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Nova Xapuri – Obra e Futuro

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Reportagem Premiada

Este texto foi o vencedor do 1º lugar na categoria Texto no 3º Prêmio de Comunicação do Governo do Estado do Acre – Marcos Vicentti (2025).

Xapuri amanhece entre o som do rio e o eco das máquinas. No horizonte, a Ponte da Sibéria desenha sua curva sobre o Acre como quem costura uma cidade partida ao meio. Rio acima, ainda cruza a velha balsa; rio abaixo, a catraia é quem continua dando o tom — lembrança de um tempo que começa a se despedir.

O concreto novo se ergue sobre o curso lento do rio e anuncia uma travessia que vai além da geografia. Por décadas, Xapuri viveu dividida por uma distância curta e, ao mesmo tempo, imensa. De um lado, o centro urbano e o movimento das praças; do outro, o bairro da Sibéria e as comunidades rurais que, até hoje, dependem do ritmo das águas para chegar à cidade. Entre os dois mundos, o cotidiano se fazia de espera, de travessias contadas pelo relógio da balsa e pela força do remo.

Agora, o som metálico das ferragens e os cheiros do cimento e do asfalto recém-assentados anunciam um novo tempo. A ponte e a estrada, a Variante, formam uma mesma linha de futuro, abrindo passagem para o movimento das pessoas, da produção e das ideias. É o fim de uma era em que a vida parava quando o rio enchia ou a lama tomava o caminho.

Xapuri se transforma diante dos próprios olhos. A cidade que nasceu da borracha, que resistiu nas lutas extrativistas e guardou a memória de Chico Mendes, volta a ser ponto de encontro. Cada estaca fincada na beira do Acre e cada quilômetro pavimentado da Variante são também um gesto de permanência, de quem acredita que o interior merece o mesmo chão firme que sustenta as capitais.

A nova Xapuri começa ali, entre o barulho das máquinas e o silêncio da água que segue correndo, levando, com ela, o último vestígio de uma travessia que ficou para trás.

O Rio Acre reflete o concreto novo e as lembranças antigas de uma travessia que sempre separou Xapuri em dois mundos: o centro e a Sibéria. À beira do barranco, o educador Elias da Costa Chaves observa o avanço da ponte como quem reconhece o fim de um ciclo. “O isolamento aqui é o que mais pesa. Antes da balsa, a canoa tinha hora pra funcionar. Oito, nove da noite já parava. Quem ficasse do lado de cá, ficava preso. Agora, com a ponte, a gente vai e volta a hora que quiser. Sai do isolamento. Pode levar a família, visitar os parentes. Minha mãe tem 85 anos. Com a ponte pronta, posso atravessar com ela quando quiser. É liberdade.”

Elias fala com a tranquilidade de quem esperou uma vida inteira. Ele lembra do pai, seringueiro, que morreu sonhando com essa obra. “O velho dizia que um dia iam fazer. Mas era só conversa. Toda eleição, promessa. Só zoada. Quando o governador Gladson veio e prometeu. Está cumprindo com a promessa dele. Fizeram o lançamento aqui no salão comunitário, ele mostrou uma saia e disse que se não cumprisse ia vestir essa saia. Eu acreditei que ele ia fazer essa ponte.”

O educador, que hoje atua em uma escola em Epitaciolândia, nasceu no Seringal Barra e, quando chegou na Sibéria,  iniciou a vida de travessias, estudava do outro lado e todos os dias fazia o mesmo trajeto. “Descia o barranco liso, no escuro, com lanterna. Quando chovia, a gente caía na lama, voltava pra casa molhado. Era rotina. A gente fez o fundamental aqui, o médio do outro lado. Para atravessar, era na remada. Motor de rabeta é coisa nova. Antes era remo, força de braço. Agora os meninos vão estudar de ônibus. Vão ter o que a gente não teve.”

Com o olhar preso na estrutura que já anuncia um novo futuro, Elias descreve a obra em uma expressão: elo de ligação. “Uma ponte une. Ela junta o que o rio separa. Integra. E aqui tudo é Xapuri. Antes era só promessa, agora é realidade. Isso aqui muda tudo. É o fim do isolamento.”

Enquanto Elias conta sua história, como é de costume no interior, chega junto mais gente para a conversa. Josimar dos Santos Silva, 47 anos, enfermeiro e líder comunitário do Bairro Sibéria, já marca para daqui há pouco a entrevista. “Eu nasci aqui, moro aqui há 47 anos. Vi muita gente sofrer por falta de travessia. A catraia fechava às dez da noite e a gente ficava isolado. Já fizemos parto na beira do rio porque não dava tempo de chegar no hospital. Já perdemos gente que infartou do lado de cá, que foi furada, que precisou de socorro e não conseguiu atravessar.”

Em um relato que marcou profundamente a comunidade, ele conta como uma noite trágica selou o destino de tantas pessoas naquele verão de 2012. “Uma família voltava de um culto, e a catraia bateu num pau no rio seco. Três pessoas morreram. Tinha criança, idoso, gente que não sabia nadar. A gente ficou gritando na beira do barranco. Foi um desespero. Teve morador que caiu na água para ajudar essas pessoas, outros pegaram canoa, desceram rapidamente. Muitos foram salvos, outros ficaram enganchados no galho, mas muitas pessoas mesmo assim foram salvas. Hoje, onde está localizada a balsa, foram retiradas pessoas lá já quase morrendo. A gente sofreu essa fatalidade em decorrência da ponte que a gente não tinha na época.” 

