira recado. Vira moeda. Vira escudo.
Cunha usou a caneta como míssil. Alcolumbre, por enquanto, parece usar como torniquete: aperta, solta, condiciona, negocia. Mas se a pressão aumentar, o torniquete pode virar bomba.
A questão não é se Alcolumbre é outro Cunha em personalidade. A questão é se ele pode ocupar o mesmo papel: o de um homem acuado, poderoso e disposto a transformar o Congresso numa trincheira de sobrevivência.
E quando isso acontece, o país inteiro paga a conta.
Foto: Jonas Pereira/Agência Senado / Plenário do Senado Federal durante sessão deliberativa ordinária.
Quando falta até dipirona, o debate sobre saúde deixa de ser promessa e vira urgência
Thor Dantas defendeu ampliação de leitos, novo hospital, valorização dos profissionais da saúde, medicamentos básicos e retomada da capacidade de planejamento no Acre
Quando um médico infectologista que atua diariamente na rede de saúde afirma que faltam antibiótico simples, dipirona e remédio para febre e dor, o debate sobre saúde pública deixa de ser apenas promessa de campanha e passa a tocar no cotidiano mais imediato da população.
Foi o que ocorreu na entrevista do médico infectologista Thor Dantas ao jornalista Roberto Vaz, no Bar do Vaz. Ao ser perguntado se, em um eventual governo, haveria medicamento para a população, principalmente a mais carente, Thor foi direto ao ponto. Disse que esse é “o essencial” e que “o básico do básico” está faltando. E citou a falta de antibiótico simples, dipirona e remédio para febre e dor.
A frase tem força porque traduz, em linguagem direta, uma queixa conhecida de quem depende do serviço público: conseguir a consulta, sair com a receita na mão e não encontrar o remédio necessário na unidade de saúde.
Thor usou esse exemplo para reforçar uma tese que atravessou boa parte da entrevista: o problema do Acre não está apenas na falta de dinheiro, mas na falta de planejamento, execução e coordenação. Segundo ele, há áreas da saúde que são caras, mas também existem problemas básicos que poderiam ser enfrentados com organização, trabalho em equipe e integração com os municípios.
Na saúde, o pré-candidato apontou a falta de leitos como um dos principais gargalos do Estado. Disse que o Acre tem hoje uma carência grande nessa área e defendeu a construção de um novo hospital, afirmando que a Fundacre já não dá conta da demanda.
Thor também relacionou a superlotação do pronto-socorro à falta de leitos de retaguarda. Segundo ele, muitos pacientes ficam acumulados nos corredores porque não há vagas suficientes para internação em hospitais ou UTIs.
Outro ponto defendido por ele foi a contratação de especialistas formados no próprio Acre. Thor afirmou que o Estado forma cerca de 50 especialistas por ano, em 11 especialidades diferentes, mas muitos acabam indo embora porque não encontram oportunidade, salário adequado ou plano de carreira.
Thor também defendeu a retomada do debate sobre o PCCR da saúde, valorização salarial, melhores condições de trabalho e investimento em qualificação profissional. Ele propôs a criação de uma residência em urgência e emergência e cursos de capacitação para os profissionais que atuam no pronto-socorro.
A lógica apresentada por Thor é que não há saúde de qualidade sem servidor valorizado. Plantões sucessivos, cansaço, baixa remuneração e falta de estrutura atingem tanto o profissional quanto o paciente. Para ele, valorizar quem trabalha na ponta é parte do caminho para melhorar o atendimento.
A proposta de articulação com os municípios também apareceu como ponto central. Thor afirmou que o SUS é um pacto entre governo federal, governo estadual e prefeituras, e que o Estado precisa liderar essa integração. Segundo ele, é na atenção básica que se cuida da pressão alta, do diabetes, do pré-natal, das crianças e de problemas que, quando não tratados a tempo, acabam chegando de forma mais grave e cara aos hospitais.
A frase é simples, mas carrega uma visão de gestão: tratar antes para não remediar tarde. Cuidar da hepatite para evitar transplante. Controlar diabetes e pressão alta para evitar hemodiálise. Garantir medicamento básico para impedir que um problema simples vire emergência.
Esse raciocínio também se conecta ao que Thor disse sobre obras e investimentos públicos. Thor afirmou que o Acre tem dinheiro para investir, mas não consegue transformar boa parte desses recursos em obras e melhorias para a população. Segundo ele, o Estado executa “não mais do que 35%” do que tem disponível para investimento. Ele também citou problemas como obras sem qualidade, construção civil parada e hospitais sem os investimentos necessários.
A leitura que fica da fala de Thor é que o Estado precisa voltar a funcionar como coordenador do desenvolvimento. Não basta haver recursos disponíveis se não houver prioridade definida, articulação política e capacidade de execução. O desafio, segundo o pré-candidato, é alinhar governo, bancada federal, setor produtivo, municípios e governo federal em torno de uma agenda capaz de transformar orçamento em obras, serviços e resultados para a população.
Esse talvez seja o eixo mais claro da fala do pré-candidato: transformar gestão em proposta. Na saúde, isso aparece na defesa de medicamentos básicos, leitos, hospital novo, especialistas e valorização dos servidores. Nas obras e investimentos, aparece na crítica à baixa execução e na defesa de planejamento.
O desafio, daqui para frente, será transformar esse diagnóstico em plano detalhado. Dizer que falta dipirona, leito, especialista, obra e execução pública é apontar problemas que muitos acreanos reconhecem. A próxima etapa será explicar como resolver, com quais recursos, em quanto tempo e com que equipe.
Ainda assim, a entrevista colocou uma questão importante sobre a mesa. O futuro do Acre não será medido apenas por grandes discursos ou disputas ideológicas. Para quem depende do SUS, ele começa em algo muito concreto: encontrar atendimento, conseguir fazer a cirurgia, ter médico disponível e sair do posto com o remédio na mão.