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MEIO AMBIENTE

Mineração ilegal na fronteira com o Peru acende alerta no Juruá

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“A gente não quer o garimpo invadindo o nosso território.” O alerta feito por Francisco Piyãko, liderança Ashaninka e coordenador da Organização dos Povos Indígenas do Rio Juruá (OPIRJ), resume a preocupação que voltou a crescer na fronteira entre Acre e Peru após a denúncia apresentada pela ORAU sobre novos registros de atividades minerárias na região da rodovia UC-105. A área, que já enfrenta pressões por abertura irregular de estradas, concessões florestais e presença de grupos ligados ao narcotráfico, é considerada estratégica para os povos do Ucayali, do Alto Tamaya e do Alto Juruá.

A denúncia mais recente foi divulgada pelo pesquisador e diretor da Propurus, Iván Brehaut, em reportagem publicada no portal peruano epicentro.tv. Segundo a apuração, uma concessão de 500 hectares para exploração mineral foi autorizada pelo INGEMME, órgão peruano, em plena zona florestal do Ucayali, sobrepondo-se a áreas destinadas ao uso sustentável e próximas ao traçado da UC-105. A concessão foi registrada em nome de quatro empresários peruanos, acendendo o sinal de alerta entre organizações indígenas e socioambientais de ambos os países.

Ponto de garimpo ilegal identificado na área de influência da UC-105, com equipamentos improvisados e alteração do solo em região de floresta densa

Para os povos da fronteira, a descoberta não é um evento isolado. A região contabiliza há anos a presença de pistas clandestinas, aumento de cultivos ilegais de coca, circulação de mochileiros ligados ao tráfico e abertura irregular de ramais. Desde 2019, organizações como Apiwtxa, Sawawo, ACC-Yurúa e ORAU denunciam que trechos da UC-105 vêm sendo abertos por madeireiras e grupos ilegais, aproximando máquinas e frentes de exploração a menos de 11 km da Terra Indígena Kampa do Rio Amônia, em Marechal Thaumaturgo.

A manifestação da ORAU, organização indígena peruana ligada à AIDESEP, divulgada pelo site peruano, motivou uma resposta direta das lideranças do lado brasileiro. Piyãko afirma que o monitoramento é permanente e envolve a Comissão Transfronteiriça formada por organizações dos dois países. “A gente tem acompanhado esse movimento e estamos sim numa posição firme, clara, através da Comissão Transfronteiriça e também como organização aqui da região do Juruá, para proteger essa região”, disse.

Segundo ele, as ameaças são contínuas e se renovam com frequência. “Cada dia que passa você percebe que questões novas vão aparecendo também aqui nesta região”, afirma a liderança.

Imagem de satélite mostrando a localização da concessão minerária e, fora dela, a área de exploração reportada – Fonte: ODDA-PROPURUS

Uma região vital para povos, rios e nascentes

Na fala de Piyãko, a importância da área vai muito além do território imediato das comunidades indígenas. Ele destaca que as ameaças que avançam sobre o Juruá e o Ucayali atingem sítios ambientais, culturais e espirituais fundamentais para toda a região transfronteiriça.

“Estamos reafirmando a importância dessa região. É uma região que tem pautas que estão alinhadas com o contexto global. Nós estamos há muito tempo dizendo que aqui são nascentes de rios, que essas águas são importantes para a vida de quem está aqui. Nós estamos falando de floresta, estamos falando da biodiversidade, estamos falando das espécies que estão aqui nessa região, que são únicas daqui. Nós estamos falando de uma região que é um sítio sagrado de todos os povos”, afirma.

Comunidade Apiwtxa, Acre (Foto: Arison Jardim)

Ele acrescenta que o Alto Juruá e o lado peruano estão mapeados como territórios de alta diversidade, com áreas protegidas e terras indígenas reconhecidas por lei, incluindo reservas extrativistas e o Parque Nacional da Serra do Divisor. Esses marcos legais deveriam garantir proteção, mas, segundo as comunidades, têm sido sistematicamente pressionados por interesses econômicos externos.

A escalada de crimes ambientais e territoriais

Piyãko aponta que o problema da mineração ilegal na UC-105 se conecta a um conjunto mais amplo de atividades ilícitas que afetam a região. A presença de pistas clandestinas, circulação de drogas e avanço de grilagem e concessões florestais sem controle institucional compõem o cenário descrito pelas lideranças.

