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MEIO AMBIENTE

Reportagem de jornal peruano relata triste drama de comunidades indígenas que moram às margens do rio Putumayo

O rio Putumayo, conhecido como rio Içá ou rio do Içá em seu trecho brasileiro, é um dos mais importantes afluentes do rio Amazonas.

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O rio Putumayo, conhecido como rio Içá ou rio do Içá em seu trecho brasileiro, é um dos mais importantes afluentes do rio Amazonas. É paralelo ao rio Japurá. O Putumayo/Içá tem 1 645 km de extensão. Nasce nos contrafortes andinos do Equador, corre em direção sudeste, faz uma parte da divisa entre a Colômbia e o Equador e a maior parte da fronteira entre a Colômbia e o Peru. Após entrar no território brasileiro, passa a se chamar Içá. Desagua no rio Amazonas próximo da cidade de Santo Antônio do Içá, possuindo, nessa altura, 700 metros de largura e 55 metros de profundidade.

Putumayo, tem se tornado uma grande rota do tráfico de drogas na região do Peru. No dia 25 de dezembro de 2021, quando sete pessoas foram massacradas na comunidade de Bellavista, às margens do rio Putumayo, sul da Colômbia.

O Jornal peruano, A Liga Contra o Silêncio, fez uma matéria relatando o que os povos indígenas da região têm passado nas mãos dos traficantes e líderes de facções.

“Morre quem tem a ver com os paramilitares”, gritou um homem de uniforme verde com um fuzil, integrante da Frente Carolina Ramírez, para uma multidão de índios Muruí assustados.

Do outro lado do rio, no Peru, estão alguns de seus acampamentos e também plantações de coca. “No fundo, Carolina Ramírez queria pegar os Comandos da Fronteira. Nessa empreitada levaram pessoas inocentes”, explica uma liderança indígena.

Desde o início da pandemia, dias e noites de terror se tornaram mais frequentes na Amazônia colombiana. Apesar do acordo assinado em 2016 com as Farc, e da ambiciosa agenda de paz e política de drogas do novo presidente, Gustavo Petro, a renda ilícita que financia a violência aumenta junto com os hectares de coca, desmatamento e pé de força de grupos armados ilegais . Em setembro, Petro deu seu primeiro discurso internacional à Assembleia Geral das Nações Unidas, onde fez um apelo para conservar a Amazônia e pediu o fim da atual política antidrogas fracassada.

Durante décadas, nem a guerra contra as drogas nem os programas para mudar as plantações do uso ilícito para outros modos de subsistência foram capazes de resolver o problema. A violência continua e agora seus efeitos estão se espalhando além da fronteira, no Peru. No rio Putumayo, fronteira natural entre os dois países, dois grupos que se autodenominam “guerrilheiros”, formados por ex-integrantes das Farc que não aderiram ao processo de paz, ou dele desertaram, agora lutam pelo saque da cocaína e afetam a população. O confronto mais recente deixou 18 mortos e o governo colombiano respondeu enviando seis pelotões de soldados.

O massacre de Bellavista

Este Natal marca um ano desde que a Frente Carolina Ramírez invadiu Bellavista, uma comunidade indígena de agricultores, pescadores e raspachines. Como muitos outros massacres, este foi apenas um registro em uma longa lista de eventos violentos. Mas até agora o ataque a Bellavista, denunciado na época por várias organizações indígenas, não havia sido suficientemente documentado.

Esta área, de difícil acesso no meio da selva, está sob o controle dos Comandos de Fronteira, inimigo e concorrente da Frente Carolina Ramírez no narcotráfico. Em uma tentativa de avançar mais para o sul, nas abundantes regiões produtoras de coca do Peru, o massacre foi desencadeado . Segundo testemunhas, as vítimas não pertenciam à comunidade, mas estavam visitando naquele dia. Cerca de uma semana depois, o Exército e o Corpo Técnico de Investigações do Ministério Público chegaram para recolher os corpos. Esta instituição foi consultada sobre o andamento da investigação, mas não houve resposta até a data da publicação.

A volta da coca

Sob uma maloca, a grande cabana cerimonial, a poucos metros do rio Putumayo, é servida uma sopa com peixe, milho e caldo de mandioca brava. Os moradores se alimentam com o pouco que cultivam, mas a maioria dos empreendimentos agrícolas não é lucrativa: a distância até os centros comerciais é longa e o custo do transporte é muito alto. “Se todos plantamos mandioca, ninguém compra”, explica uma mulher da comunidade.

