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Ensaio fotográfico: Dr. da Borracha – um seringueiro e sua arte
“Meu sonho sempre foi viver da floresta em pé. Hoje, realizo isso com meu artesanato” – Dr. da Borracha.
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1 ano agoon
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redação Pop
O ensaio fotográfico realizado pelo jornalista e fotógrafo Arison Jardim nos convida a um mergulho na vida e na essência de José Rodrigues de Araújo, o Dr. da Borracha. Filho e neto de seringueiros, José é a personificação da resistência e da reinvenção do extrativismo na Amazônia. Em sua trajetória, ele transformou o látex da floresta em arte, criando peças que conectam a tradição do seringal ao futuro sustentável.
As imagens capturam a simbiose entre homem e natureza. Da coleta de látex ao manuseio cuidadoso de suas criações, o Dr. da Borracha exibe não apenas habilidade, mas um profundo respeito pela floresta e sua cultura. Cada fotografia é uma janela para o universo de um homem que mantém viva a memória de gerações de seringueiros.




“Eu nunca quis morar na cidade, porque sempre gostei da floresta”, afirma José. Em sua fala, transparece o orgulho de viver do que a floresta oferece, sem destruí-la. Seu trabalho é mais do que arte – é um manifesto pela preservação e valorização da cultura seringueira.



O ensaio narra, em luz e sombra, a história de um homem que encontrou na seringueira sua sobrevivência e a realização de um sonho – viver da floresta em pé.
Fotos: Arison Jardim
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Especiais
A omissão da sociedade alimenta o feminicídio
Published
1 semana agoon
08/03/2026By
Redação
A omissão da sociedade alimenta o feminicídio e a voz das sobreviventes exige mudanças
Por Arison Jardim
O trabalho realizado durante a produção, gravação e edição do documentário Vozes do Silêncio ecoa na memória, como as águas de um rio que insistem, constante e sempre, em escavar suas margens e derrubar barrancos. Ouvir e ler relatos tão duros de vítimas de um ódio visceral, que domina nossa sociedade como uma praga silenciosa, nos faz perder a esperança. Ver os números, as estatísticas frias e os casos brutais, que só aumentam, reforçam esse sentimento de desamparo.
Confesso que ver a Medusa falar, e declamar, de como a arte ajuda a mudar sua vida faz voltar a iluminar alguns raios, rompendo a copa densa dessa angústia. Não só com sua arte, quem a acompanha vê sua força e determinação diariamente, em todas as frentes que encara. E esse pingo de luz ainda nos faz querer enfrentar sempre a violência que nos cerca.
Nessa reportagem, trazemos uma discussão que considero importante para contribuir nessa batalha constante que é ter vidas salvas, mentes sãs, almas em paz e o respeito com quem faz a história desse país. O objetivo final é: mostrar os números alarmantes, buscar explicar essa gênese do horror com quem estuda e explica as várias realidades e, no final, tentar ter um pouco mais de fôlego, chamando o máximo de leitores para a reflexão. Fica o alerta de gatilho, alguns trechos podem ser fortemente sensíveis para o leitor e leitora.
A Amazônia que Sangra: O Peso do Número
Essa nossa realidade amazônica, quando despida do verniz de suas belezas naturais e do folclore verde, expõe feridas profundas que escorrem e se traduzem em estatísticas cruéis. Conforme a pesquisa do Instituto Igarapé, enquanto o Brasil registrou um crescimento de 12% nos casos de feminicídio nos últimos cinco anos, a Amazônia Legal sofreu um aumento drástico e sangrento de 22%. Na mesma esteira de insegurança, o relatório DataSenado de 2023 revela o pulso do medo local: no Acre, 78% da população feminina afirma que a violência doméstica e familiar contra as mulheres aumentou nos últimos doze meses.
Esses números não são apenas papel; eles ganham nomes, feições, histórias e fins trágicos quando transpostos para o noticiário diário. Conforme aponta a reportagem do portal G1, o estado do Acre tem acompanhado, com pesar, seu ano mais letal desta década para as mulheres. Histórias de carne e osso, como a de Ivanilde Souza da Silva, deixam de ser meros dados matemáticos e viram um luto palpável nas varandas das nossas casas. Como relembra sua sobrinha, Elaine Thais: “Ela era uma pessoa batalhadora e sorridente, uma ótima mãe, uma pessoa maravilhosa. Onde ela chegava, cativava as pessoas”. O brilho vital de Ivanilde foi covardemente apagado por golpes desferidos pelo próprio companheiro, refletindo o desfecho extremo que espreita e ameaça dezenas de outras mulheres nos rincões do nosso estado.