“Estamos questionando que muitas ameaças estão acontecendo aqui dentro e que o Estado precisa tomar providências. Providência que é tirar o narcotráfico da região, o crime organizado, porque está tudo mapeado, todo mundo sabe onde estão as pistas de pouso, onde está o plantio e as indústrias dentro da floresta.”

É nesse contexto que a mineração ilegal surge como mais um vetor de pressão. Para os povos do Juruá, o risco associado ao garimpo, que é histórico em várias regiões da Amazônia, inclui contaminação das águas, entrada de grupos externos e desestruturação social, especialmente em áreas próximas a terras indígenas e unidades de conservação.

Por isso, a afirmação de Piyãko é direta: “Estamos alertando disso, a gente não quer o garimpo invadindo o nosso território, a nossa região.”

A disputa pelo discurso do desenvolvimento

Piyãko enfatiza que grandes empreendimentos têm sido apresentados como propostas de integração entre Peru e Brasil, mas que, na forma como surgem, ignoram direitos básicos das comunidades. Segundo ele, há tentativas de convencer a população de que estradas e projetos associados gerariam benefícios, sem que haja consulta ou participação dos povos afetados. ​​Nos últimos meses, o governo do Acre voltou a manifestar interesse em viabilizar uma ligação terrestre com o Peru pela região de Marechal Thaumaturgo, recolocando o tema da integração fronteiriça na pauta estadual.

“Nós não somos contra desenvolver, mas o desenvolvimento tem que vir com a proteção”, Francisco Piyãko (Foto: Arison Jardim)

“Tem um movimento forte tentando manipular, tentando enganar a população, dizendo que vamos fazer um processo de desenvolvimento a partir de integração com os países. (…) Agora, eles querem fazer uma integração passando por cima de direitos”, declara Piyãko. 

Para o coordenador da OPIRJ, esse modelo não atende nem à legislação vigente nem às necessidades da região. Ele reforça que não há oposição ao desenvolvimento em si, mas sim ao formato que desconsidera direitos e desprotege territórios sensíveis. “A gente sabe que é preciso, nós não somos contra desenvolver, mas o desenvolvimento tem que vir com a proteção, a garantia de direitos de quem mora aqui.”

Piyãko reforçou que o problema central não está apenas na atividade ilegal que avança sobre a fronteira, mas no próprio modelo de estrada que vem sendo imposto sem diálogo com os povos da região. Segundo ele, o traçado atual não oferece garantias nem estabilidade às comunidades.

A defesa dos direitos como eixo central

Ao tratar do papel das organizações indígenas do Juruá e do Ucayali, Piyãko ressalta que a luta hoje é pelo cumprimento das leis que já existem, especialmente aquelas que regem territórios indígenas. “Nós estamos falando de consulta livre, prévia, informada, para tudo que envolve essa região e o nosso território.”

“A gente não aceita mais, seja o formato que for, ser escravo de sistemas que olham somente para o lucro”, Francisco Piyãko (Foto: Arison Jardim)

O chamado, afirma, é para que nenhum direito seja violado em nome de falsas promessas ou interesses externos que não dialogam com o modo de vida local: “A gente quer todos protegidos. Não adianta fazer um desenvolvimento que não respeite as características de cada município, os valores desses municípios de fronteira e trazendo de fora um modelo para impor aqui um sistema capitalista do controle, do patrão, do cativeiro, como foi no passado.”

Piyãko reforça uma fala que sintetiza a posição de décadas de luta dos povos da floresta contra modelos que repetem ciclos de exploração e desigualdade. É, ao mesmo tempo, um recado aos governos, às empresas e à sociedade: “A gente não aceita mais, seja o formato que for, ser escravo de sistemas que olham somente para o lucro, passando por cima das pessoas, passando por cima das vidas, passando por cima de tudo. Isso é política que não se aplica mais, porque essas não deram certo em lugar nenhum do mundo, a não ser enriquecer uns e destruir os outros.”

Com informações de epicentro.tv

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MEIO AMBIENTE

Liderança Kuntanawa rebate vereador e diz que demarcação vai proteger nascentes

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A liderança indígena Haru Kuntanawa reagiu às críticas do vereador Glaucio Pedrosa (União Brasil) contra a demarcação da Terra Indígena Kuntanawa, em Marechal Thaumaturgo, no interior do Acre, e defendeu que o processo busca garantir proteção ambiental e segurança para a própria população local. A resposta foi dada em entrevista ao jornal A Gazeta, após o parlamentar usar a tribuna da Câmara Municipal, na sessão de segunda-feira (13), para classificar o avanço de novos estudos da Funai e a atuação de órgãos ambientais como um “atraso” para o município.

