Entre os dias 3 e 20 de março, a sucessão de 2026 no Acre ganhou um desenho curioso, desses que fazem a política mudar de rumo como igarapé em tempo de cheia. Tião Bocalom saiu do PL, desembarcou no PSDB com abono de Aécio Neves e virou pré-candidato tucano ao governo, enquanto o campo governista manteve Mailza Assis como nome oficial e, no mesmo compasso, passou a tratar o prefeito de Rio Branco não como adversário, mas como peça útil numa travessia pensada para o segundo turno. Em Rio Branco e Brasília, a pergunta começou a correr pelos bastidores: se a candidatura do grupo é a de Mailza, por que houve tanto empenho para manter Bocalom vivo no jogo?
No começo do mês, Gladson Cameli subiu ao palanque ao lado de Mailza e Márcio Bittar, chamou a militância para o “trabalho de formiguinha” e prometeu subir barranco e descer rio para levar o nome da vice-governadora pelo Acre. O recado era de unidade, de base forte, de continuidade. Só que, poucos dias depois, a mesma vizinhança política ajudou a abrir outra vereda. Bittar confirmou que trabalhou para a filiação de Bocalom ao PSDB, e o próprio prefeito contou que o senador telefonou duas vezes para Aécio Neves, com apoio também de Valdemar Costa Neto, para destravar sua entrada no ninho tucano.
A sexta-feira trouxe a fotografia mais nítida dessa arrumação. Gladson falou que conta com Bocalom numa eventual segundo turno contra Alan Rick e repetiu que Mailza chegará lá. Mailza caminhou na mesma trilha, disse que “não somos adversários”, juntou PL, PSDB e Progressistas no mesmo campo e tratou a presença de Bocalom na disputa como parte de uma estratégia. Quando a candidata oficial e o principal fiador do grupo enxergam serventia eleitoral numa candidatura paralela, a conversa deixa de ser só partidária. Vira leitura de terreno, dessas que se fazem devagar, com o ouvido atento ao rumor da mata e o olho medindo a correnteza, como se visse para que rumo a balsa vai virar.
Talvez a resposta para a pergunta central seja menos áspera do que parece. Os aliados podem, sim, acreditar em Mailza, mas acreditar nela dentro de um arranjo mais largo, com uma espécie de seguro político amarrado no porto caso a eleição exija duas viagens. As falas públicas caminham nessa direção desde fevereiro, quando Gladson já dizia esperar estar com Bocalom numa segunda rodada. Agora, com o prefeito abrigado no PSDB e reconhecido pela executiva nacional como pré-candidato ao governo, essa hipótese deixou de ser cochicho de corredor e ganhou corpo de estratégia assumida.
Também pesa o tamanho de Bocalom nesse balaio. Ele chega a 2026 vindo de reeleição em primeiro turno em Rio Branco, com mais de 54% dos votos válidos, e com uma memória eleitoral antiga no Acre, inclusive dos tempos de PSDB. Mailza carrega a máquina, a continuidade do governo e a força da aliança costurada por Gladson e Bittar.
Enquanto isso, Bocalom vai fazendo o dever de casa, com uma condução política coerente com a trajetória que construiu e sem se afastar da imagem de lealdade que lhe rende lastro eleitoral. Ao redor dele, porém, reaparecem figuras conhecidas da política acreana, algumas das mesmas que o viram ser preterido pelo PL sem grande constrangimento e que, em outros momentos, já haviam declarado apoio a outros candidatos. Agora, com o prefeito de novo viável no tabuleiro, tentam se aproximar e até posar como fiadores de um capital político que não construíram. É aí que o escorpião mostra a cauda: não em Bocalom, mas nos oportunistas de sempre, aparecem conforme a conveniência e tentam reivindicar como obra própria vitórias às quais antes assistiam de longe, ou contra as quais trabalhavam em silêncio.
