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No Instagram, pré-candidatos ao Governo do Acre travam disputa por poder, narrativa e território político
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Redação
No feed da pré-campanha
Entre 2 de fevereiro e 5 de maio de 2026, Mailza Assis, Tião Bocalom, Alan Rick e Thor Dantas apareceram em 1.065 publicações públicas monitoradas pela Pop IntelBox, somando cerca de 529,5 mil interações entre curtidas e comentários.
Antes de a campanha oficial tomar as ruas, os bairros, os ramais e os palanques do Acre, a eleição de 2026 já começou a se mover numa arena onde cada gesto vira mensagem e cada postagem tenta ocupar um pedaço do imaginário público: o Instagram. Entre 2 de fevereiro e 5 de maio de 2026, Mailza Assis, Tião Bocalom, Alan Rick e Thor Dantas apareceram em 1.065 publicações públicas monitoradas pela Pop IntelBox, somando cerca de 529,5 mil interações entre curtidas e comentários. O número não mede voto, nem preferência eleitoral, nem aprovação de governo. Mede outra coisa, talvez mais sutil e igualmente decisiva neste momento anterior à campanha: quem fala mais, quem mobiliza melhor, quem tenta se tornar dono de determinados temas e qual personagem político cada pré-candidato busca vestir diante do eleitor acreano.
A disputa digital no Acre não é apenas uma corrida por curtidas. É uma briga por papel político. Bocalom tenta se firmar como o gestor que entrega obra concreta, que aponta para o asfalto, o elevado, a rua modificada e diz ao eleitor: está feito. Mailza Assis tenta transformar a continuidade do governo em presença própria, com um rosto feminino, institucional, religioso, territorial e cuidador. Alan Rick trabalha a imagem do senador que traz recurso, ocupa Brasília, entra em debates nacionais e tenta converter mandato em força eleitoral. Thor Dantas busca abrir espaço como alternativa técnica, principalmente a partir da saúde, falando menos, mas tentando falar a partir de uma credencial profissional.
O primeiro corte dos dados revela uma diferença importante entre barulho e densidade. Tião Bocalom foi o nome mais presente no período, com 600 publicações e 223.751 interações. É quase uma ocupação diária do feed, uma estratégia de presença constante, como quem finca bandeira no território digital todos os dias para não deixar o assunto esfriar. Mailza Assis publicou menos da metade, 255 posts, mas chegou muito perto no engajamento total, com 219.503 interações, e liderou a média por publicação, com 860,8 interações por post. Alan Rick apareceu com 167 publicações, 72.256 interações e média de 432,7. Thor Dantas teve a presença mais estreita, com 43 posts, 13.988 interações e média de 325,3.
Essa diferença conta uma história política. Bocalom opera pela repetição e pela visualidade da entrega. Mailza aposta na intensidade de cada aparição. Alan trabalha com uma comunicação mais disciplinada de mandato, marcada por hashtags, temas legislativos e pautas de confronto. Thor ainda está numa fase de afirmação, tentando convencer o público de que sua experiência técnica pode virar projeto de poder.
No caso de Tião Bocalom, a narrativa é direta e quase material. O prefeito de Rio Branco aparece como o homem da obra, da máquina, da entrega física, do antes e depois. Das 600 postagens, 226 foram classificadas no eixo de gestão, obras e entregas. O conteúdo de maior engajamento de todo o monitoramento foi dele: um vídeo publicado em 21 de março de 2026 sobre o Elevado Mamédio Bittar, com a frase “Está entregue! Elevado Mamedio Bittar é do povo. Rio Branco avançando”. A publicação somou 6.634 interações, sendo 6.212 curtidas e 422 comentários.
A força de Bocalom está naquilo que pode ser filmado. A obra vira prova, o vídeo vira palanque, o elevado vira argumento. Em uma política marcada muitas vezes pela promessa, ele tenta sustentar a comunicação no concreto. A imagem de gestor executor ganha corpo quando o eleitor vê a estrutura de pé, a via aberta, o trânsito alterado, o equipamento público entregue. O risco também mora aí. A narrativa que funciona em Rio Branco precisa atravessar o mapa inteiro do Acre. Uma eleição estadual exige que o capital político municipal caminhe para além da capital, chegue aos municípios do interior, aos rios, às terras firmes, aos lugares onde a obra vista no Instagram pode parecer distante da vida cotidiana.
Mailza Assis aparece em outro registro. Sua comunicação mistura governo, assistência social, segurança pública, saúde, fé, família, eventos populares e presença territorial. O eixo mais frequente em seu perfil foi assistência social, com 118 posts, seguido por gestão, obras e entregas, com 107, e agenda e comunidade, com 103. A maior média de engajamento apareceu nos conteúdos ligados a família, fé e valores, com 1.447,9 interações por post, e segurança pública, com 1.044,1.
A governadora trabalha uma fronteira delicada: precisa ser continuidade sem parecer apenas extensão de outro nome. Por isso, a comunicação tenta costurar origem humilde, missão pública, maternagem política, fé e autoridade institucional. Em 3 de abril, uma publicação com a frase “Sou uma mulher comum, como tantas outras do nosso Acre” alcançou 4.499 interações. A força da mensagem está no deslocamento: Mailza não se apresenta apenas como ocupante do cargo, mas como alguém que reivindica pertencimento ao Acre comum, ao Acre das mulheres que trabalham, cuidam, creem e sustentam famílias longe dos salões de decisão.