Para Josimar, a ponte é mais que estrutura: é um reparo histórico, após vários pedidos e até abaixo-assinados entregues para governantes ao longo dos anos. “Essa é uma luta de décadas. A comunidade nunca perdeu a fé. Quase metade da população de Xapuri mora desse lado. Quando a balsa para, tudo para. Agora a gente vai poder ir e vir, trabalhar, estudar, viver com dignidade.”

Ele fala do bairro com orgulho. “Hoje a Sibéria tem mais de 3 mil casas, tem mercado, farmácia, agropecuária. É um bairro que cresceu, que tem história. Aqui todo mundo se conhece, todo mundo se ajuda. Eu amo esse lugar. Não saí quando era difícil, não vou sair agora. Essa ponte chega no tempo certo. Antes da ponte era atraso. Depois da ponte, é futuro.”

Com extensão total de 363 metros, a obra tem orçamento de mais R$ 40 milhões, sendo R$ 15 milhões provenientes de emenda parlamentar do senador Marcio Bittar e R$ 25 milhões de investimento do Estado.



Na sede do Deracre, em Rio Branco, Sula Ximenes fala com a calma de quem conhece cada detalhe da obra. Hoje, ela preside a autarquia e acompanhou a Ponte da Sibéria e a Estrada da Variante desde o primeiro traço de projeto, quando era chefe de gabinete. “Foi um sonho muito antigo daquela população”, diz, relembrando o dia da ordem de serviço, em 2022. “Eu estive lá quando o governador Gladson prometeu, e nós licitamos com recurso próprio. Desde então começou a obra, e agora, finalmente, está próximo para a gente fazer essa inauguração.”

Orgulhosa do trabalho de todos os envolvidos e do crença do governador em sua gestão, ela afirma: “Será um marco na história de Xapuri deixar a balsa para trás. Eu sempre, quando vou lá, vejo assim: é o passado e o futuro lado a lado. Porque quando a gente sobe ali na ponte, olhando, a gente vê a balsa lá embaixo.”

Sula explica que “fazer uma obra dessa não é fácil, e ela não é simples. É uma obra complexa”. Foram três anos de desafios técnicos, desapropriações e ajustes. “Os desafios foram muitos, tanto na parte de recurso quanto na execução, mas o governo sempre aportando, nunca faltou recurso, porque era uma prioridade do governador Gladson.”

Ela fala com firmeza sobre o método: “Uma obra dessa é feita por muitas mãos. Não é só licitar e contratar a empresa. Vem a parte de desapropriação, a parte social, toda feita pelo Deracre, com visita às famílias que moravam ali no entorno. Fizemos tudo com cuidado, com carinho, com uma equipe eficiente.”

Ao mencionar o investimento, o tom é de responsabilidade. “O compromisso é com as pessoas. Quando se faz política com seriedade, com comprometimento, as coisas acontecem. E foi o que aconteceu ali com a ponte de Xapuri e também com a de Sena.”

Sobre o papel pessoal nesse processo, Sula sorri. “Eu me sinto honrada e agradecida em fazer parte desse momento para Xapuri. Agradeço ao governador por ter me dado essa oportunidade. Sei cada detalhe, sei o quanto de suor de todos foi empregado nessa obra.”

Do alto da ponte, o olhar alcança mais longe, segue o curso do rio e se perde na curva da estrada nova. A Sibéria se liga ao asfalto da Variante, atravessando o centro de Xapuri, como se o concreto chamasse o caminho adiante. As duas obras se encontram no mesmo gesto: o de romper o isolamento e costurar a cidade ao resto do Acre. Juntas, refazem o eixo de uma nova Xapuri.

O dia segue e o sol corre sozinho sobre o asfalto novo da Estrada da Variante, onde o cheiro é de mais promessa cumprida. À beira da pista, o vice-prefeito, e morador histórico da região, Vânio Miranda olha para o horizonte e fala como quem revisita a própria infância: “A gente veio de Rondônia em 1988, cheio de sonho, e minha mãe preocupada: ‘Como é que os meninos vão estudar?’. Como estava na terraplanagem, a gente veio todo animado. Vamos para a escola tranquilo, de bicicleta, de carro. E aí, no decorrer de algum tempo para, isso não foi mais se tornando realidade. A estrada foi se acabando e o asfalto que era pra ser verdade, se acabou. Não existiu asfalto.”

A voz de Vânio embarga quando lembra dos primeiros tempos. “A gente acordava quatro da manhã, meu pai ia tirar leite, e nós seguíamos pra escola. Muitas vezes a bicicleta atolava, o pneu enchia de lama e a gente deixava na beira da estrada pra chegar a pé. Era assim todo dia.”

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A Variante foi durante décadas sinônimo de isolamento. “Essa estrada aqui já tirou mais de cinco mil litros de leite por dia. Tinha gente que tirava mil litros sozinho”, conta Vânio, agora vice-prefeito e empresário. “Meu pai, Toninho Miranda, tirava setecentos. A produção era forte, mas a falta de estrada acabou com tudo. As bueiras quebravam, o caminhão da feira, que passava toda sexta-feira, atolava. A gente ia com o trator puxar.”