No fundo, a pergunta que ecoa nos corredores do poder talvez já nem seja se os aliados acreditam em Mailza. A dúvida mais funda é se acreditam nela como projeto suficiente, capaz de caminhar sem muleta até o segundo turno. Porque, quando um grupo sustenta uma candidata oficial e, ao mesmo tempo, trabalha para manter outra candidatura viável no mesmo campo, a imagem que se projeta é inevitável: a de uma vice-governadora que tem o selo da aliança, mas ainda não foi abraçada por ela por inteiro. Em vez de herdeira incontestável, Mailza corre o risco de parecer o patinho feio de uma família política que diz escolhê-la, mas evita apostar só nela.
A operação da Polícia Federal contra o senador Ciro Nogueira, presidente nacional do Progressistas, ganhou efeito imediato no Acre. Ciro é uma das principais lideranças nacionais do PP, partido da governadora Mailza Assis Cameli, e vinha atuando como um dos fiadores políticos da pré-candidatura dela ao governo em 2026.
Nesta quinta-feira, Ciro foi alvo da 5ª fase da Operação Compliance Zero, que investiga suspeitas de corrupção, lavagem de dinheiro, organização criminosa e crimes contra o Sistema Financeiro Nacional no caso Banco Master. Segundo a PF, a apuração mira uma possível relação entre a atuação parlamentar do senador e interesses do banqueiro Daniel Vorcaro. A defesa de Ciro nega irregularidades.
A investigação aponta que Ciro teria recebido pagamentos mensais de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, em troca de atuação política favorável ao banco. Também entrou no radar dos investigadores uma proposta apresentada no Congresso para ampliar a cobertura do Fundo Garantidor de Créditos, medida que poderia beneficiar bancos médios.
No Acre, o caso tem peso porque Ciro não é apenas um dirigente partidário distante. Ele esteve diretamente ligado às articulações nacionais de Mailza. Em fevereiro, recebeu a então vice-governadora em Brasília, declarou apoio à sua pré-candidatura e tratou o projeto acreano como prioridade do Progressistas.
O desgaste chega em um momento delicado para o grupo governista no Acre. Um dia antes da operação contra Ciro, o Superior Tribunal de Justiça condenou o ex-governador Gladson Cameli a 25 anos e nove meses de prisão por crimes como organização criminosa, corrupção, peculato, lavagem de dinheiro e fraude em licitação. O STJ também fixou indenização de R$ 11,7 milhões ao Estado do Acre. (Superior Tribunal de Justiça)
Gladson foi o principal construtor da chegada de Mailza ao poder estadual. A governadora herdou a estrutura política do grupo que venceu as últimas eleições no Acre e agora tenta transformar essa continuidade em projeto próprio para 2026. A condenação do ex-governador, somada à operação contra Ciro, coloca dois dos principais pilares políticos da pré-candidatura sob forte desgaste público.
Os Rueda na equação
Embora o foco principal da crise esteja em Ciro Nogueira e Gladson Cameli, há outro elemento no entorno do projeto de Mailza: a família Rueda. Antônio Rueda, presidente nacional do União Brasil, é uma das lideranças da federação formada por União Brasil e Progressistas. Ele apareceu ao lado de Gladson, Ciro e Mailza nas articulações nacionais da União Progressista, quando o grupo confirmou a governadora como nome para a disputa no Acre.
No Acre, o sobrenome Rueda está presente diretamente no governo. Fábio Rueda, irmão de Antônio Rueda, foi secretário da Representação do Governo do Acre em Brasília, presidente do União Brasil em Rio Branco, suplente de deputado federal e se movimenta para disputar uma vaga na Câmara pelo Acre.
Antônio Rueda também passou a ser citado em reportagens sobre o Banco Master. A revista Piauí revelou que ele e a irmã atuaram como advogados do banco de Daniel Vorcaro, informação admitida por Rueda, que afirma que a atuação foi regular. O Metrópoles também publicou que Rueda teria dito a interlocutores que poderia ganhar bilhões com a venda do Banco Master ao BRB.