Quando fala da contratação de aprovados do Iapen, Mailza encontra outro ponto sensível. O vídeo teve 4.180 interações e 706 comentários. Segurança pública e funcionalismo costumam mobilizar uma audiência que não apenas curte, mas cobra, celebra, pressiona e participa. A política aparece ali como promessa de estabilidade, emprego, autoridade do Estado e resposta a uma área que atravessa a vida das famílias acreanas. A vantagem de Mailza está na densidade: publica menos que Bocalom, mas alcança quase o mesmo engajamento total. Seu desafio é construir autonomia simbólica diante do capital político herdado de Gladson Cameli.
Alan Rick ocupa um terceiro lugar nessa disputa. Sua comunicação tem marca mais padronizada, com uso recorrente de hashtags como #acre, #aquitemtrabalho, #alanpeloacre e #alanrickpeloacre. O senador fala de mandato, recursos, saúde, infraestrutura, Senado, emendas e pautas nacionais. Seu perfil teve 77 publicações no eixo de política eleitoral, 73 em gestão, obras e entregas, e 43 em saúde.
O dado mais politicamente relevante em Alan não está apenas no total de interações, mas no peso dos comentários. Foram 12.365 comentários dentro de 72.256 interações, uma proporção de 17,1%, superior à dos demais monitorados. Comentário não é sinônimo automático de apoio. Pode ser adesão, crítica, cobrança, militância, ironia ou conflito. Mas mostra que Alan aciona uma audiência mais disposta a responder. Ele não apenas passa pelo feed; ele provoca reação.
Essa característica combina com a assinatura política que tenta construir. Alan aparece como o parlamentar que conecta o Acre a Brasília, que transforma debate nacional em ativo local e emenda parlamentar em argumento eleitoral. Um vídeo de 25 de fevereiro sobre o PL 2294/2024 e o exame nacional de proficiência médica chegou a 3.782 interações. Outro post, sobre pesquisa eleitoral para o governo do Acre, somou 2.386 interações e 436 comentários. Sua força está na clareza da marca: mandato, recurso, saúde e confronto. Seu risco está no próprio combustível dessa comunicação. O atrito engaja, mas também amplia rejeições, endurece campos e pode transformar visibilidade em controvérsia permanente.
Thor Dantas aparece em escala menor, mas com uma tentativa clara de diferenciação. Foram 43 publicações, 13.988 interações e média de 325,3 por post. O volume ainda não permite compará-lo em pé de igualdade com os demais, mas permite ver uma estratégia em formação. Thor tenta converter autoridade profissional em capital político. Seus temas mais recorrentes foram saúde, agenda e comunidade, além de política eleitoral. O post de maior engajamento tratou de sua possível candidatura em 2026 e somou 1.584 interações. Outro vídeo, sobre baixa cobertura vacinal contra gripe, chegou a 856 interações.
O lugar que Thor tenta ocupar é o do técnico-político. Num cenário em que Bocalom fala como gestor executor, Mailza como liderança de continuidade e Alan como articulador de mandato, Thor tenta aparecer como especialista preparado. Saúde pública, gestão, crítica institucional e viabilidade eleitoral formam o centro de sua comunicação. A força está na diferenciação. O limite está na escala. Para crescer, precisará transformar reputação profissional em presença territorial, capilaridade política e linguagem digital mais frequente. Os posts de maior tração contam o que move o Instagram político acreano. Em Bocalom, a força vem das obras e da mobilidade urbana. Em Mailza, os picos aparecem quando governo, fé, festa popular, posse, segurança e origem pessoal se cruzam. Em Alan, saúde, Revalida, saneamento, pesquisa eleitoral e temas nacionais puxam reação. Em Thor, a audiência cresce quando a candidatura deixa de ser sombra e passa a ser dita. O engajamento, portanto, não nasce apenas da popularidade individual. Ele nasce de evento, emoção, conflito, imagem e oportunidade.
O vídeo domina essa gramática. Em Mailza, os vídeos alcançaram média de 1.176,8 interações, acima dos carrosséis e imagens. Em Bocalom, a média dos vídeos foi de 517,2. Em Alan, 555,1. Em Thor, 408,1. A política no Instagram depende de rosto, voz, cena e ritmo. A obra precisa aparecer. A emoção precisa ser encenada. A fala precisa caber em poucos segundos. A presença pública passa a ser também performance audiovisual.
No fundo, cada pré-candidato tenta ensinar o eleitor a enxergá-lo de uma determinada forma. Bocalom quer ser reconhecido como quem faz. Mailza quer ser reconhecida como quem cuida e continua, mas com nome próprio. Alan quer ser reconhecido como quem articula, entrega e enfrenta. Thor quer ser reconhecido como quem entende tecnicamente dos problemas e pode governar com método. Essa é a disputa real por trás das curtidas: a formação antecipada de reputações.
O Instagram, nesse momento, funciona como um laboratório da eleição de 2026. Ali, os pré-candidatos testam linguagem, medem temperatura, aproximam aliados, tensionam adversários e tentam descobrir quais temas pegam fogo no terreiro digital. Os dados não dizem quem vencerá a eleição. Mas mostram que a campanha já começou antes da campanha, no terreno das imagens, dos comentários, das narrativas e da tentativa de ocupar um lugar fixo na cabeça do eleitor acreano.
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Design, ancestralidade e a disputa pelo valor da floresta
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2 semanas agoon
23/04/2026By
Redação
Especial É Pop 🌿 Matéria Especial
Design, ancestralidade e a disputa pelo valor da floresta
José Luiz de Paula Jr., ecodesigner, educador e fundador do Instituto dos Sentidos. | Foto: Acervo pessoal
Falar com José Luiz de Paula Jr. é entrar em uma discussão que ultrapassa o design, a perfumaria e a estética dos produtos da floresta. O que ele coloca em primeiro plano é uma disputa mais profunda: quem nomeia, transforma, protege e se beneficia da biodiversidade amazônica.