Ele respira fundo e diz o que muitos moradores pensam: “Foram mais de trinta anos de espera. Muita gente morreu sem ver esse asfalto. Meu pai, meus tios, Dona Isaura, o Zezinho Baiano. Mas o sonho ficou. Agora tá aqui, pronto. A estrada voltou a viver. Tem caminhão da feira toda sexta, ônibus passando, táxi passando. A gente nunca imaginou ver táxi passando na porta.”

Do outro lado da cidade, o taxista Jamilson Rodrigues, 30 anos de praça, fala do mesmo asfalto com outro olhar, de quem vive na estrada todos os dias. “Rapaz, isso aqui é uma benção. Quando cheguei em Xapuri, a estrada era de barro puro. A gente atolava tanto. A Variante era um desejo de muita gente, do seu Toninho Miranda, Zezé Miranda, era um sonho, mas infelizmente eles não alcançaram. Agora, com ela pronta, a gente economiza tempo, gasolina e vida. Dá uns oito, dez minutos a menos por corrida, e a viagem pra Rio Branco ficou mais leve.”


A Estrada da Variante, com 17,5 km, liga o centro de Xapuri à BR-317, criando uma rota alternativa à antiga Estrada da Borracha. A obra foi executada pelo Governo do Estado, por meio do Deracre, com investimento de aproximadamente R$ 30 milhões, oriundos de recursos estaduais e de emenda parlamentar federal.


A estrada que cortava a esperança agora costura a cidade de novo. E Sula Ximenes sabe o peso que carrega. “A Variante foi uma das obras mais difíceis que já enfrentamos. Mais até que a ponte da Sibéria”, diz, com a serenidade de quem acompanhou cada metro deste sonho. “Foram 17 quilômetros com desapropriações, galerias, trechos instáveis. Em certo momento, faltou recurso, porque era uma emenda parlamentar, e depois conseguiu ser regularizado. Mas o governador Gladson Cameli manteve o compromisso.”

Sula fala com a precisão de quem viu o projeto sair do papel. “A maior dificuldade é essa, transformar um sonho em obra. As pessoas olham de fora e acham que é só colocar máquina. Mas quem está dentro sabe o processo: licitação, adequação, análise técnica, financeira. A estrada demorou, mas ficou pronta, e o resultado tá aí: conecta Xapuri ao desenvolvimento, encurta o caminho pra Rio Branco e devolve dignidade a quem viveu décadas no barro.”

Ao longo da via, há sinais de renascimento. Vânio conta que os produtores voltaram a acreditar. “O leite está voltando. Tem gente que tinha parado e voltou a tirar leite. Estão plantando de novo: mandioca, banana, abacaxi, jambu. Toda sexta o caminhão chega no mercado de Xapuri carregado da produção da Variante. É renda, é movimento. Essa estrada é vida pra nossa cidade.”

Ele fala devagar, como quem mede as palavras para que fiquem gravadas. “Deus coloca a gente no lugar certo, na hora certa. Eu cresci nessa estrada, e hoje sou vice-prefeito da cidade, com a estrada levando o nome do meu pai. É uma responsabilidade grande, mas é gratificante. O prefeito Maxwell Maia é um irmão que eu ganhei. É um cara que pensa grande, e junto com o governador Gladson e a vice-governadora Mailza, a gente conseguiu fazer o que parecia impossível.”

No caminho de volta, o carro desliza sobre o asfalto novo. Vânio olha o movimento dos veículos e conclui: “Você tá lá na capital, vem à Brasileia, mas não ia vir em Xapuri, porque ficava, como o ditado popular, de manga, e hoje as pessoas veem uma rotatória daquela, já entram na Variante, e com isso traz o movimento para a nossa cidade.”

A história de Vânio e da família Miranda é, em si, um pedaço da própria estrada. Foram décadas de trabalho e persistência, sempre com os pés no barro e o olhar adiante: “Meu pai sempre dizia: ‘Faça algo por alguém. Faça o melhor, cada dia mais’.”

O rio e a estrada agora se encontram na mesma linha de horizonte. A ponte da Sibéria e a Estrada da Variante se constroem como gestos que mudam o destino de uma cidade. Xapuri, que aprendeu a viver entre margens e atoleiros, volta a se reconhecer inteira. O concreto e o asfalto costuram a história interrompida por décadas de espera, ligando o centro à Sibéria, o campo à cidade, o passado ao que ainda está por vir.

A nova Xapuri nasce dessas conexões, da persistência de quem acreditou e da decisão de um governo que fez chegar o investimento certo até onde o mapa costuma esquecer. A ponte e a estrada transformam a paisagem e, com ela, a vida. E quando o sol reflete sobre o rio e sobre o asfalto, é possível ver que a cidade, enfim, se completou, unida, firme, e voltada para o futuro.

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A fé cabocla rasga o varadouro para alcançar o sagrado; Nova Olinda, Juruá

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Nova Olinda, Alto Juruá

A fé cabocla rasga o varadouro para alcançar o sagrado

A travessia de lama, suor e silêncio nas barrancas do extremo oeste acreano, onde o povo da floresta forja os seus próprios milagres.