Além disso, a CNN informou que o nome de Antônio Rueda passou a constar em investigação da PF sobre a Operação Carbono Oculto, relacionada à infiltração do PCC nos setores financeiro e de combustíveis. A suspeita mencionada na apuração envolve possível propriedade oculta de jatos executivos. Rueda nega ser dono das aeronaves e repudia qualquer vínculo com ilícitos.
Esse ponto não desloca o centro da questão, mas amplia a pressão política sobre a base de Mailza. A pré-candidatura da governadora está organizada dentro de uma federação comandada nacionalmente por Ciro Nogueira e Antônio Rueda, enquanto no Acre tem como principal referência política Gladson Cameli, agora condenado pelo STJ.
Não há acusação contra Mailza nesses casos. Mas o impacto político é inevitável. A governadora tenta se apresentar como continuidade administrativa e, ao mesmo tempo, como nome próprio para 2026. O problema é que essa continuidade vem acompanhada do desgaste de seus principais padrinhos.
Para a oposição, o cenário abre uma linha de ataque direta: questionar se Mailza representa renovação ou apenas a permanência do mesmo grupo político que agora aparece associado a condenações, operações policiais e escândalos nacionais. Para o governo, o desafio será tentar separar a imagem da governadora das crises que atingem justamente os nomes que ajudaram a sustentar sua chegada ao Palácio Rio Branco.
Não basta pedir que os jovens gostem da política; é preciso que eles ocupem a política e sejam os representantes que querem ver
Na política, fala-se muito em renovação, mas o “novo” que aparece em muitos palanques quase sempre chega por caminhos conhecidos. Vem com sobrenome forte, relação familiar ou proximidade com grupos que há décadas ocupam espaços de poder. Isso não torna ninguém ilegítimo. Também não garante voto, mandato ou vitória. Mas revela uma realidade: para alguns, a política é quase ambiente de casa; para outros, continua sendo uma porta pesada.
A questão não é desmerecer quem é filho, parente ou aliado de quem já fez política. A pergunta é outra: quando a renovação se limita à troca de geração dentro das mesmas famílias, estamos diante de mudança real ou apenas de continuidade com rosto jovem? O debate não é sobre quem pode participar, mas sobre por que tantos outros seguem sem conseguir chegar.
O problema central é a ausência dos outros jovens: aqueles sem padrinho, sem sobrenome político, sem convite para sentar à mesa onde as decisões são tomadas. Muitos têm opinião, revolta, preparo, vivência e vontade de participar. Mas seguem do lado de fora. A política gosta da juventude para fazer barulho, movimentar campanha e ocupar rede social. Mas, na hora de decidir candidatura, recurso, chapa e direção partidária, a conversa muda de sala.
Com as mulheres, a contradição é ainda maior. Fala-se em participação feminina, mas muitas vezes a presença das mulheres continua tratada como número, obrigação legal ou composição de chapa. Poucas estão no centro real das decisões. Poucas recebem estrutura. Poucas comandam. E quando tentam ocupar esse espaço, quase sempre precisam provar mais do que os homens.
Também não adianta negar a política. Quem diz que política não presta acaba deixando o espaço livre para quem sempre soube usá-la. A crítica pode até ser justa, mas quando vira recusa total, não muda nada. Só afasta quem poderia participar e entrega a política aos mesmos de sempre. Política ruim não se enfrenta com ausência. Enfrenta-se com presença, disputa e coragem para ocupar os espaços.
Por isso, a frase atribuída a Lula funciona independentemente de alinhamento ideológico: seja você o político porreta que você quer ver. A política não melhora com ausência. Melhora com ocupação. Mas essa ocupação precisa ser real. Não basta chamar os jovens para gostar da política; é preciso que eles entrem, disputem e participem das decisões. E não basta dizer que as mulheres são importantes; é preciso que elas também ocupem o centro da política. O novo só será novo quando deixar de ser apenas discurso e passar a mudar quem decide.
No Acre, crise política nunca chega anunciada por sirene. Ela vem por sinais. Um silêncio aqui, uma ausência ali, uma frase dita com o cuidado de quem quer falar para dentro e para fora ao mesmo tempo. Quando a fumaça aparece, o problema já começou antes, longe dos olhos, em alguma sala fechada, em algum telefone que não tocou, em alguma visita que não foi combinada como deveria.