Em sua leitura, não há bioeconomia possível sem reconhecimento do saber ancestral, repartição concreta de benefícios e permanência digna de povos indígenas, quilombolas e ribeirinhos em seus próprios territórios. Sua trajetória parte de uma memória íntima e anterior ao circuito internacional em que seu trabalho passou a circular. Antes dos prêmios, das vitrines e do reconhecimento fora do país, está a formação sensorial construída com o avô, Zé Vicente, entre o Vale do Paraíba e o asfalto de São Paulo.
É dessa experiência, ligada ao cultivo, ao cheiro das plantas e ao que ele define como “caminho da percepção natural”, que nasce uma compreensão do olfato não como ornamento, mas como linguagem, arquivo e ferramenta de leitura do mundo. Ao longo dos anos, José Luiz deslocou esse repertório para uma prática voltada às comunidades da Amazônia. Em vez de tratar design como acabamento ou embalagem, ele o apresenta como instrumento antropológico e econômico.
Em sua formulação, perfumes, frascos, cores, grafismos e conceitos de marca podem operar como tradução de identidades coletivas — desde que não apaguem a origem dos conhecimentos nem repitam a lógica histórica de extração sem retorno. O ponto central de sua fala está aí: agregar valor, sem retirar das comunidades o domínio sobre aquilo que produzem e sabem.
O jovem indígena não quer ser um urbano deslocado; ele quer ser um protagonista em sua própria terra. — José Luiz de Paula Jr.
Zé Vicente, avô de José Luiz. “Um homem da terra, do cultivo, das plantas.” | Foto: Acervo pessoal
Antes de falar de design e bioeconomia, você frequentemente menciona o avô, Zé Vicente. O que essa relação tem a ver com o trabalho que você desenvolve hoje?
“Minha formação sensorial começou com ele. Era um homem da terra, do cultivo, das plantas. Com ele aprendi que o olfato é o sentido mais primitivo e mais verdadeiro que temos. Antes de qualquer teoria de design, aprendi a ler o mundo pelo cheiro das coisas. Esse ‘caminho da percepção natural’ é o que me guia até hoje quando entro em uma aldeia ou em uma floresta.”
Você costuma dizer que o olfato é o “patrono da felicidade” e que o design deve acessar a memória afetiva. Como ocorre o seu processo de “escuta olfativa” para traduzir a identidade de um povo em produto?
“O design, para mim, só faz sentido se for um agente de transformação. Enxergo perfumes e embalagens como instrumentos antropológicos. Através do olfato, das cores e das formas, traduzimos o comportamento de grupos étnicos — sejam indígenas, quilombolas ou ribeirinhos. O corpo do indígena é mídia; ele comunica estado de espírito através da pintura. Já o olfato é o nosso sentido mais vital e primitivo, muitas vezes atrofiado pela vida urbana. Meu papel como designer é resgatar essa percepção. Quando entro na mata, não vejo apenas árvores; já visualizo cores, volumetrias e frascos que embalarão aquela essência.”
José Luiz em campo, no contato direto com comunidades tradicionais da Amazônia. | Foto: Acervo pessoal
Sua vivência nos beiradões e aldeias do Acre — com Ashaninka, Yawanawá e Shanenawa — gerou perfumes bioeconômicos que chegam à Europa. O que esses povos te ensinaram sobre o tempo das coisas e sobre o valor da “floresta em pé”?
“Em busca do que chamo de ‘Brasil Profundo’, fui parar no Vale do Juruá. Foi no convívio direto com os Ashaninkas, Puyanawas, Yawanawas e Shawandawas que descobri que é possível viver com pouco, desde que esse pouco seja preenchido por uma imensa plenitude. Ali, redescobri a liberdade e a ciência em sua forma mais pura. Precisamos superar o preconceito acadêmico de que o saber tradicional não é ciência. Quem detém o conhecimento milenar da floresta é cientista da vida. Aprendi com líderes como Benki e tantos outros que a natureza não precisa ser ‘salva’ por nossa soberba humana; ela é soberana e reage às nossas ações. Nós é que precisamos da floresta para sobreviver com dignidade e saúde. O planeta continuará aqui; a questão é se nós estaremos.”
Você trabalhou com o “mel roxo de açaí” em Moju, no Pará. Como o design atua para resgatar o orgulho da comunidade e transformá-lo em ferramenta de independência econômica?
“Minha missão mudou quando vi 2 litros de um mel precioso serem vendidos em uma garrafa de plástico por um valor irrisório. Ali, decidi que o design deveria servir a quem realmente precisa: as comunidades originárias. Redesenhamos o conceito, reduzimos para 150ml com alto valor agregado e estabelecemos um modelo onde 50% do lucro retorna diretamente para a comunidade. Isso não é caridade, é justiça econômica. Precisamos romper com o ‘colonialismo contemporâneo’, onde o conhecimento da floresta é explorado sem o devido retorno a seus guardiões.”
Bioeconomia sem inovação e partilha de benefícios é apenas uma palavra vazia. — José Luiz de Paula Jr.
A palavra “bioeconomia” virou moda em fóruns globais, muitas vezes esvaziada de seu sentido humano. Onde termina o mero extrativismo e onde começa a verdadeira bioeconomia?