Por Arison Jardim
Fevereiro de 2026

Onde o Brasil ensaia o seu fim e o Peru se anuncia, o mapa abandona as linhas retas e passa a ser desenhado pelas curvas barrentas das águas. No extremo oeste do Acre, o município de Marechal Thaumaturgo não é apenas uma fronteira geopolítica; é uma trincheira viva da Amazônia profunda. Ali, a Reserva Extrativista do Alto Juruá e as Terras Indígenas formam um cinturão humano e verde, onde a cultura da floresta dita as horas e o isolamento não decreta o fim do mundo, mas a preservação de um. É neste beiradão de Brasil, a dezenas de quilômetros do asfalto, que repousa um dos maiores monumentos da religiosidade popular amazônica: o Santuário de Nova Olinda.

Para narrar essa travessia, emprestamos os olhos, o suor e os passos de Cleudon França, jornalista e memorialista que, entre os dias 12 e 15 de fevereiro deste ano, refez o duro trajeto até as margens sagradas do Igarapé São Luís. E é pelas palavras dele que somos guiados para a crueza e a beleza desse altar a céu aberto.

Fotos de Antônio Savio Batista e Cleudon França

A Batalha Fluvial e o Pedágio da Correnteza

A peregrinação começa muito antes de o joelho dobrar; ela se inicia na proa do batelão. Partindo da sede de Marechal Thaumaturgo, rasga-se o Rio Juruá até adentrar os braços mais estreitos do seu afluente, o Rio Caipora. A navegação logo deixa de ser deslocamento e vira um enfrentamento físico.

A água amarelada e turva denuncia onde há pedra. Nas cachoeiras rasas e lajes expostas, a embarcação verde e amarela de madeira não avança sozinha. Os motores Honda calam ou são erguidos no braço. Os homens descem. Com a água batendo na cintura e fustigando as pernas, eles cravam os pés nas pedras escorregadias do leito. O esforço estampa-se nas veias saltadas e nas roupas encharcadas coladas ao corpo, enquanto empurram a canoa contra o volume espumante da corredeira.

Mais adiante, o desafio muda de forma: uma imensa árvore caída cruza o igarapé de margem a margem, um emaranhado de galhos secos e cipós barrando a passagem. A tripulação precisa escalar o tronco dentro d’água, negociando cada centímetro com a correnteza que não cede. O avanço é medido em poucos metros. Como resume Cleudon: “A floresta impõe regras invisíveis: quem não respeita, retorna. Quem persevera, chega transformado”.

Para narrar essa travessia, emprestamos os olhos, o suor e os passos de Cleudon França, jornalista e memorialista que, entre os dias 12 e 15 de fevereiro deste ano, refez o duro trajeto até as margens sagradas do Igarapé São Luís. E é pelas palavras dele que somos guiados para a crueza e a beleza desse altar a céu aberto.

O Varadouro, o Facão e a Gênese do Mito

Onde a água desiste, as pernas assumem. Deixando os barcos para trás, o promesseiro mergulha no varadouro, engolido pela imensidão da mata. A grandeza do Juruá reduz o homem à sua verdadeira dimensão: Cleudon, vestindo branco, de terço no peito, abre os braços diante de uma samaúma colossal, e ainda assim parece minúsculo diante daquele tronco que se ergue como uma muralha de casca e musgo, adornado por uma placa rústica com os dizeres NOVOLINDA.

Nesse ambiente de sombras alongadas, ladeiras escorregadias de argila e vales onde a lama suga as botas, a caminhada exige horas a fio. “Na trilha, não existe personagem: existe cansaço real, medo real, limite real”, atesta Cleudon sobre o trecho terrestre.

Mas por que se lançar a tamanho sacrifício? A resposta ecoa do tempo em que o sangue molhava aquela mesma terra. A tradição oral ensina que três irmãos vindos do Ceará foram emboscados ali por indígenas não contatados enquanto cortavam seringa. Dois tombaram mortos, e o terceiro, ferido, enterrou-se na areia da praia fazendo uma promessa desesperada a São Francisco. Mais de uma semana depois, quando o resgate os encontrou, os corpos dos caídos estavam em perfeita conservação.

Nascia ali o milagre. Para o nosso guia, recontar esse enredo é vital: “Ser ‘voz dessa última fronteira’ é compreender que a memória não é nostalgia — é responsabilidade”.

O Altar de Terra, Cera e Retratos

“O instante da chegada ao Santuário de Nova Olinda, acontece primeiro por dentro”, descreve Cleudon. Quando se alcança o terreno à beira do Igarapé São Luís, a exaustão se dissolve em um silêncio absoluto. “O coração se ajoelha antes mesmo do corpo”, confidencia. “A alma chora antes das palavras porque entende que atravessou algo maior do que rios e trilhas — atravessou limites invisíveis”.

O visual é arrebatador por sua crueza. Da terra úmida, erguem-se grossos troncos em forma de cruz. Eles sustentam o peso brutal de centenas de peças de roupas. São vestidos florais, camisas, toalhas coloridas e até um velho chapéu de feltro espetado na ponta. Cada farrapo desbotado pela chuva é o fantasma de uma doença curada.

A poucos passos, um barranco de terra escura, entrelaçado por raízes, foi transformado em um altar natural. A rocha é uma cascata congelada de parafina branca, derretida sob a chama viva de dezenas de velas acesas que o vento da mata não apaga.

Sob a proteção de um telhado de zinco, a Casa das Promessas guarda o relicário da fronteira. O ambiente é forrado de tinta verde e preenchido por um varal de roupas deixadas como oferenda. No centro, uma cruz de madeira desaparece sob grossos terços de contas pretas e miçangas cruzadas. Na parede ao fundo, a alma do Juruá se revela: um mosaico de fotografias 3×4, retratos de famílias, imagens de crianças e agricultores. Nas tábuas, nomes como “Hudson” e “Brandão da Silva” foram entalhados, marcando a fé na madeira.