Os 1.610 quilômetros do rio Putumayo, desde o nó de Pastos na Colômbia até sua confluência com o rio Amazonas, estão repletos de histórias cruéis. Ali os povos Inga, Murui, Bora, Kichwa, Ticuna, Yagua, Secoya e Ocaina sobreviveram à exploração e matança para a extração de recursos naturais. O negócio do quinino foi seguido pelo boom da borracha . Estima-se que 80% dos Murui, também conhecidos como Huitotos, morreram por causa dos abusos dos seringueiros: entre 30 e 40 mil indígenas, segundo o pesquisador Pedro Mayor.Consequências semelhantes foram denunciadas por outras cidades da bacia do Putumayo. Muito antes da corrida da borracha, a extração de ouro também foi relatada. Mas o boom mais recente veio com a coca, um arbusto que também trouxe violência e desmatamento.

Historicamente, tem sido quase impossível desenvolver economias formais ao longo do rio. Os ciclos de expansão vêm e vão, e agora a coca é o produto dominante na região. “A coca para o camponês e para muitas comunidades se tornou um governo. É eletricidade, educação, moradia, alimentação e transporte”, explica uma liderança indígena de Puerto Leguízamo, um dos núcleos urbanos do departamento, município ao qual pertence Bellavista.

A vantagem da coca é que os compradores a pegam nas margens dos rios e pagam à vista. “Se você pegar 100 gramas de coca [pasta base] e vender, já fez para a consignação”, diz um raspachin morador de Bellavista. As colheitas de alimentos são para alimentar a comunidade, mas não fornecem o suficiente para comprar outros produtos. “A banana não serve para celular”, ri uma mulher.

A Coca mantém a economia local funcionando, mas também patrocina a guerra. “O cultivo, produção e venda de drogas ilícitas têm atravessado, alimentado e financiado o conflito interno”, refere-se no texto final do Acordo de Paz de 2016.

Um dos componentes mais importantes da paz na Colômbia é a reforma rural e o compromisso de mudar os motores do conflito interno: a pobreza e a desigualdade. Para trabalhar a questão das drogas, foi elaborado um plano de substituição de cultivos com uma ressalva: a erradicação forçada pode ser aplicada como último recurso. Com o Programa Nacional de Substituição Integral (PNIS) foram criados diferentes incentivos para os cocaleiros erradicarem suas matas.

No entanto, o PNIS tem sido subfinanciado desde a sua criação. “Não é que gostemos de plantar coca, mas nos sentimos compelidos porque não há outro jeito”, diz um cocalero que ingressou no PNIS em Puerto Leguízamo, mas voltou a cultivar quando seus pagamentos falharam.

Na sub-região de Caquetá-Putumayo, os hectares com coca aumentaram 45% em 2021 em relação a 2020 . Segundo o Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC), em Puerto Leguízamo havia 1.025 famílias cadastradas no PNIS, e 831 ainda estavam ativas no programa em 31 de julho de 2022.

Outras famílias que erradicaram as lavouras não foram incluídas no programa e os pagamentos chegaram atrasados ​​ou não chegaram para aqueles que foram incluídos. Enquanto isso, a erradicação manual forçada nunca parou, o que causou sérios atritos nos territórios durante os governos de Juan Manuel Santos (2010-2018). Posteriormente, o governo de Iván Duque (2018-2022) aumentou as metas anuais de erradicação, estratégia incentivada pelo governo de Donald Trump.

Embora fossem evidentes as consequências da hesitante implementação do Acordo de Paz, para a população cocaleira do Putumayo a dinâmica do conflito foi reconfigurada.

Grupos armados ressurgem

“Vivemos em três anos o que não vivemos em 50 anos de guerra”, diz uma liderança indígena de Puerto Leguízamo, com a bochecha cheia de mambe e tabaco líquido (ambil) na ponta do dedo. A coca sempre foi cultivada pelos povos indígenas da região. Eles usam para mambeo , uma prática tradicional de consumir a folha seca, transformada em pó e misturada com cinzas. A coca e o tabaco, duas plantas sagradas, são consumidas ritualmente para pensar, falar e analisar, mas também como proteção espiritual.

Somente no Putumayo, 15 massacres foram documentados desde o início de 2020, dos quais sete ocorreram em Puerto Leguízamo. Os perpetradores são vários: grupos criminosos, que continuam se autodenominando guerrilheiros; e o próprio Exército, como ocorreu em Alto Remanso em abril de 2022. Diferentes etnias e camponeses denunciam que muitos homicídios seletivos, desaparecimentos e chacinas não foram registrados.

Antes do Acordo de Paz, as Frentes 48, 15 e 32 das antigas FARC controlavam o Putumayo e o departamento vizinho de Caquetá. Após o desarmamento, por alguns anos com poucos incidentes e presença armada esporádica, novas estruturas se formaram na selva, e as comunidades passaram a receber as primeiras visitas e incursões de pessoas armadas em 2019.

Por um lado, a Frente Carolina Ramírez, comandada pelo vulgo ‘Danilo Alvizú’ e parte da franquia comandada por ‘Iván Mordisco’, cresceu rapidamente, recrutando novos combatentes e ocupando mais território, principalmente durante a pandemia. O grupo se autodenomina guerrilheiro, se dedica ao tráfico de drogas e arrecadação de cotas de plantadores de coca, fazendeiros e garimpeiros. Eles são mantidos principalmente ao longo do rio Caquetá.