“Bioeconomia sem inovação e partilha de benefícios é apenas uma palavra vazia. A Amazônia abriga 33 milhões de pessoas; é um universo que exige soluções que unam a ciência acadêmica ao saber ancestral para gerar escala com ética. Como educador, meu objetivo é levar a ‘escola de perfumaria’ e o conhecimento técnico para dentro das aldeias. Quero que a juventude indígena e quilombola possa transformar sua biodiversidade em riqueza, sem precisar abandonar sua cultura. Para isso, fundamos o Instituto dos Sentidos.”
Qual é o maior desafio para garantir que os jovens dessas comunidades enxerguem futuro no seu próprio território?
“O jovem indígena não quer ser um urbano deslocado; ele quer ser um protagonista em sua própria terra. Meus projetos são profundamente inspirados em figuras que são verdadeiras bibliotecas vivas, como o xamã Tatá Yawanawa, que fez sua passagem aos 104 anos, o cacique Antonio Ashaninka e Dona Peti, o cacique Joel Puyanawa, o cacique Biraci Brasil, Biraci Júnior e Anchieta Shawandawa. Lugar de jovem indígena, quilombola ou ribeirinho é na universidade, sim, mas para que ele retorne com ferramentas que potencializem o conhecimento de seus ancestrais.”
José Luiz de Paula Jr. | Foto: Acervo pessoal
No final de maio de 2026, Macapá sediará o 2º Fórum Internacional de Bioeconomia Amazônica (FIBAM). O que os empreendedores locais, cooperativas e investidores podem esperar?
“O FIBAM 2026 terá um papel estratégico e urgente na defesa do patrimônio biológico da região. Vamos enfrentar temas críticos, como a praga que atualmente está dizimando as lavouras de mandioca no Amapá — uma doença vinda da Guiana Francesa que ameaça a base da segurança alimentar do povo amazônida. No Fórum deste ano, estaremos reunindo especialistas brasileiros e franceses, integrando a ciência acadêmica, a Embrapa e o conhecimento das comunidades locais para resolver esta e outras questões de biobotânica amazônica. O Fórum é, acima de tudo, um ponto de convergência onde o capital consciente se une à ciência de ponta e ao saber ancestral.”
Como você enxerga o papel da Amazônia no novo cenário mundial — não mais como “pulmão” a ser explorado, mas como mente criativa e dona de suas próprias patentes?
“A palavra de ordem para o futuro da Amazônia é segurança jurídica. O conhecimento ancestral e as manifestações culturais também devem ser protegidos por mecanismos de propriedade intelectual. O grande desafio da Amazônia moderna é formar profissionais que dominem a linguagem da ciência avançada para validar o que as comunidades já sabem há milênios. Temos bioativos com grande poder farmacológico e alto potencial de patenteamento, com ações comprovadas inclusive na área da neurociência. Somente com ética e garantias jurídicas asseguraremos que a riqueza gerada pela biodiversidade beneficie, prioritariamente, os guardiões da floresta.”
A floresta não pode ser tratada apenas como fonte de matéria-prima, mas como território de conhecimento, cultura e geração de valor. — José Luiz de Paula Jr., ecodesigner e fundador do Instituto dos Sentidos
Entrevistado José Luiz de Paula Jr. — Ecodesigner, educador e fundador do Instituto dos Sentidos
Fotos Acervo pessoal de José Luiz de Paula Jr.
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No coração do Rio Moa, a escuta de Vitória Rodrigues encontra o Povo Nukini e transforma cuidado em presença
Published
2 meses agoon
22/03/2026By
Redação
Matéria especial
Acre • 22 de março de 2026
No chão da Aldeia Isã, o cuidado aparece sem pressa: conversa partilhada, infância em roda, alimento como memória e uma psicologia que volta ao território para construir vínculo com a própria gente.
Reportagem: Arison Jardim
Fotos: acervo de Vitória Rodrigues
Especial do É Pop
No dia 13 de março, na Aldeia Isã, em Mâncio Lima, a psicóloga clínica Vitória Rodrigues sentou no chão com crianças do povo Nukini para conversar sobre corpo, limites e respeito, e ali o cuidado ganhou a forma que a floresta entende: palavra dita sem pressa, presença partilhada e confiança construída no ritmo da comunidade. A cena não nasceu de uma visita apressada, dessas que entram, falam e vão embora. Nasceu de um retorno. Vitória saiu do Juruá para estudar Psicologia na Bahia, atravessou o peso da distância, enfrentou o susto acadêmico de quem percebe que o Brasil também cobra caro de quem vem das bordas, e voltou porque compreendeu que sua profissão só faria sentido inteiro perto da própria gente, dos rios, dos avós, das histórias e das urgências que moldaram sua formação humana antes mesmo da universidade.
Nas imagens que a jovem profissional compartilha em suas redes sociais, a aldeia aparece com a força tranquila de quem segue em pé. As crianças descem a escadaria que leva ao barranco do rio com o corpo solto de quem conhece o chão onde pisa. Mais adiante, as casas de madeira se alinham diante da mata fechada, com placas solares captando luz no meio do verde pesado do Moa. Sob uma árvore frondosa, meninos e meninas se juntam como se a comunidade inteira coubesse naquele círculo de sombra. Em outro canto, o terreiro abre espaço para o respiro largo do céu e para o tempo da convivência. Não há nada de exótico ali. Há vida organizada, infância correndo livre, tecnologia combinada com tradição e uma paisagem onde o cotidiano continua sendo a primeira escola.