No discurso, Pedrosa afirmou que o “ambientalismo” estaria “segregando” moradores e produtores rurais e citou a ampliação de áreas protegidas — como a Reserva Extrativista do Alto Rio Juruá e o Parque Nacional da Serra do Divisor — como fator de redução de espaço para a produção agropecuária. O vereador também disse que haveria casos de produtores impedidos de comercializar gado e atribuiu as restrições a órgãos como ICMBio e Funai, além de direcionar críticas ao governo federal. “O ambientalismo está nos segregando… a gente não aguenta mais isso”, disse, na tribuna.

Na resposta ao jornal A Gazeta, Haru Kuntanawa afirmou que a reivindicação pela demarcação não começou agora e acumula quase três décadas de mobilização institucional, com base na presença histórica do povo na região. Ele contestou a ideia de “segregação” e sustentou que a proposta, na prática, é organizar responsabilidades e garantir proteção de áreas sensíveis. “Convido o vereador a conhecer melhor o detalhe da nossa luta… a gente está respeitando os critérios, trabalhando em paz, promovendo um diálogo”, afirmou.

Um dos pontos centrais da fala foi a distinção entre a vida indígena e o modelo das comunidades extrativistas, hoje predominante na Resex. Haru afirmou que a demarcação específica é necessária por envolver modos de vida, rituais e organização social próprios. “Um povo indígena é totalmente diferente no conceito de viver”, disse, ao citar práticas culturais e cerimônias tradicionais.

A liderança também buscou reduzir a tensão em torno de possíveis perdas de área por não indígenas. Segundo Haru, o estudo em curso não tem foco em desapropriar moradores ou produtores consolidados, e sim em proteger cabeceiras dos rios São João, Acurauá e Caipora, consideradas estratégicas para o equilíbrio hídrico local. “Nós não estamos desapropriando ninguém… a gente está chamando essa responsabilidade para nós, para que possamos cuidar”, afirmou.

O debate ocorre enquanto a Terra Indígena Kuntanawa aparece em procedimentos de identificação e delimitação em curso na Região Norte, sob responsabilidade de grupo técnico, e enquanto Marechal Thaumaturgo convive com grandes áreas protegidas no entorno, como a Reserva Extrativista do Alto Juruá, criada em 1990, e o Parque Nacional da Serra do Divisor, unidade federal que abrange uma extensa faixa do Vale do Juruá.

No plano nacional, a discussão sobre demarcações segue atravessada pela disputa jurídica em torno do marco temporal, com decisões recentes do Supremo Tribunal Federal que voltaram a rechaçar a tese e trataram de pontos da Lei 14.701/2023, alimentando reações de setores contrários às demarcações e reforçando a pressão de organizações indígenas por celeridade e segurança jurídica.

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Amazônia

Secas mais longas e chuvas irregulares já avançam na Amazônia e acendem alerta para risco de fogo em 2026 e 2027

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A Amazônia brasileira já vive um cenário que, até pouco tempo, era tratado como projeção de décadas à frente: a estação seca está mais longa e o regime de chuvas mudou, com efeito direto no déficit hídrico e no avanço de incêndios e degradação florestal, segundo dois estudos liderados por pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e divulgados pela Agência FAPESP.

Uma das pesquisas aponta que a estação seca pode se estender de quatro para até seis meses, com aumento do déficit hídrico acumulado acima de 150 milímetros. O trabalho também descreve mais instabilidade no clima e maior ocorrência de eventos extremos fora do padrão sazonal, além de associar o agravamento do quadro ao crescimento da degradação da floresta ligada ao fogo.

O alerta se volta especialmente para 2026 e 2027, diante da possibilidade de um “super El Niño”, fenômeno marcado pelo aquecimento do Pacífico equatorial que, em episódios mais intensos, pode elevar a temperatura em mais de 2 °C acima da média e alterar a circulação atmosférica e as chuvas em escala global.