Mais ao sul, ao longo do Rio Putumayo, estão os Comandos de Fronteira, nascidos como um grupo de ex-combatentes das FARC que pertenciam principalmente à Frente 48, com acréscimos de estruturas criminosas locais, como desmobilizados das Autodefesas Unidas da Colômbia ( AUC), agrupados em “La Constru”. Fontes ligadas às plantações de coca no Peru confirmam que os Comandos de Fronteira também estão presentes do lado peruano. Mario Pazmiño, analista de segurança e ex-diretor de inteligência do Equador, afirma que os Comandos de Fronteira estão naquele país há alguns anos. No início faziam pequenas incursões, mas agora têm presença permanente na zona fronteiriça com a Colômbia e o Peru.

Antes, os Comandos da Fronteira eram conhecidos como “La Mafia” ou “Sinaloa”, mas quando se autodenominaram Comandos Bolivarianos da Fronteira se dedicaram quase que exclusivamente ao narcotráfico e buscaram uma aliança com outra franquia dissidente das FARC: a Segunda Marquetalia, comandada por ‘Iván Márquez’, ex-negociador-chefe do Acordo de Paz.

Em Puerto Leguízamo, os dois grupos lutam entre os rios Caquetá e Putumayo. Os moradores costumam ouvir os tiroteios. O medo se instala na população quando as comissões armadas atravessam o rio, e as comunidades não sabem se vão desembarcar ou seguir viagem.

“Nesta casa não podem viver dois”, diz uma liderança indígena do rio Caquetá. Não se trata apenas de uma disputa por territórios de cultivo de coca, seus derivados e trânsito para compradores no Equador e no Brasil; mas também pelo controle social das comunidades e pela legitimidade política que buscam. Ambos os grupos armados estão conversando com o governo Petro para participar da ‘Paz Total’ enquanto continuam suas guerras.

Coca e desmatamento: os impactos chegam ao Peru

“Sempre houve colheitas. O que vai viver se ninguém compra nada. Os colochos [colombianos] vêm , pagam bem e não se espera fome”, diz uma liderança indígena do Putumayo, no Peru, que prefere não ser identificado. Ele garante que os grupos lutam do lado colombiano, não do outro lado da fronteira. Em 2019 e 2020, ele lembra que vários colombianos apareceram mortos no Peru, talvez por acerto de contas.

A produção de pasta base está enraizada há décadas na região. Um relatório do Congresso peruano de 2003 já se referia à “fronteira da coca”, e apontava o Putumayo como uma das áreas de expansão dessa cultura desde 1990, embora as lavouras já existissem desde 1984. Em 2021, o Putumayo peruano registrou uma Aumento de 37% nas áreas cultivadas: de 1.597 hectares em 2020 para 2.193, segundo dados da Comissão Nacional para o Desenvolvimento e Vida sem Drogas (DEVIDA). Mesmo com este aumento, segundo esta fonte oficial, o Putumayo representa pouco mais de 2,7% das áreas plantadas de coca no Peru.

“Os negócios ficaram selvagens na minha terra. Entre os paramilitares e a fumigação, o que poderia ser feito. Então, com minha mãe viemos para o Peru. Você faz seus negócios, você conversa, não mexe com ninguém. Se houver algum problema, ele sabe a quem reclamar”, diz Gustavito*, um colombiano que mora há 20 anos em El Estrecho, capital da província peruana de Putumayo, ponto de passagem para todos os negócios legais e ilegais. Gustavito chegou de La Chorrera, na Colômbia, no final dos anos 90. A maioria dos negócios em El Estrecho são colombianos. Ainda assim, todos reclamam da falta de trabalho e da miséria da cidade.

O consumo de cerveja e as acomodações são propriedade principalmente de colombianos que se estabeleceram em solo peruano. Todos eles afirmam ser comerciantes e formam uma comunidade unida. Para eles, El Estrecho é uma cidade tranquila, ideal para descansar. Os indígenas que moram no povoado não param de vê-los com desconfiança, mas as perguntas sobre El Estrecho sempre têm a mesma resposta. “Tudo está sempre quieto aqui”, repetem.

Mas entrando em confiança a realidade é conhecida. “Os dissidentes (das Farc), os Sinaloas, eles vêm todas as noites. Consumir, dançar, procurar as meninas. A Polícia e a Marinha sabem, mas não querem interferir”, diz Allison*, sentada em sua pequena barraca de comida. Os nomes desses visitantes são confusos para muitas pessoas. Ninguém quer perguntas no Estreito.