Foi para esse chão que Vitória decidiu voltar. “Esse retorno é também um reencontro comigo mesma”, diz ela, numa frase que ajuda a entender que sua escolha profissional não nasceu apenas do diploma, mas da vida vivida antes dele. Ao sair do Acre para estudar, levou junto a memória da família, a experiência de quem cresceu atravessada pelos rios do Juruá e a consciência de que a distância também ensina. Na Bahia, encontrou outro Brasil, rompeu preconceitos e percebeu que a formação acadêmica, por si só, não bastava. O que ela buscava tinha outro tamanho. “Compreendo o cuidado psicológico como um espaço de presença e construção conjunta”, afirma. Nessa formulação, não cabe a psicologia isolada do mundo, fechada em consultório e apartada da vida concreta. O que existe é uma escuta que pisa no território e se deixa afetar por ele.
Esse entendimento ganha mais densidade quando ela própria nomeia o que a orienta. “Acredito que toda psicologia é, antes de tudo, social”, afirma. A frase, quando chega ao centro da Aldeia Isã, deixa de ser princípio abstrato e ganha corpo. Ali, cada conversa com uma mulher, cada roda com crianças, cada permanência ao lado das famílias pede que o cuidado considere o que atravessa uma comunidade indígena do alto Juruá: a memória coletiva, a relação com a terra, os modos de criação, a história da resistência, a delicadeza das infâncias e o direito de viver sem violência. Vitória também fala da base que sustenta sua prática: “Minha escuta se constrói a partir dessa compreensão, buscando acolher a singularidade de cada trajetória sem desconsiderar os cenários que a atravessam”. O que ela oferece, então, não é só atendimento. É presença ética onde a vida acontece.
Na Aldeia Isã, essa presença se espalhou de forma orgânica. A roda com as crianças sobre corpo, limites e respeito ocorreu sem o peso do tabu e sem a rigidez de quem fala de cima para baixo. Houve escuta, troca e cuidado com a linguagem. Pais e mães acompanharam de perto, atentos, como quem sabe que proteger também passa por aprender a conversar. Entre as mulheres, o trabalho seguiu pela mesma vereda: fortalecer a palavra, abrir espaço para o que muitas vezes fica represado no cotidiano e lembrar que saúde mental não é luxo de cidade, mas necessidade humana em qualquer latitude da floresta. Vitória não aparece como alguém que chega para ensinar tudo. Ela se coloca como quem constrói junto. “Ofereço um espaço ético e acolhedor para quem busca se aproximar de si, elaborar sofrimentos, fortalecer recursos internos e ampliar a compreensão sobre suas vivências”, resume.
Essa maneira de estar transforma até o que parece lateral em parte central da narrativa. A comida, por exemplo, que encanta quem sente saudade da própria casa, não entra como curiosidade de passagem. Ela entra como território. Quando Vitória posta a imagem de um buriti aberto na mão, com a polpa alaranjada e a casca escura, a imagem traz a textura dessa convivência. O prato de caranguejo servido com banana-da-terra, fumegando sobre a mesa de madeira, também diz muito sobre esse encontro e da experiência única que é viver na Amazônia. Comer ali é partilhar tempo. É admitir que a confiança não nasce só da conversa formal, mas do cotidiano.
Até a cuia cheia de larvas, alimento ancestral em muitos contextos amazônicos, ajuda a desmontar o olhar apressado de fora. Na floresta, comer é saber. Comer é memória. Comer é pertencimento. “Esses alimentos são entendidos como presentes da natureza e carregam a história de resistência do povo Nukini”, explica.
Para Vitória, é no cotidiano compartilhado que a relação profissional deixa de soar impositiva e passa a ser reconhecida como confiança, proximidade e aprendizado mútuo.
O espaço amplo, o céu pesado de chuva, a grama curta e as casas tradicionais compõem uma paisagem em que a vida corre sem apartar cultura, trabalho, espiritualidade e convivência. A aldeia não é cenário. É organismo vivo. E é justamente por isso que a presença de uma psicóloga que conhece o peso simbólico desse território pode produzir outro tipo de vínculo. Vitória não fala em neutralidade. Sua caminhada deixa claro que cuidar também é reconhecer história, desigualdade, pertencimento e potência.
“Hoje, eles estão organizados em seis aldeias: Haka, Pãna, Abacateral, Recanto Verde, Maloquinha e Inu Isã, sendo a sede a Aldeia Vaka Visu, localizada próxima à Serra do Divisor. São conhecidos como ‘povo da montanha’ ou ‘povo da onça’, e mantêm forte relação com a terra por meio do plantio e das práticas tradicionais”, diz Vitória. A fala dela abre a porteira certa para compreender quem são os Nukini. No alto rio Moa, no extremo oeste do Acre, no município de Mâncio Lima, esse povo carrega uma história marcada pela permanência. Os Nukini pertencem à família linguística Pano e seguem fincados num território onde floresta, água, roçado, memória e parentesco não vivem separados. A terra, ali, é caminho de transmissão entre os mais velhos e os mais novos, é o lugar onde a cultura não se apresenta em vitrine, mas respira no dia a dia.
A caminhada do povo Nukini atravessou a violência das frentes extrativistas, a pressão sobre o território, o peso dos antigos seringais e as muitas tentativas de apagar modos próprios de existir. Ainda assim, a comunidade seguiu de pé. Seguiu no modo de organizar a vida comunitária e no esforço cotidiano de proteger o que é seu. Quando Vitória se aproxima das mulheres e das crianças da Aldeia Isã com escuta e cuidado, ela não encontra um povo parado no tempo. Encontra um povo vivo, organizado, atravessado por desafios contemporâneos e, ao mesmo tempo, profundamente enraizado em saberes que não nasceram ontem.