O rito final é a própria água. Os promesseiros mergulham no igarapé para lavar as dores entranhadas. “As águas do Rio São Luís não são apenas correnteza — são espelho e rito”, aponta Cleudon. “Saí molhado por fora. Mas leve por dentro”.

O Panteão dos Seringais e a Fé Cabocla

O Santuário de Nova Olinda não é uma anomalia isolada no mapa acreano; ele é um fragmento de um mosaico muito maior. A ausência histórica de igrejas de alvenaria e do clero nas profundezas da Amazônia forjou uma fé que brota do barro e do sofrimento. Onde o Vaticano não chegou, o seringueiro e o indígena canonizaram os seus próprios mártires.

A crueldade do ciclo da borracha esculpiu figuras como Santa Raimunda do Bom Sucesso, no Seringal Cumaru, em Assis Brasil. Abandonada na mata em trabalho de parto, em 1910, ela morreu na raiz de uma imensa seringueira. A lenda de seu corpo inexplicavelmente pesado e do perfume celestial que tomou o seringal transformou-a no símbolo máximo contra a violência à mulher amazônida. Hoje, todo dia 15 de agosto, milhares de brasileiros e peruanos rompem varadouros na Reserva Extrativista Chico Mendes em uma gigantesca romaria transnacional para clamar por sua proteção.

Nas águas do Alto Rio Envira, a devoção volta-se para a Menina Santa de Feijó (Maria da Liberdade), vítima de uma morte brutal na floresta. Seu túmulo atrai fiéis de várias gerações que utilizam o barro sagrado do local para curar feridas. Protetora das parturientes, seu nome ecoa nos batelões de madeira que cortam as madrugadas escuras. Em Xapuri, no Seringal Boa Vista, a resistência veste a pele de São João do Guarani. Um seringueiro nordestino fulminado pela malária na solidão da mata virou o “Santo da Floresta”, arrastando há mais de um século uma devoção ininterrupta a cada mês de junho.

Quando não são os mártires do seringal, a fé segue os passos dos andarilhos. O grande quadro emoldurado que Cleudon encontrou no altar de Nova Olinda pertence ao Irmão José da Cruz, um missionário profético que, nos anos 1960, espalhou cruzeiros de madeira, benzeções e curas pelas barrancas do Juruá antes de desaparecer misteriosamente rumo ao Peru.

E nos centros urbanos, o sincretismo atinge a sua epifania. Em Rio Branco, nasceram as linhas ayahuasqueiras do Santo Daime (com Mestre Irineu) e da Barquinha (com Daniel Pereira de Mattos). É a consagração máxima da identidade acreana: a cruz do catolicismo popular nordestino mergulhada no cipó e na folha da ancestralidade indígena. Tudo isso enquanto milhares tomam as ruas de Xapuri todo 20 de janeiro para a apoteótica Procissão de São Sebastião, fundindo o secular e o divino.

O Panteão dos Seringais e a Fé Cabocla

Para decifrar esse panteão invisível que vai das margens do Rio Envira às barrancas de Marechal Thaumaturgo, precisamos de chaves que explicam a própria humanidade. O semioticista Roland Barthes nos diria que aquelas roupas amarradas na cruz e os terços pendurados na madeira de Nova Olinda não são restos deixados na mata; são signos poderosos. O tecido abandonou sua função utilitária de vestir o corpo e se tornou a própria dor exorcizada. É o mito que apropria e sacraliza o sofrimento, dando um sentido celestial à tragédia que a floresta e os homens impõem.

E mais, trazemos aqui o sociólogo Pierre Bourdieu pois, em um lapso de memória de antigas leituras, imaginamos que ele veria no devoto amazônico o senhor de seu próprio campo religioso. Desamparado pelas instituições eclesiásticas, o caboclo tomou para si o poder do sagrado: ele próprio benze, reza, ergue a igreja de zinco e acende a vela na rocha. Nesse “mercado de bens de salvação”, o capital simbólico exigido não é o dízimo financeiro, mas o suor. Arrastar a canoa nas cachoeiras do Caipora e afundar as pernas na lama por horas a fio é a moeda que “traz” a graça. É o habitus da floresta: a certeza visceral de que nada que vem sem dor é digno de milagre.

Quando Cleudon observa a imensidão verde após vencer a travessia com seu parceiro, ele nos entrega a bússola para entender o Juruá: “A amizade de verdade é subir a montanha juntos e celebrar lá no alto”. No isolamento da natureza, onde a mata devora as vaidades, o homem não encontra apenas a divindade. “O silêncio de Marechal Thaumaturgo ensina que o ser humano é frágil — mas não é pequeno”, conclui o nosso memorialista. No reflexo das águas turvas e nas cruzes pesadas do Acre, o amazônida não clama apenas por cura; ele consagra a sua infinita e teimosa capacidade de resistir.

Texto e Diagramação Arison Jardim
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Filhos da Floresta: Rian Barros e a nova cara da luta na Resex Chico Mendes

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Filhos da Floresta: Rian Barros e a nova cara da luta na Resex Chico Mendes


Texto e diagramação de Arison Jardim

Por trás da neblina da manhã acreana e do peso secular da castanha, uma nova juventude seringueira recusa o êxodo e empunha a tecnologia para transformar o legado de sangue dos empates em orçamento e política pública.