“Abrir um bar aqui seria um bom negócio”, diz Gustavito. O consumo calculado de cerveja colombiana em El Estrecho, povoado que afirma viver na miséria, supera os 480 mil soles mensais, cerca de US$ 125 mil. Os negócios são sustentados pelas compras dos visitantes, que por sua vez lucram com a pobreza do povo, a poluição da mineração e o desmatamento.

O impacto da exploração madeireira no Putumayo peruano, segundo o portal oficial GeoBosques, foi de 16.061 hectares nos últimos 21 anos. Desde 2016, quando foi assinado o Acordo de Paz na Colômbia, o desmatamento começou a disparar no lado peruano.

O Sistema de Informação de Combate às Drogas (SISCOD), que faz parte do DEVIDA, informa a evolução do narcotráfico na área, que coincide com o crescimento do desmatamento no lado peruano. A expansão dos cultivos está relacionada ao desmatamento e ao aumento dos cultivos no Putumayo daquele país. O Observatório Peruano de Drogas mostra a mesma informação.

Uma substituição falhada

À medida que crescia a decepção com os projetos do PNIS na Colômbia, muitos agricultores locais se depararam com a realidade: a coca é a única economia viável na região. Em 2016, o Putumayo colombiano tinha 25.162 hectares; em 2021, foram 28.205 medidas no departamento. Mas as lavouras não cresceram apenas do lado colombiano. É precisamente na Amazônia peruana que o cultivo de coca e o desmatamento aumentaram desde a assinatura da paz na Colômbia. Vários cocaleiros que participaram do PNIS plantaram novamente no lado peruano dos rios fronteiriços.

“As plantações de coca no Peru são grandes pra caralho”, diz um Caqueteño, dono de uma plantação de coca e ex-soldado do exército colombiano. Antes da pandemia, ele comprou 10 hectares na margem peruana do rio Putumayo para plantar coca no mercado negro de terras, e agora está vendendo por 100 milhões.

Um representante da COCCAM, Coordenação Nacional de Cultivadores de Coca, Papoula e Maconha, que vivia em Puerto Leguízamo, foi deslocado após várias ameaças e um ataque. Como signatário do PNIS, não recebeu os incentivos prometidos após a erradicação de seus quatro hectares de coca. “Esta foi uma violação completa”, disse ele. Muitos dos outros signatários do PNIS em Puerto Leguízamo atravessaram o rio. “A questão do Peru é que em grande parte faz fronteira com o nosso país, principalmente na fronteira com [Puerto] Leguízamo, e aí a questão do exército e da ordem pública se presta mais para trabalhar com esses cultivos”, explica.

“A área é muito tranquila para eles”, disse um funcionário de Puerto Leguízamo. “A lei peruana não os persegue.” A região do Alto Putumayo, no Peru, é menos povoada e há menos controle por parte das autoridades. No Putumayo colombiano, 16.190 hectares de plantações de coca foram erradicados entre 2016 e dezembro de 2022, segundo dados fornecidos pela Brigada da Selva Nº 27.

Com o aumento das lavouras, parte dos Comandos de Fronteira também migrou para o outro lado. O grupo encorajou os cocaleiros colombianos a aumentar suas fazendas no Peru. Segundo o representante do COCCAM, o aumento da coca no Peru durante a expansão dos grupos armados colombianos pela fronteira não é uma coincidência. “Grupos ilegais se aproveitam de famílias que não têm meios de subsistência (…) Levam para plantar lá”, diz.

Membros das comunidades indígenas do Peru também foram atraídos pela economia da coca. Alguns professores peruanos dizem que os alunos saem da escola para trabalhar com a folha. “Depois voltam com telemóveis, embriagam-se e alguns já estão viciados, porque parece que também lhes dão droga (…). Você os vê como loucos procurando aquela coisa suja ”.

“Condenamos os ilegais, mas o que podemos fazer quando os irmãos já se comprometeram com os criminosos”, diz um líder indígena na Amazônia peruana. “Os mais novos querem entrar no negócio. Eles os puxam para raspachines, para trabalhar com madeira. Dizem que ganham um bom dinheiro, mas alguns vão embora e não voltam mais”, diz outra liderança local.

Os cocaleros, em sua maioria colombianos, usam o Comando de Fronteira como um banco que concede empréstimos e os chamam de “a empresa”. “Eu te dou cinco milhões, e quando você começar a produzir esses cinco milhões de pesos, você vai me pagar em pasta de coca. Muitas vezes é assim que o negócio funciona”, diz um raspachín de Puerto Leguízamo.

Na área de Pacora, campo de atuação dos Comandos de Fronteira no Peru, houve um grande crescimento no plantio. “Essa é a área onde há maior quantidade de cultivos ilícitos”, diz o raspachín de Puerto Leguízamo. “Em Pacora é fácil subornar as autoridades indígenas e as forças públicas peruanas”, acrescenta uma liderança indígena colombiana.