A análise climática foi feita com foco no sudoeste da Amazônia, área que inclui o Acre e partes do Amazonas e de Rondônia. A região tem trechos com mais de 90% de cobertura florestal, mas convive com pressão crescente de desmatamento. Para medir o estresse hídrico, os pesquisadores usaram o máximo déficit hídrico acumulado (MCWD, na sigla em inglês), indicador trabalhado há anos na literatura científica, combinado a dados e simulações do CMIP6, a base de modelos climáticos usada em avaliações alinhadas aos cenários socioeconômicos (SSPs) discutidos no IPCC. Em cenários de altas emissões, o estudo projeta déficits mais intensos na seca, sobretudo no sudoeste da floresta, com estresse hídrico mais forte entre junho e setembro e valores que podem ultrapassar 21 milímetros por mês até o fim do século no cenário mais pessimista.

A consequência imediata é o aumento da vulnerabilidade da floresta em pé. Com menos água disponível por mais tempo, cresce a mortalidade de árvores, a perda de biodiversidade e a degradação florestal, além da redução da capacidade da Amazônia de funcionar como sumidouro de carbono — um ciclo que retroalimenta o aquecimento global. Para melhorar a capacidade de prever riscos e orientar políticas públicas, o grupo defende análises integradas que levem em conta mudanças no uso da terra, anomalias na circulação atmosférica e a interação entre incêndios e secas.

O segundo estudo se apoia no que já ocorreu recentemente. Ao analisar a seca de 2023 e 2024 — período em que o Brasil também foi afetado pelo El Niño — os pesquisadores mapearam estresse hídrico, degradação florestal e dinâmica do fogo. Os resultados mostram aumento médio de 9% nas áreas queimadas e de 19% nos alertas de degradação, com até 4,2 milhões de hectares atingidos por fogo no pico da seca. A conclusão é que o ciclo “seca–fogo–degradação” ganhou força e reduz a capacidade de recuperação do ecossistema, com o fogo cada vez mais ligado ao enfraquecimento da floresta em pé, e não apenas a áreas recém-desmatadas.

A engenheira ambiental e sanitarista Débora Dutra, doutoranda no Inpe e primeira autora dos dois artigos, resume a mudança de patamar: “Estamos observando que os extremos de anomalia mais pessimistas estão acontecendo no presente”. Já a pesquisadora Liana Anderson, orientadora de Dutra e também do Inpe, liga o diagnóstico científico ao desafio de resposta: “Estamos em um momento crucial, com metas nacionais e internacionais a cumprir até 2030. Se colocarmos os esforços nessa direção, temos condição de atingi-las”.

No campo operacional, a conexão entre pesquisa e combate ao fogo vem ganhando corpo. As pesquisadoras participam da iniciativa “Fogo em Foco”, parceria com forças de prevenção e combate — como corpos de bombeiros — e instituições de pesquisa, que lançou um relatório sobre a temporada 2024–2025 e manteve a articulação para 2026. Anderson resume o objetivo da ponte com quem atua na linha de frente: “Essa aproximação é uma forma de aliar o que a ciência consegue entregar com a realidade de quem atua na ponta”.

Com a perspectiva de secas mais longas, maior déficit hídrico e aumento do risco de incêndios e degradação, o avanço do problema tende a pressionar a biodiversidade, a disponibilidade de água e a própria resiliência da floresta, ampliando impactos sociais e econômicos em cidades amazônicas e fora delas. A janela para 2026 e 2027, apontada pelos estudos, coloca em jogo a preparação de sistemas de alerta, a coordenação institucional e políticas que tratem fogo, degradação e mudanças climáticas como partes do mesmo problema.

Fonte: Fapesp

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MEIO AMBIENTE

STF derruba leis do Acre que previam título definitivo para florestas públicas e veta “usucapião” de áreas protegidas

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O Supremo Tribunal Federal anulou trechos de duas leis do Acre sancionadas em 2024 que abriam caminho para a transferência de florestas públicas estaduais a particulares após dez anos de uso autorizado. A decisão, tomada no julgamento conjunto das ADIs 7764, 7767 e 7769 em plenário virtual, bloqueou o mecanismo que convertia concessões temporárias em título de domínio definitivo e derrubou pontos de uma reforma ambiental que flexibilizava exigências de licenciamento no estado.