O silêncio absoluto da Amazônia é um mito urbano. A floresta é barulhenta, viva, um motor biológico que não desliga. Mas na Reserva Extrativista Chico Mendes, no Acre, há um novo ruído se misturando ao canto dos pássaros e ao estalo dos ouriços de castanha caindo no chão úmido: o som das notificações de celular.

Para quem assiste de longe, acomodado na imagem romântica (e muitas vezes engessada) do seringueiro isolado no tempo, a cena pode parecer um choque de realidades. Para Rian Barros, é apenas a sobrevivência mudando de marcha. Filho de Raimundão Mendes de Barros — lenda viva dos históricos empates que, na base do corpo a corpo, frearam as motosserras ao lado do primo Chico Mendes —, Rian carrega um sobrenome que pesa como a própria história do estado.

Hoje, como Secretário da Juventude do PT e liderança que não arreda o pé do chão de terra, ele personifica a ponte entre a trincheira do passado e as batalhas do século XXI.

“Ser filho do Raimundão aqui dentro da Resex não é só orgulho, é uma responsabilidade muito grande”, ele me diz. A voz carrega a firmeza de quem não aprendeu política nos livros, mas na poeira dos ramais. “Eu cresci ouvindo história de resistência, de enfrentamento, de gente que peitou fazendeiro pra garantir esse chão que a gente pisa hoje. Essa terra não foi de graça. Foi conquistada na luta, com suor, sangue e vidas.”

Essa memória, no entanto, é uma planta que exige rega diária. Rian sabe que o esquecimento é o primeiro sintoma da perda de direitos. A juventude da floresta entende parte da dimensão histórica de onde pisa, mas, nas palavras dele, “resgatar essa memória é manter a chama acesa e a luta mais viva do que nunca”.


A Gênese de Sangue: O Preço de Quase 1 Milhão de Hectares

Criada em março de 1990, a Reserva Extrativista Chico Mendes não foi uma concessão diplomática do Estado, mas o resultado de mais de uma década de sangue derramado.

Com 970 mil hectares abraçando sete municípios do Acre, ela nasceu da luta de Chico Mendes e seus companheiros, com a carne e a coragem dos “empates” — barricadas humanas onde seringueiros davam as mãos para formar escudos contra tratores e motosserras.

O objetivo era frear o trator da ditadura que vendia a Amazônia para a agropecuária do Sul. A Resex foi concebida sob uma premissa revolucionária: provar que as populações tradicionais poderiam prosperar mantendo a floresta de pé. Uma utopia que, trinta anos depois, colide com a dureza do mercado.

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Resex Chico Mendes, entre Brasileia e Assis Brasil (Foto: Arison Jardim)

O peso do ouriço e a borracha que pisa em Paris

A modernidade não apagou a dureza do ofício. O extrativismo não é um passeio no parque; é uma coreografia bruta com a natureza. A coleta da castanha-do-brasil dita o ritmo econômico e o desgaste físico de quem vive sob a copa das árvores.

Rian, durante a coleta da castanha neste ano (Foto: Arquivo Pessoal)

“Quem tá no mato sabe que a castanha não é fácil. É peso nas costas, é chuva, é risco de cobra, é andar muito dentro da mata, é trabalho duro”, descreve Rian, dissipando qualquer verniz poético sobre a lida diária.

A saída para não ser esmagado pela engrenagem do mercado contínua sendo a mesma cartilha escrita por seus antecessores: o associativismo. A cooperativa funciona como um escudo.

“Sozinho o produtor é pequeno, mas juntos a gente fica forte. A organização coletiva ainda é nossa melhor defesa contra atravessador que quer pagar mixaria.”

Mas a economia da floresta se ramificou. A borracha, o ouro branco que já definiu os rumos do Acre, ressurge não mais como commodity de exploração desenfreada, mas como artigo de luxo ético. “A borracha continua viva, é nossa tradição. Hoje ela ganha força de novo porque o mundo começa a entender que a floresta em pé vale mais do que derrubada”, reflete. A prova material disso calça os pés de europeus: a parceria da comunidade com a marca francesa Vert (Veja) transformou o látex acreano em tênis de alto valor agregado, numa relação que finalmente remunera a conservação.


Quem é Raimundão: O Corpo que Parou a Motosserra

Para entender o peso dos passos de Rian, é preciso olhar para as pegadas de seu pai. Raimundo Mendes de Barros, o Raimundão, não é apenas o primo de Chico Mendes; ele é a memória viva e pulsante de uma época em que a defesa da Amazônia não era feita em conferências internacionais, mas com o próprio corpo na frente de tratores.

Nas décadas de 1970 e 1980, Raimundão foi um dos grandes fiadores dos “empates” — a tática desesperada e corajosa em que famílias de seringueiros davam as mãos para formar escudos humanos contra o avanço das motosserras e da pistolagem.

Sobrevivente de uma geração de líderes rurais que pagou com a vida pela ousadia de defender a floresta em pé, ele viu a Reserva Extrativista nascer do luto e da luta. Hoje, como um dos maiores guardiões do território, Raimundão é o patriarca da Resex, a ponte histórica que ensina a nova geração a não esquecer o preço do chão que pisam.