Dados oficiais do Peru mostram quanto da produção de coca no Putumayo agora vem de territórios comunais. Há algum tempo as estatísticas do narcotráfico no Peru são questionadas; e uma comissão especial do Congresso foi criada para encontrar os números verdadeiros, mas os dados disponíveis são bastante rígidos.

os especialistas falam

O “efeito balão”, o deslocamento de plantações, às vezes além-fronteiras como consequência da conjuntura política, não é novidade, segundo Pedro Arenas, pesquisador da Corporación Viso Mutop, organização que monitora políticas de drogas para a Amazônia. “Está registrado desde os anos 1990. As colheitas foram ou voltaram, dependendo das políticas de perseguição de cada país”, comenta sobre o caso colombiano-peruano.

Para reformar as políticas de drogas em nível regional, a abordagem ambiental é essencial, segundo o pesquisador. Arenas diz que uma das plataformas pode ser o Parlamento da Amazônia, instância que reúne Colômbia, Peru, Bolívia, Brasil e Venezuela. Quando se trata dos Estados Unidos, diz ele, eles militarizaram a agenda ambiental. “O que acreditamos é que os Estados Unidos devem apoiar novas leis sobre drogas nas Américas com base nos direitos humanos, no acesso à saúde e na promoção do desenvolvimento”, opina.

No Peru, Rubén Vargas, analista especialista em narcotráfico e ex-diretor executivo da DEVIDA, afirma que o crescimento do narcotráfico no Putumayo se deve principalmente a fatores exógenos. “O crescimento dos grupos armados organizados residuais, as antigas FARC e seu controle daquela zona fronteiriça, bem como a enorme demanda do mercado brasileiro, são os principais fatores que determinam o crescimento do narcotráfico no Putumayo. As distâncias e os desafios operacionais para erradicar nessa área dificultam a atuação do Estado”, aponta.

Por sua vez, Álvaro Pastor, pesquisador do narcotráfico da Pontifícia Universidade Católica do Peru, aponta o óbvio: “Para que existam atividades ilegais, como o narcotráfico, é necessária uma conexão mínima com atores estatais”.

Em pleno Natal de 2022, um ano após o massacre de Bellavista, a justiça não foi feita e o perigo continua. No final de agosto, a comunidade foi ameaçada de deslocamento coletivo pela iminência de confrontos entre a Frente Carolina Ramírez e os Comandos de Fronteira. Então deixaram um bilhete na comunidade: “Informamos que, como comunidade, vocês devem desocupar o território por no máximo oito dias. Para o seu bem (sic)”.

A comunidade não se manifestou, mas sabe que está correndo riscos. “Esse é o medo que temos, que de repente esse grupo volte a invadir e a gente volte a viver o que a gente viveu”, diz um indígena. Enquanto isso, em El Estrecho, as respostas cotidianas das pessoas não mudam: “Aqui está tudo tranquilo”, dizem. Mas o silêncio, o medo e a necessidade falam por si.

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Estudo aponta queda de 77% na densidade de fêmeas de onça-pintada na Amazônia

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Um estudo publicado no Journal of Applied Ecology revelou que a densidade de fêmeas de onça-pintada caiu 77% entre 2005 e 2022 na Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, no Amazonas, uma das áreas com maior concentração do felino no mundo. A redução ocorreu ao mesmo tempo em que aumentou a presença de machos, mudança que pode comprometer a reprodução e a estabilidade da população no longo prazo.

A pesquisa acompanhou as onças durante 17 anos, no monitoramento populacional mais longo já realizado com a espécie. Ao todo, foram feitas 14 campanhas com armadilhas fotográficas durante a estação seca, somando 38.528 noites de observação.

As câmeras registraram 410 imagens e permitiram identificar 77 animais, entre 29 fêmeas e 40 machos. Nenhum filhote apareceu nos registros e apenas dois indivíduos juvenis foram fotografados ao longo de todo o período, resultado que aumenta a preocupação com a renovação da população.

A densidade de fêmeas caiu de 10,32 para 2,39 animais por 100 quilômetros quadrados. No mesmo intervalo, a densidade de machos cresceu 59%, de 3,81 para 6,07 indivíduos por 100 quilômetros quadrados. A população total estimada recuou de 14,13 para 8,47 onças na mesma extensão territorial.

A taxa anual de sobrevivência permaneceu em 76%, sem diferença entre machos e fêmeas. A entrada de novas fêmeas na população, porém, ficou abaixo da registrada entre os machos. A taxa foi de 0,15 por indivíduo entre elas e de 0,26 entre eles.

O aumento da presença masculina pode ter mascarado a perda de fêmeas residentes. Como os machos percorrem distâncias maiores, a chegada constante de novos animais mantém a densidade geral elevada, mesmo quando diminui o número de fêmeas responsáveis pela reprodução e pelos cuidados com os filhotes.