É por isso que aquelas crianças sorrindo na beira do Moa dizem tanto. Elas não são apenas a imagem bonita de uma visita. Elas são a prova de continuidade de um povo que segue fazendo da floresta uma casa habitada. Entre a Serra do Divisor e o curso barrento do rio, o que se vê é uma forma de existência onde o futuro depende da memória e onde a memória só permanece viva porque ainda há território, comunidade e luta. Nesse chão, a volta de Vitória Rodrigues ganha outra dimensão. Não é somente o retorno de uma psicóloga ao Acre. É o encontro entre cuidado, identidade e resistência no coração de um povo que continua escrevendo sua própria história.
No coração do Rio Moa, a escuta de Vitória Rodrigues encontra o Povo Nukini e transforma cuidado em presença
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Comer também é território
“Sentar junto para preparar alimentos, usar artesanato, brincar e conversar ajuda a construir o vínculo terapêutico.”
Um povo vivo no alto Rio Moa
Vitória Rodrigues no Instagram
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A omissão da sociedade alimenta o feminicídio
Published
2 meses agoon
08/03/2026By
Redação
A omissão da sociedade alimenta o feminicídio e a voz das sobreviventes exige mudanças
Por Arison Jardim
O trabalho realizado durante a produção, gravação e edição do documentário Vozes do Silêncio ecoa na memória, como as águas de um rio que insistem, constante e sempre, em escavar suas margens e derrubar barrancos. Ouvir e ler relatos tão duros de vítimas de um ódio visceral, que domina nossa sociedade como uma praga silenciosa, nos faz perder a esperança. Ver os números, as estatísticas frias e os casos brutais, que só aumentam, reforçam esse sentimento de desamparo.
Confesso que ver a Medusa falar, e declamar, de como a arte ajuda a mudar sua vida faz voltar a iluminar alguns raios, rompendo a copa densa dessa angústia. Não só com sua arte, quem a acompanha vê sua força e determinação diariamente, em todas as frentes que encara. E esse pingo de luz ainda nos faz querer enfrentar sempre a violência que nos cerca.
Nessa reportagem, trazemos uma discussão que considero importante para contribuir nessa batalha constante que é ter vidas salvas, mentes sãs, almas em paz e o respeito com quem faz a história desse país. O objetivo final é: mostrar os números alarmantes, buscar explicar essa gênese do horror com quem estuda e explica as várias realidades e, no final, tentar ter um pouco mais de fôlego, chamando o máximo de leitores para a reflexão. Fica o alerta de gatilho, alguns trechos podem ser fortemente sensíveis para o leitor e leitora.
A Amazônia que Sangra: O Peso do Número
Essa nossa realidade amazônica, quando despida do verniz de suas belezas naturais e do folclore verde, expõe feridas profundas que escorrem e se traduzem em estatísticas cruéis. Conforme a pesquisa do Instituto Igarapé, enquanto o Brasil registrou um crescimento de 12% nos casos de feminicídio nos últimos cinco anos, a Amazônia Legal sofreu um aumento drástico e sangrento de 22%. Na mesma esteira de insegurança, o relatório DataSenado de 2023 revela o pulso do medo local: no Acre, 78% da população feminina afirma que a violência doméstica e familiar contra as mulheres aumentou nos últimos doze meses.
Esses números não são apenas papel; eles ganham nomes, feições, histórias e fins trágicos quando transpostos para o noticiário diário. Conforme aponta a reportagem do portal G1, o estado do Acre tem acompanhado, com pesar, seu ano mais letal desta década para as mulheres. Histórias de carne e osso, como a de Ivanilde Souza da Silva, deixam de ser meros dados matemáticos e viram um luto palpável nas varandas das nossas casas. Como relembra sua sobrinha, Elaine Thais: “Ela era uma pessoa batalhadora e sorridente, uma ótima mãe, uma pessoa maravilhosa. Onde ela chegava, cativava as pessoas”. O brilho vital de Ivanilde foi covardemente apagado por golpes desferidos pelo próprio companheiro, refletindo o desfecho extremo que espreita e ameaça dezenas de outras mulheres nos rincões do nosso estado.
Para entender a fundo a engrenagem desse terror contínuo, é preciso traduzir para o cotidiano um conceito que os pesquisadores e juristas chamam de hipervulnerabilidade. No papel das teses acadêmicas, a palavra explica a sobreposição de diferentes fragilidades sociais. Na vida real e no chão de terra batida das nossas periferias, ela significa que a mulher amazônida não enfrenta apenas o machismo. Ela é tragada por uma tempestade perfeita onde o ódio de gênero cruza diretamente com a pobreza aguda, com o isolamento geográfico e com a ausência quase total do Estado. Ser mulher, pertencer a uma classe desfavorecida e viver nas margens de um Brasil que historicamente vira as costas para o Norte cria uma teia de exclusão tão espessa que pedir ajuda se torna um ato quase inatingível. É essa hipervulnerabilidade silenciosa que amordaça a dor dentro de casa e que entrega ao agressor a certeza covarde, e quase sempre real, da impunidade.
A Gênese do Horror: Do Passado ao Presente
Desvendar a raiz turva desse ódio, é voltar os olhos para a própria formação da nossa terra e da nossa gente. O estudo publicado na Revista Extraprensa, “O Silenciamento Histórico das Mulheres da Amazônia Brasileira”, aponta que as características colonizadoras agressivas e o sistema de ocupação predatória forjaram um ambiente opressor, onde o silenciamento da mulher funcionou quase como uma política invisível de Estado. A perpetuação secular desses estereótipos históricos é o pilar estrutural apodrecido que, infelizmente, sustenta a violência até os dias de hoje.
Nesse contexto crônico de hipervulnerabilidade, a mulher amazônida foi historicamente empurrada para a margem da margem. Essa subalternidade, imposta pela poeira do tempo e enraizada no isolamento histórico dos seringais, reflete diretamente no interior abafado das casas contemporâneas. A opressão que antes se escondia na vastidão da mata, hoje ecoa nos bairros esquecidos das nossas cidades.