O centro do julgamento foi o dispositivo inserido pela Lei 4.396/2024 na legislação acreana de gestão de florestas públicas, que determinava a emissão de “título de domínio (definitivo)” depois de dez anos da concessão de direito de uso — ou mediante comprovação de posse pelo mesmo período por produtor enquadrado como agricultor familiar ou extrativista — e ainda previa a desafetação da área do regime de floresta pública. Para o STF, esse desenho colidia com a vedação constitucional de aquisição de bens públicos por usucapião e com o regime jurídico federal que disciplina o uso de florestas públicas sem converter, automaticamente, uso em propriedade.

Relator das ações, o ministro Nunes Marques afirmou no voto que “as florestas públicas não podem ser transferidas mediante usucapião”, ao apontar que a Constituição impede a apropriação de imóveis públicos por decurso de tempo e que a lei estadual criou um atalho para a transferência dominial sem as exigências aplicáveis ao patrimônio público e à proteção ambiental.

As ações foram apresentadas ao Supremo após a publicação das novas normas em 2024, quando a Procuradoria-Geral da República e o Partido Verde questionaram o alcance das mudanças na política ambiental acreana e na gestão de áreas florestais, sob o argumento de que o estado não poderia reduzir o nível de proteção definido por regras federais nem criar um regime próprio de alienação de áreas cuja destinação é a preservação. No julgamento, o STF também reconheceu perda parcial de objeto em relação a trechos que haviam sido revogados posteriormente por legislação estadual, mas manteve o núcleo do veto ao dispositivo que transferia florestas públicas a particulares com base em posse ou uso por dez anos.

Além da regra de titulação, a discussão alcançou mudanças promovidas pela Lei 4.397/2024 na Política Ambiental do Acre, com hipóteses de simplificação e dispensa de licenças ambientais para atividades e intervenções associadas a obras e manutenção em empreendimentos viários, como limpeza, roçada e poda em faixa de domínio. O STF tratou essas alterações no contexto de competências concorrentes em matéria ambiental e do patamar mínimo de proteção estabelecido nacionalmente, num momento em que a Amazônia segue no centro do debate sobre avanço do desmatamento, grilagem e regularização fundiária.

Na prática, a decisão impede que o Acre use a legislação local para transformar permissões de uso em propriedade privada de áreas florestais e reforça a separação entre exploração autorizada e domínio. A legislação federal de gestão de florestas públicas admite concessões para manejo sustentável, mas preserva a titularidade pública e condiciona a exploração a regras de controle e monitoramento, justamente para evitar a conversão do patrimônio florestal em estoque imobiliário.

Com o julgamento, procedimentos administrativos que buscavam titularizar áreas com base no dispositivo derrubado ficam sem amparo, e o estado passa a ter de se alinhar aos instrumentos federais de concessão e gestão. O resultado imediato é o bloqueio de uma rota jurídica que poderia favorecer a grilagem e ampliar a pressão sobre a floresta em um dos trechos mais sensíveis da Amazônia Ocidental, além de sinalizar a outros estados que mudanças locais não podem flexibilizar a proteção ambiental nem criar atalhos para a privatização de bens públicos.

Entenda o impacto

Cinco florestas públicas estavam no centro da disputa

Áreas criadas para uso sustentável poderiam virar título definitivo após dez anos.

5 florestas estaduais
688 mil hectares
10 anos para virar título

As leis derrubadas pelo STF atingiam cinco florestas públicas estaduais do Acre, com cerca de 688 mil hectares, onde o governo poderia transformar autorizações de uso em título definitivo depois de dez anos. As áreas ficam em Tarauacá (florestas do Rio Gregório, Rio Liberdade e Mogno), na região de Sena Madureira e Bujari (Antimary) e entre Feijó e Manoel Urbano (Afluente do Complexo do Seringal Jurupari), todas criadas para permitir uso sustentável sem perder o domínio público.

Do ponto de vista ambiental, a titulação muda o incentivo no território: quando a terra vira propriedade, cresce a pressão por abertura de áreas, valorização imobiliária, ramais e ocupações, o que tende a acelerar desmatamento e fragmentação da floresta.

“Quem invade a terra desmata imediatamente para ganhar dinheiro o mais rápido possível”. Paulo Barreto, pesquisador do Imazon

Para a pesquisadora Brenda Brito, também do Imazon, a regularização costuma virar a “porta de saída” preferida para ocupações em terras públicas, quando outras destinações — como proteção e manejo com controle — deveriam vir primeiro.

Foto: Sérgio Vale

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