Uma das hipóteses levantadas pelos pesquisadores envolve a caça direcionada principalmente aos machos. A retirada desses animais pode abrir espaço para a entrada de outros indivíduos, que eventualmente matam filhotes que não são seus para antecipar o retorno das fêmeas ao período reprodutivo. O comportamento é conhecido como infanticídio, mas não foi medido diretamente em Mamirauá e ainda depende de novas investigações.

A pressão da caça pode ser maior durante as cheias, quando a navegação facilita o acesso à floresta e as onças passam mais tempo sobre as árvores para escapar das áreas alagadas. O levantamento reuniu registros de 23 animais caçados em 13 anos, número que pode ser inferior ao total real.

A ausência de filhotes nas imagens também pode estar relacionada ao envelhecimento das fêmeas. Animais mais velhos costumam ter menor sucesso reprodutivo, enquanto a permanência de filhas adultas na mesma região pode reduzir o espaço disponível para cada fêmea.

As oscilações anuais no nível dos rios não tiveram efeito direto comprovado sobre a sobrevivência ou a entrada de novos animais. Os pesquisadores alertam, porém, que a reprodução das onças ocorre lentamente e que os impactos de secas e cheias extremas podem aparecer apenas depois de vários anos.

Mamirauá possui cerca de 1,1 milhão de hectares de floresta de várzea e fica na região dos rios Japurá e Solimões. Mesmo com a mudança demográfica, a reserva ainda mantém uma das maiores densidades de onças-pintadas já registradas, comparável às populações encontradas no Pantanal e nos Llanos.

A alta concentração, no entanto, não garante a estabilidade da espécie. A proteção das fêmeas reprodutivas, o controle da caça, o acompanhamento dos filhotes e a continuidade do monitoramento são medidas necessárias para evitar que a redução avance sem ser percebida em levantamentos baseados apenas no número total de animais.

Fontes: O Eco; Journal of Applied Ecology – Foto: GP Felinos/Instituto Mamirauá

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MPF cobra fiscalização mais rígida da Marinha contra garimpo ilegal na Amazônia

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O Ministério Público Federal recomendou nesta terça-feira (21) aos comandos da Marinha na Amazônia Ocidental e Oriental o endurecimento da fiscalização sobre dragas, balsas e outras embarcações usadas no garimpo ilegal. As medidas abrangem os nove estados da Amazônia Legal e tentam impedir que estruturas clandestinas obtenham registro marítimo e sejam usadas na extração de minérios sem licença ambiental.

A Marinha terá prazo de 60 dias para iniciar as providências. A recomendação vale para Acre, Amapá, Amazonas, Maranhão, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins.

Uma das principais mudanças propostas é a exigência de licença ambiental e de título de mineração emitido pela Agência Nacional de Mineração antes da autorização para operar embarcações destinadas à extração mineral. Atualmente, o registro inicial na autoridade marítima pode ser feito sem a apresentação desses documentos.

A brecha permite que dragas e balsas sejam registradas e adquiram aparência de regularidade, mesmo quando empregadas na mineração clandestina. Algumas embarcações também voltam aos rios depois de operações contra crimes ambientais.

A recomendação prevê ainda a criação de um procedimento administrativo para o uso de provas indiretas na aplicação de multas e outras sanções. Fotografias, vídeos, relatórios de inteligência e informações de localização por satélite poderão sustentar processos mesmo quando as embarcações ou os equipamentos forem destruídos durante as operações.

A medida tenta evitar o arquivamento de casos por falta do maquinário apreendido. Em ações contra o garimpo, dragas e balsas podem ser inutilizadas no próprio local, o que dificulta a continuidade dos processos administrativos contra os responsáveis.

O MPF também quer fiscalizações preventivas em oficinas e estaleiros instalados nas margens dos rios. A proposta é identificar e embargar embarcações clandestinas ainda durante a construção ou reforma, antes que sejam lançadas na água.

Outra medida envolve estudos para tornar obrigatório o uso de rastreadores por satélite em todas as dragas que operam na Amazônia Legal. O monitoramento permitiria acompanhar os deslocamentos em tempo real e identificar entradas em áreas sem autorização, incluindo terras indígenas.

Os dados poderão ser cruzados com informações do Sistema de Proteção da Amazônia para localizar embarcações que desligam intencionalmente os equipamentos de rastreamento ao se aproximarem de áreas de garimpo.

A recomendação foi elaborada pelo 2º Ofício da Amazônia Ocidental, responsável por ações contra a mineração ilegal no Acre, Amazonas, Rondônia e Roraima. O avanço do garimpo nos rios amazônicos está associado à degradação ambiental, a violações de direitos humanos e à contaminação de comunidades e ecossistemas por mercúrio.