A poeta e ativista Medusa traz essa teoria dolorosa para o campo da vivência dura e real em seu depoimento no documentário Vozes do Silêncio:
Eu venho de uma família pobre, nascida e criada nas periferias de Rio Branco. A violência com os nossos corpos era muito normalizada. Ela é muito diária.
Com o olhar de quem presenciou a dor partilhando a mesma mesa, Medusa descreve a engrenagem machista moendo a carne de sua própria linhagem. Ela cresceu vendo a mãe e as tias serem sistematicamente agredidas, aprisionadas num labirinto de submissão invisível. Segundo a artista, o lugar imposto às mulheres de sua casa “era na cozinha”, restritas a lavar louça e roupa, destituídas de vontades próprias, pois “eram vistas somente como reprodutoras” de um sistema que lhes negava até a própria humanidade.
Essa invisibilidade forçada, transmitida como uma sina inescapável de mães para filhas nas periferias acreanas, é a exata tradução de um passado colonial que se recusa a morrer, alimentando o ciclo sombrio que só agora começa a ser desafiado.
A herança de submissão, que ecoa nas memórias de infância de Medusa e nas raízes coloniais da nossa terra, abandona o terreno das teorias quando as portas dos tribunais se abrem. O machismo estrutural que silenciou gerações deixa de ser apenas um fantasma invisível do passado para se materializar, com uma crueza insuportável, nas laudas dos processos.
Os Autos Sangram: Quando a Teoria Encontra o Tribunal
⚠️ Reforçamos aqui o alerta de gatilho!
Parte do processo de produção de nosso documentário foi fazer uma grande pesquisa e análise de depoimentos oficiais, o que conseguimos com o apoio do Poder Judiciário do Acre. Quando mergulhamos nesses densos processos judiciais, percebemos que a frieza burocrática do papel timbrado não consegue estancar o calor do sangue derramado no silêncio dos lares. Os depoimentos angustiados das vítimas e as justificações cínicas dos agressores traduzem, de forma trágica e literal, os conceitos acadêmicos de vulnerabilidade. Aqui, a dor perde o anonimato das estatísticas e ganha as feições do desespero diário.
O sentimento doentio de posse atua, quase sempre, como o rastilho de pólvora da barbárie na nossa região. A mulher, muitas vezes tratada como mera extensão da propriedade masculina, perde o direito mais sagrado: o de existir por si só. Os autos revelam feridas abertas e purulentas. É o caso da Vítima 4 (para preservar os nomes, usamos a nomenclatura de Vítima e Acusado), que viu o ex-marido ser tomado por uma fúria cega ao bisbilhotar mensagens antigas no seu celular. Sob a ponta de uma ameaça de morte que gelaria a espinha de qualquer um, foi obrigada a conduzir na contramão, desafiando os carros e a própria sorte, até ter o aparelho atirado contra o rosto, rasgando-lhe a sobrancelha num golpe de pura covardia.
A Vítima 5, por sua vez, recebeu a foto de uma arma de fogo na cintura do ex-companheiro, oprimida apenas porque ele “meteu na cabeça” que ela estaria com outra pessoa. Noutro processo sombrio, a Vítima 12 foi encurralada com uma faca e ameaçada de morte pelo ex-marido pelo simples “crime” de ter sido vista passando de carro acompanhada por outro rapaz.
Sabemos, por dolorosa experiência, que essa violência física raramente é um raio inesperado; ela é o desfecho aterrador de uma escalada de controle que começa por minar a alma, gota a gota. A Vítima 2 ilustra, com uma dor cortante, a quebra da submissão imposta pelo terror psicológico. Ela relata que o marido sempre gritava, enquanto ela “sempre se calava e pronto”, engolindo a própria voz como quem engole água barrenta para sobreviver. No dia em que reuniu a força para lhe responder e estancar o abuso, foi de imediato bombardeada com insultos — chamada de “quenga”, “puta” e “má mãe” —, um ataque moral que evoluiu, num ápice, para uma brutal sessão de enforcamento, puxões de cabelo e murros.
A Vítima 6 narra o mesmo rito macabro de aniquilação: o agressor iniciou a investida berrando “cala a boca sua merda, sua bosta, sua vagabunda” para, no segundo seguinte, passar a empurrá-la e chutá-la, como se não existisse ali um sopro de vida humana, mas apenas um obstáculo a ser varrido no seu caminho de ódio.
Esse rito de aniquilação, contudo, não se alimenta apenas do machismo herdado que permeia os autos. Onde a presença do Estado quase sempre míngua, a engrenagem do ódio encontra combustível farto e inflamável nas privações do dia a dia.
O Álcool, a Miséria e as Cinzas do Patrimônio
No duro contexto das margens amazônicas, a dependência econômica e a pobreza aguda, somadas à fuga entorpecente do álcool, atuam como catalisadores cruéis do ciclo ininterrupto de agressões. A miséria material que assombra as palafitas e as casas de madeira sem pintura torna-se cristalina, e trágica, no relato da Vítima 1. Ela foi golpeada violentamente com uma espátula, precisando levar três pontos que costuraram o couro cabeludo, mas não a dignidade. O motivo do ataque revela um cenário de desolação absoluta: a mulher ousou questionar o marido após ele ter vendido o botijão de gás — o coração pulsante daquela cozinha modesta — para comprar cachaça. O agressor, ao confessar a covardia diante da lei, lançou mão da velha desculpa esfarrapada do “desespero” e da bebedeira para tentar lavar as próprias mãos. Com uma banalidade semelhante que nos gela o estômago, o Acusado 9 tentou justificar o injustificável perante o juiz: “eu tinha chegado bebido; aí eu tava bêbado e agredi ela”, como se a garrafa fosse a verdadeira dona dos seus punhos cerrados.