Retrato de Raimundo Mendes de Barros, o Raimundão

Guardião da memória: Raimundão resistiu na linha de frente dos empates e segue como uma das maiores referências da Resex Chico Mendes (Foto: Arison Jardim)

O Ciberespaço e o Ecoturismo como Trincheiras

O grande paradoxo que Rian ajuda a desconstruir é a falsa ideia de que a preservação exige isolamento. A nova geração de extrativistas recusa o papel de peça de museu antropológico. Eles querem a floresta intacta, mas querem Wi-Fi debaixo da sumaúma.

“Tem gente que acha que viver na reserva é viver atrasado, isso não é verdade. A gente tem celular, internet, usa rede social e continua sendo extrativista. Uma coisa não apaga a outra”, decreta. A conexão não dilui a identidade; ela a amplifica.

“Ser moderno não é deixar de ser seringueiro, é usar o que tem hoje pra defender o que é nosso. A tecnologia ajuda a vender melhor, denunciar injustiças e organizar a nossa juventude.”

Essa mesma lente pragmática é apontada para o turismo. O ecoturismo que desponta na Resex Chico Mendes é recebido pelos jovens não apenas como um complemento ao balanço financeiro no fim do mês, mas como uma vitrine ideológica. “Trazer gente de fora pra conhecer a Resex não é só dinheiro. É mostrar nossa realidade, nossa luta, nosso jeito de viver. Pra juventude, é renda, mas também é consciência.”


Operação Suçuarana (2025): Táticas de Guerrilha na Mata

A tensão entre a preservação e o avanço da ilegalidade atingiu um ponto de ruptura histórico em meados de 2025. O ICMBio, amparado por decisões judiciais, deflagrou a “Operação Suçuarana” para a retirada de centenas de cabeças de gado irregulares do interior da reserva.

A resposta dos invasores foi inédita e assustadora: agentes de fiscalização enfrentaram táticas de guerrilha. Criminosos incendiaram pontes, bloquearam ramais, cortaram cercas e atacaram acampamentos oficiais.

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O episódio escancarou para o país uma nova e sombria realidade acreana: a simbiose violenta entre o crime ambiental, a grilagem de terras e o avanço do crime organizado nos territórios de floresta.

Amar, Mudar e Permanecer

Nada disso, contudo, blinda a reserva do fenômeno silencioso que esvazia o interior do Brasil: o êxodo rural. Os jovens partem. Vão inchar as periferias de Rio Branco ou de cidades menores, seduzidos pela promessa de uma vida menos ríspida. Mas Rian faz uma correção cirúrgica nessa narrativa: “O jovem não sai porque quer, infelizmente ele sai porque precisa.”

A cura para o êxodo não é o discurso, é o asfalto, o cabo de fibra ótica, o preço justo. “A boa maioria não quer trocar sua terra pra ir morar na cidade. O que falta muitas vezes não é vontade, é política pública chegando de verdade”, pontua.

Em seu perfil digital, Rian empunha um verso clássico de Belchior: “Amar e mudar as coisas me interessa mais”. Na boca de um político urbano, seria apenas marketing. No chão da Resex, é um manifesto de sobrevivência.

“Não é só frase de efeito, é uma postura”, explica Rian, destrinchando sua visão de futuro para a próxima década.

Amar a floresta não é romantizar, é defender, é cobrar e se organizar. Porque amar sem mudar é acomodação, e mudar sem amar vira política fria, que não entende o povo.”

Seu sonho para os próximos dez anos passa longe de utopias inatingíveis. Ele quer o básico bem feito: cooperativas transparentes, turismo estruturado, ramais trafegáveis e uma juventude que escolha ficar por ter oportunidade.

No fim da conversa, a mensagem que ecoa de Rian Barros é um recado direto a quem olha para a Amazônia apenas como um santuário intocável. “Isso não vai acontecer na base do discurso bonito, mas sim quando a gente transformar amor pelo nosso território em pressão, em projeto, em orçamento, em política pública concreta.” O filho de Raimundão sabe melhor do que ninguém: a floresta só fica em pé se quem vive sob a sombra de suas árvores também estiver de pé. E com dignidade.

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Anderson Martins e a forca da Consciencia Negra no Acre

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Cantor, compositor, comunicador e psicólogo, Anderson Liguth carrega no corpo e na voz a força das tradições afro-brasileiras

No Dia da Consciência Negra, o Acre reencontra uma de suas vozes mais consistentes: Anderson Liguth, cantor, compositor, pandeirista, radialista, psicólogo e militante da cultura afro-brasileira. Sua trajetória reúne música, espiritualidade, comunicação, pesquisa e vivência comunitária, mas sobretudo reúne história, a história do povo negro que construiu este país, que resiste todos os dias e que encontra no samba um território de identidade e sobrevivência. Trocamos uma ideia que não poderia seguir outro caminho: uma conversa profunda, generosa e cheia de ancestralidade. Nela, Anderson revisita suas origens, seus mestres, suas descobertas e a potência simbólica do 20 de Novembro.

Ele nasceu em um ambiente familiar amplo, amoroso e ruidoso do jeito mais bonito: o barulho da família grande misturado aos sons de samba, de cozinha, de festa e de convivência. Cresceu na Mangabeira, cercado pelos avós, pelas tias e tios, pelas primas e primos e pela presença marcante de um comércio que atravessou gerações, fundado ainda na década de 1970 por seu avô. Desse território afetivo veio também a música. O pai, percussionista e compositor; a mãe, fã de Clara Nunes e de sambas que ecoavam pela casa; a vizinhança, que se encontrava em rodas de samba onde o menino Anderson já percebia que ali havia algo maior. “Foi amor à primeira vista”, recorda. O pandeiro veio como destino. E o samba, como futuro.