Fonte: Ministério Público Federal – Foto: Agência Brasil

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Branqueamento de corais mata 88% em Maragogi e expõe crise no litoral brasileiro

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Em Maragogi, no litoral de Alagoas, o calor atravessou a superfície do mar e atingiu um dos ecossistemas mais importantes do país. Entre janeiro e junho de 2024, 96% dos corais acompanhados por pesquisadores perderam a cor e 88% morreram. O desastre ocorreu durante o quarto evento global de branqueamento, provocado pela permanência da água em temperaturas acima do limite suportado pelos organismos. O dano não termina no fundo do oceano: alcança a pesca, o turismo, a alimentação das comunidades costeiras e a proteção das praias contra a força das ondas.

Debaixo d’água, o branqueamento começa com o rompimento de uma relação que mantém o coral vivo. O calor prolongado leva o organismo a expulsar as algas microscópicas que vivem em seus tecidos e fornecem grande parte da energia necessária à sua sobrevivência. Sem essas algas, a estrutura perde a coloração, enfraquece e passa a consumir as próprias reservas. Um coral branqueado ainda pode se recuperar caso a temperatura caia rapidamente. Quando o estresse continua ou retorna em intervalos curtos, a morte passa a ocupar o lugar onde antes havia abrigo, alimento e reprodução para outras espécies.

A dimensão do que aconteceu em Maragogi apareceu dentro do mais amplo levantamento já realizado sobre o branqueamento de corais no Brasil. Pesquisadores acompanharam 18 recifes distribuídos por nove estados, do Ceará a Santa Catarina, em uma faixa superior a quatro mil quilômetros entre a costa e ilhas oceânicas. Ao todo, 36% dos corais avaliados sofreram branqueamento. O trabalho reuniu o Instituto Coral Vivo, órgãos ambientais e 20 instituições brasileiras e estrangeiras, com métodos padronizados que permitiram comparar regiões submetidas a diferentes intensidades de calor.

O mapa brasileiro foi dividido pelo tempo de exposição. Em Caucaia, no Ceará, os recifes permaneceram 147 dias sob temperaturas anormais e acumularam 21,3 graus Celsius-semana, medida usada para calcular a intensidade e a duração do estresse térmico. Rio Grande do Norte, Pernambuco e Alagoas também passaram de 20 graus Celsius-semana e enfrentaram mais de quatro meses de calor excessivo. A média nacional chegou a 88 dias. No Rio de Janeiro e em São Paulo, o período ficou abaixo de dois meses e não houve perda de cobertura coralínea durante o levantamento.

A diferença entre os extremos ajuda a compreender por que o norte do Nordeste concentrou a maior mortalidade. A Costa dos Corais, unidade de conservação que se estende entre Pernambuco e Alagoas, sofreu o impacto mais severo. A Bahia e a parte central do litoral tiveram danos intermediários. O Sul e o Sudeste resistiram melhor naquele episódio, mas essa resistência não autoriza tranquilidade. Nessas regiões, a diversidade natural de corais já é menor, enquanto novas ondas de calor podem alcançar organismos que escaparam do evento anterior.

Duas espécies essenciais para a arquitetura dos recifes estiveram entre as maiores vítimas. O coral-de-fogo perdeu 54% de sua cobertura. O coral-vela, encontrado apenas em águas brasileiras e ameaçado de extinção, sofreu uma redução de 28%. São organismos que dão volume e complexidade ao recife. Nas cavidades formadas por suas estruturas, peixes encontram refúgio, pequenos animais se reproduzem e cadeias alimentares inteiras ganham sustentação. Quando essas espécies desaparecem, não morre apenas uma colônia. O recife perde parte da forma que permitia a existência de outras vidas.

Os números brasileiros fazem parte de uma crise planetária. A Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos, a NOAA, calculou que o estresse térmico capaz de provocar branqueamento alcançou 84% das áreas de recifes do mundo entre o início de 2023 e meados de 2025. O fenômeno atingiu pelo menos 83 países e territórios nos oceanos Atlântico, Pacífico e Índico. Em junho de 2026, a agência considerou que o quarto evento global provavelmente havia terminado em meados de 2025, mas deixou um aviso mais grave: os recifes entraram em uma época na qual o branqueamento poderá ocorrer quase todos os anos.

O encerramento formal de um evento global não devolve aos recifes o que foi perdido. Corais crescem lentamente, e a recuperação de uma estrutura destruída pode levar décadas. Antes que uma colônia consiga se recompor, uma nova onda de calor pode atingir a mesma área. A repetição encurta o intervalo disponível para reprodução, crescimento e renovação. O oceano permanece mais quente do que estava entre 25 e 30 anos atrás, quando ocorreu o primeiro branqueamento global registrado.