A situação entre Zequinha Lima e Mailza Assis tem esse desenho. Ainda não é o incêndio que derruba a ponte, mas também não é vapor de café em reunião de rotina. Parece mais aquelas cenas da BR-364 fechada com barricada de pneu queimando, jogando fumaça para todo lado. Ninguém enxerga direito o tamanho do bloqueio, mas todo mundo entende que a passagem deixou de ser simples. O trânsito da política, que já anda devagar por natureza, fica ainda mais travado quando a visibilidade some e cada lado começa a interpretar o movimento do outro pelo vulto, não pela conversa aberta..
Zequinha deu sinais de desconforto. Mailza, por sua vez, seguiu fazendo os gestos de governo. Mas, na política, gesto também é mensagem, e mensagem nunca chega só a quem a recebeu. No Juruá, onde aliança não é apenas fotografia de palanque, mas também território, prestígio e sobrevivência de grupo, qualquer mudança de posição pesa mais do que nas capitais, onde tudo se resolve em nota e entrevista. Ali, a política continua sendo um sistema de presença: quem foi chamado, quem sentou à mesa, quem ficou de pé no canto e quem sequer soube da reunião.
O que está em jogo não é apenas a boa convivência entre duas lideranças. É o controle do ritmo. Em toda crise desse tipo, há uma disputa silenciosa sobre quem conduz a narrativa: se o governo acomoda os aliados no tempo do Palácio ou se os aliados lembram ao governo que, sem base real nos municípios, um projeto estadual vira peça de gabinete.
Zequinha acha que tem peso político suficiente em Cruzeiro do Sul para exigir mais atenção e consideração. Mas as pesquisas, o ambiente das redes sociais e a própria divisão da cidade mostram um cenário menos confortável do que ele talvez suponha. Nos bastidores, interlocutores de sua própria equipe descrevem um traço recorrente de sua condução política: a tendência de deslocar responsabilidades quando o desgaste aperta. Na crise atual, isso aparece no esforço de empurrar o problema para “algumas pessoas” do entorno do governo, preservando Mailza no discurso. A manobra evita o rompimento aberto, mas também revela dificuldade de assumir o conflito em seu endereço real. É nesse espaço que Mailza se move para construir a base de que precisa para 2026.
E fumaça, na política, tem um efeito curioso: ela nunca encobre só o conflito; também revela os que vivem dele. Quando o ruído cresce, aparecem os conselheiros de ocasião, os intérpretes de corredor, os que afastam, os que aproximam e os que falam por terceiros sem mandato para isso. A crise deixa de ser apenas dos protagonistas e vira terreno de operadores. Todos tentam tirar proveito; quase ninguém quer carregar o custo. Na política, nunca falta quem queira arbitrar a crise alheia, desde que a responsabilidade pare antes de chegar ao próprio colo.
Por isso, o episódio entre Zequinha e Mailza diz menos sobre um desentendimento pessoal e mais sobre sucessão e há quem diga não só a de 2026, mas a da prefeitura em 2028, principalmente. Antes da campanha, vem a divisão de espaço. No Acre, sobretudo no Juruá, aliança só parece sólida até o momento em que começa a disputa real por influência, prioridade e controle político. Quando essa conta desanda, o ambiente muda antes mesmo de qualquer rompimento.
No fim, a imagem da BR-364 serve bem porque ali o Acre se entende. Quando a estrada fecha, ninguém pode fingir que segue viagem normalmente. Pode até haver tentativa de contorno, conversa sobre rota alternativa, promessa de liberação logo adiante. Mas a verdade é que a interrupção muda o dia de todo mundo. Na política, essa fumaça entre Zequinha e Mailza já alterou o trajeto. Resta saber se vão apagar o fogo com acordo ou se deixarão a fumaça cumprir seu papel mais conhecido: avisar, antes de tudo, que alguma coisa já está queimando por dentro.