Formado inicialmente dentro do catolicismo, ele conta que a espiritualidade afro-brasileira entrou em seu caminho exatamente pela porta do samba. Ao se aprofundar nas letras, nas histórias e nos nomes que surgiam nas canções, Ogum, Xangô, Iansã, Zé Pelintra, percebeu que aquela musicalidade era linguagem ancestral, memória viva de um povo que criou, no Brasil, um dos mais importantes patrimônios culturais do mundo. Foi através de mestres como o historiador e ogan Arimatéia e o ogan Ed que Liguth compreendeu a dimensão histórica e religiosa do samba e das tradições afro-brasileiras. Ali se reconectou com algo que, segundo ele, sua família não viveu diretamente, mas que encontrou nele um terreno fértil: a espiritualidade como força de mundo, como ampliação de consciência e como elemento inseparável da cultura negra.

Artista, psicólogo e comunicador, ele diz que seu olhar sobre o mundo é moldado por esse entrelaçamento de referências: os valores familiares de amor e solidariedade, a prática do samba enquanto linguagem coletiva e filosófica, a vivência afro-brasileira e a formação acadêmica que lhe deu instrumentos para compreender pessoas e territórios. “Tudo foi se somando”, afirma. O samba ampliou sua visão de mundo e o conduziu a um lugar de pertencimento, identidade e responsabilidade.

No campo artístico, suas composições refletem essa travessia. Uma das músicas que mais o representam é “PAO”, De saudade se faz um samba, parceria com Alexandre Nunes Nobre e Julie Messias. A canção nasce do sagrado: o paó é o som das palmas que, junto aos atabaques, desperta os ancestrais. Na letra, as referências negras, familiares e culturais se misturam. É autobiografia poética, e é marco de sua trajetória.

“O samba é uma ferramenta de transformação”

A comunicação chegou pela porta natural da pesquisa musical. Apaixonado por mergulhar na história do samba, de seus compositores e de seus movimentos, Anderson foi convidado a integrar a Rádio Aldeia primeiro como voluntário e, depois, como comunicador nos programas jornalísticos. Ali aprendeu técnica, narrativa e responsabilidade. Ali formou o comunicador que hoje se reconhece como tal. Foi também a partir dessa vivência que participou de movimentos fundamentais na comunicação e na cultura do Acre, como o programa Quilombo Livre, idealizado por Ogan Arimatéia e Ogan Ed, dedicado à cultura negra, à história afro-brasileira, à religião de matriz africana, à música, à educação e à luta política do movimento negro.

Sua militância, entretanto, não se restringiu aos microfones. Anderson foi um dos idealizadores do Clube do Samba, movimento que transformou a cidade ao reunir músicos, pesquisadores, lideranças comunitárias e jovens artistas em rodas, encontros e oficinas. “Era uma confraria do conhecimento e da tradição”, lembra. Dali nasceram ações de formação, rodas temáticas, filantropia e o impulsionamento de novas vozes, como o grupo Moças do Samba, hoje presente e ativo na cena acreana. Anos depois, quando retornou a Rio Branco após uma temporada no interior, ajudou a fundar o Samba Popular Livre, que ocupou ruas e praças com samba gratuito, feiras solidárias e cultura comunitária.

Para Anderson, o samba é mais do que ritmo: é estrutura social. “O samba é um organismo vivo”, diz. É onde famílias vivem, onde jovens encontram caminhos, onde empreendedores circulam, onde tradições são passadas adiante. É, sobretudo, ferramenta política. A música, para ele, tem papel fundamental na denúncia das desigualdades e na reivindicação de direitos. Ele cita sambas-enredo como o da Mangueira, “História para ninar gente grande”, que rasgam o véu da história oficial e expõem o que foi silenciado: o sangue negro, a luta negra, o Brasil construído pelos que nunca foram celebrados.

É por isso que o Dia 20 de Novembro, para ele, é uma data de luta, e não de festa. Anderson afirma que, apesar dos avanços, o racismo segue modelando a sociedade brasileira. O povo negro, embora seja maioria numérica, segue sendo minoria nos espaços de poder, nas profissões prestigiadas, na política. “É preciso letramento racial, consciência de classe, organização, movimento. É preciso nomear o racismo e enfrentá-lo”, declara. A data, segundo ele, é memória dos que vieram antes, das conquistas e das perdas, mas também é chamado ao presente: chamado à responsabilidade coletiva, à resistência e à continuidade da luta.

“20 de Novembro não é comemoração, é resistência.”

Anderson deseja que o 20 de Novembro seja vivido como consciência ativa. Que se honre quem abriu caminhos. Que a luta ancestral siga sendo trilha para as novas gerações. Que a música, a arte e a cultura negra continuem a despertar o que há de mais profundo: identidade, dignidade, força e vida.

No Acre, no Brasil e no mundo, o samba segue ecoando como ferramenta de resistência e como voz do povo negro. E, pela palavra e pela caminhada de Anderson Martins, essa certeza se faz ainda mais forte.

Realização Bari Comunicação – Texto: Alexandre N Nobre Fotos: Arison Jardim


Confira a entrevista completa >>> Anderson Liguth

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