A crise também desmonta a ideia de que o oceano é um território distante, separado da rotina das cidades. Ele absorve aproximadamente 30% do dióxido de carbono liberado pelas atividades humanas, reduzindo a parcela que permanece na atmosfera. Esse serviço tem um preço: a água fica mais ácida, sua composição química muda e organismos que constroem esqueletos e conchas de carbonato de cálcio encontram condições cada vez mais difíceis para crescer. O aquecimento, a acidificação e a perda de oxigênio atuam ao mesmo tempo sobre ecossistemas já pressionados pela pesca excessiva, pela poluição e pela destruição de habitats costeiros.

Os recifes ocupam menos de 1% do fundo oceânico, mas abrigam aproximadamente um quarto da biodiversidade marinha conhecida. Funcionam como berçários, áreas de alimentação e refúgio para milhares de espécies. Também reduzem a energia das ondas antes que elas alcancem as praias, sustentam atividades pesqueiras e movimentam economias ligadas ao turismo. Em regiões como Abrolhos, no sul da Bahia, a formação recifal reúne espécies encontradas somente no Brasil e ocupa posição estratégica para a conservação do Atlântico Sul.

É nesse ponto que o coral morto deixa de ser apenas uma perda ambiental. Uma estrutura recifal degradada abriga menos peixes, oferece menor proteção ao litoral e perde capacidade de atrair visitantes. A queda da pesca pode alcançar famílias que dependem da captura diária para comer ou vender. A retração do turismo pode atingir barqueiros, guias, pousadas, restaurantes e vendedores que vivem da circulação de pessoas nas praias. A perda da barreira natural aumenta a exposição de casas, ruas e equipamentos públicos à erosão e às tempestades. O levantamento ecológico não calcula sozinho todo esse prejuízo econômico, mas delimita o tamanho da ameaça sobre atividades construídas ao redor dos recifes.

A oceanógrafa Flávia Guebert, diretora do Projeto Coral Vivo, resume o impasse em uma frase: “a ciência, sozinha, não é suficiente”. O conhecimento produzido nos mergulhos, laboratórios e imagens de satélite precisa chegar ao orçamento público, ao planejamento urbano, ao tratamento de esgoto, à fiscalização do turismo, ao controle da poluição e às políticas de redução das emissões. Sem essa passagem, o monitoramento registra a morte com precisão, mas não impede que o próximo verão repita o desastre.

A responsabilidade também alcança quem vive longe do litoral. No Acre, onde o mar parece uma realidade remota, a saúde do oceano interfere na regulação do clima que sustenta chuvas, rios, florestas e produção de alimentos. As emissões liberadas pelo uso de combustíveis fósseis e pela destruição da vegetação não respeitam fronteiras estaduais. O carbono lançado na atmosfera contribui para o aquecimento global; parte dele termina absorvida pelo oceano, alterando a temperatura e a química da água. A distância entre Rio Branco e os recifes do Nordeste não rompe essa ligação.

A resposta brasileira começou a ganhar recursos, embora o tamanho da crise exija continuidade. Em maio de 2026, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social aprovou R$ 6,6 milhões em recursos não reembolsáveis para o Coral Vivo Regenera, projeto com investimento total de R$ 14 milhões. As ações previstas alcançam nove unidades de conservação e áreas prioritárias entre a Bahia e o Ceará, incluindo Abrolhos, Fernando de Noronha e a Costa dos Corais. O programa reúne monitoramento, regeneração de corais, educação ambiental, turismo sustentável e alternativas de renda para comunidades tradicionais.

A restauração, porém, não substitui o combate às causas do aquecimento. Técnicas de cultivo e reintrodução podem ajudar populações atingidas, preservar diversidade genética e localizar organismos mais resistentes. Nenhum laboratório consegue reconstruir na velocidade necessária milhares de quilômetros de recifes submetidos continuamente a temperaturas extremas. Sem redução das emissões, saneamento, controle da ocupação costeira e proteção das unidades de conservação, projetos locais correm o risco de trabalhar contra uma corrente cada vez mais quente.

O pesquisador Miguel Mies, coordenador de pesquisa do Projeto Coral Vivo, afirma que o país se preparou depois da mortalidade registrada em 2019. Quando o calor retornou em 2024, a rede estava pronta para acompanhar o impacto em tempo real. O avanço permitiu saber onde os corais morreram, quais espécies sofreram mais e quais áreas resistiram. Também expôs uma pergunta que não pode permanecer no fundo do mar: o que o poder público fará antes da próxima onda de calor?

Em Maragogi, a resposta já não pode ser medida apenas pela beleza perdida. De cada cem corais acompanhados, 88 morreram. O vazio deixado por eles começa embaixo d’água, mas sobe até a praia, alcança a rede do pescador, o trabalho de quem recebe turistas, a casa protegida pelas formações recifais e a comida servida à mesa. O coral branco é o retrato visível de um oceano levado ao limite. Quando sua cor desaparece, o país recebe um aviso sobre o futuro das pessoas que dependem dele — inclusive aquelas que nunca viram o mar.

Fonte: O Eco – Foto: Agência Brasil

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