Mas o terror imposto por esses homens não se contenta em ferir apenas a carne e o espírito. Quando o corpo da mulher já não basta para saciar a fúria dominadora, o agressor parte, sem o menor escrúpulo, para a aniquilação daquilo que garante a sobrevivência material da vítima. A violência patrimonial surge, então, como uma punição vil, covarde e calculada. Os autos do processo da Vítima 7 documentam essa vingança em chamas: sua casa inteira foi banhada a gasolina e incendiada após uma discussão, reduzindo a um monte de cinzas a geladeira suada de pagar, o fogão e todas as roupas de uso pessoal. O mesmo fogo criminoso e impiedoso, que não queima apenas móveis, mas transforma em fumaça a esperança de um recomeço, consumiu o colchão da Vítima 14. O ataque ocorreu no calar da noite, depois que o ex-companheiro invadiu sua residência pela janela, rasgando o que lhe restava de santuário e paz.
A Banalidade do Mal
Talvez o aspecto mais sombrio e revoltante das audiências nos tribunais seja o puro cinismo humano. A sociedade e os próprios algozes tendem a minimizar a violência sistêmica, tratando o espancamento brutal de uma mulher como um mero aborrecimento cotidiano, uma sujeira que a gente varre para debaixo do tapete. O Acusado 3, por exemplo, que invadiu a casa da ex-sogra e, num ato inominável, distribuiu socos e chutou a barriga da ex-cunhada, grávida de três meses, teve a audácia de afirmar em juízo que “só empurrou”, negando veementemente os golpes que a vítima presenciou. O Acusado 8 seguiu a mesma cartilha fétida do deboche, alegando que “não bateu”, apenas deu “uns empurrões”, optando por ignorar as marcas roxas de espancamento atestadas por laudo de corpo de delito.
Esse mesmo indivíduo (Acusado 8) escancara, sem pudor, outra tragédia que foi criminosamente normalizada na nossa região amazônica: a exploração infantil. Em seu depoimento frio, ele revelou, com a naturalidade de quem fala da chuva do dia, que foi morar com a vítima quando ela tinha apenas 13 anos de idade.
O trauma é, assim, semeado como uma praga para a próxima geração, e a tragédia frequentemente se reinicia com as dolorosas reconciliações movidas pela dependência e pelo pavor contínuo — como atestam, infelizmente, os processos da Vítima 1 e da Vítima 11, que informaram à Justiça que “se reconciliaram e hoje estão bem”, num eco que soa mais como sobrevivência do que como paz.
A Arte de Curar e a Coragem de Mudar
O ano de 2025 cravou uma ferida ainda mais funda na nossa história recente, provando que o silêncio custa caro demais. Segundo o doloroso levantamento do Feminicidômetro do Ministério Público Estadual, o Acre amargou um aumento brutal de 75% nos casos de feminicídio em relação ao ano anterior, totalizando 14 vidas ceifadas. 14 VIDAS! Retornamos, assim, ao sombrio topo do ranking nacional de letalidade para as mulheres, repetindo os picos assustadores de 2016 e 2018. Diante de estatísticas tão cruéis, que sangram nosso estado de ponta a ponta, trazer essas histórias para a superfície deixa de ser apenas um exercício jornalístico e passa a ser uma urgência de sobrevivência. É preciso iluminar os porões da nossa sociedade para conseguir enxergar e combater os perigos que ainda espreitam dentro de tantas casas.
Se a dor dessas mulheres tem raízes profundas, a cura também precisa ganhar espaço para brotar. A trajetória luminosa da pequena Cristina, a Medusa, é a prova viva e pulsante de que a denúncia e a arte são caminhos de salvação. Ao transformar o trauma herdado em poesia de combate, ela ressignificou o próprio destino e rasgou o roteiro invisível que aprisionava as mulheres de sua família por gerações. “Se eu não tivesse tido a arte, eu ia ser mais uma estatística do feminicídio”, confidencia a poeta. Assim como Medusa encontrou na força da palavra o remédio para estancar a própria dor, o compartilhamento sem amarras dessas realidades atua como o nosso antídoto coletivo contra a barbárie.
Ao expor a crueza dos autos judiciais e a lágrima das vítimas, o objetivo final nunca foi paralisar o leitor pelo medo, mas provocar o movimento.
Ao expor a crueza dos autos judiciais e a lágrima das vítimas, o objetivo final nunca foi paralisar o leitor pelo medo, mas provocar o movimento. É um chamado inegociável para que os homens encarem o espelho, repensem atitudes cristalizadas, desconstruam o machismo velado nas rodas de conversa e rompam a cumplicidade covarde diante do ciúme possessivo e dos “empurrões” alheios. A paz doméstica exige que a consciência masculina desperte.
E, acima de tudo, estas linhas são um abraço estendido para que as mulheres que ainda choram na calada da noite encontrem força para quebrar o ciclo. A arte de Medusa nos ensina que a culpa não é da vítima e que, por mais espessa que seja a escuridão, nenhuma mulher está sozinha. Dar o primeiro passo rumo à denúncia pode parecer assustador, mas é unindo essas vozes, antes silenciadas, que a nossa sociedade poderá dar o passo definitivo em direção a um futuro onde o amor não seja confundido com posse, e onde a paz deixe de ser um privilégio para ser, enfim, o nosso cotidiano.
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