Para entender a fundo a engrenagem desse terror contínuo, é preciso traduzir para o cotidiano um conceito que os pesquisadores e juristas chamam de hipervulnerabilidade. No papel das teses acadêmicas, a palavra explica a sobreposição de diferentes fragilidades sociais. Na vida real e no chão de terra batida das nossas periferias, ela significa que a mulher amazônida não enfrenta apenas o machismo. Ela é tragada por uma tempestade perfeita onde o ódio de gênero cruza diretamente com a pobreza aguda, com o isolamento geográfico e com a ausência quase total do Estado. Ser mulher, pertencer a uma classe desfavorecida e viver nas margens de um Brasil que historicamente vira as costas para o Norte cria uma teia de exclusão tão espessa que pedir ajuda se torna um ato quase inatingível. É essa hipervulnerabilidade silenciosa que amordaça a dor dentro de casa e que entrega ao agressor a certeza covarde, e quase sempre real, da impunidade.
A Gênese do Horror: Do Passado ao Presente
Desvendar a raiz turva desse ódio, é voltar os olhos para a própria formação da nossa terra e da nossa gente. O estudo publicado na Revista Extraprensa, “O Silenciamento Histórico das Mulheres da Amazônia Brasileira”, aponta que as características colonizadoras agressivas e o sistema de ocupação predatória forjaram um ambiente opressor, onde o silenciamento da mulher funcionou quase como uma política invisível de Estado. A perpetuação secular desses estereótipos históricos é o pilar estrutural apodrecido que, infelizmente, sustenta a violência até os dias de hoje.
Nesse contexto crônico de hipervulnerabilidade, a mulher amazônida foi historicamente empurrada para a margem da margem. Essa subalternidade, imposta pela poeira do tempo e enraizada no isolamento histórico dos seringais, reflete diretamente no interior abafado das casas contemporâneas. A opressão que antes se escondia na vastidão da mata, hoje ecoa nos bairros esquecidos das nossas cidades.
A poeta e ativista Medusa traz essa teoria dolorosa para o campo da vivência dura e real em seu depoimento no documentário Vozes do Silêncio:
Eu venho de uma família pobre, nascida e criada nas periferias de Rio Branco. A violência com os nossos corpos era muito normalizada. Ela é muito diária.
Com o olhar de quem presenciou a dor partilhando a mesma mesa, Medusa descreve a engrenagem machista moendo a carne de sua própria linhagem. Ela cresceu vendo a mãe e as tias serem sistematicamente agredidas, aprisionadas num labirinto de submissão invisível. Segundo a artista, o lugar imposto às mulheres de sua casa “era na cozinha”, restritas a lavar louça e roupa, destituídas de vontades próprias, pois “eram vistas somente como reprodutoras” de um sistema que lhes negava até a própria humanidade.
Essa invisibilidade forçada, transmitida como uma sina inescapável de mães para filhas nas periferias acreanas, é a exata tradução de um passado colonial que se recusa a morrer, alimentando o ciclo sombrio que só agora começa a ser desafiado.
A herança de submissão, que ecoa nas memórias de infância de Medusa e nas raízes coloniais da nossa terra, abandona o terreno das teorias quando as portas dos tribunais se abrem. O machismo estrutural que silenciou gerações deixa de ser apenas um fantasma invisível do passado para se materializar, com uma crueza insuportável, nas laudas dos processos.
Os Autos Sangram: Quando a Teoria Encontra o Tribunal
⚠️ Reforçamos aqui o alerta de gatilho!
Parte do processo de produção de nosso documentário foi fazer uma grande pesquisa e análise de depoimentos oficiais, o que conseguimos com o apoio do Poder Judiciário do Acre. Quando mergulhamos nesses densos processos judiciais, percebemos que a frieza burocrática do papel timbrado não consegue estancar o calor do sangue derramado no silêncio dos lares. Os depoimentos angustiados das vítimas e as justificações cínicas dos agressores traduzem, de forma trágica e literal, os conceitos acadêmicos de vulnerabilidade. Aqui, a dor perde o anonimato das estatísticas e ganha as feições do desespero diário.
O sentimento doentio de posse atua, quase sempre, como o rastilho de pólvora da barbárie na nossa região. A mulher, muitas vezes tratada como mera extensão da propriedade masculina, perde o direito mais sagrado: o de existir por si só. Os autos revelam feridas abertas e purulentas. É o caso da Vítima 4 (para preservar os nomes, usamos a nomenclatura de Vítima e Acusado), que viu o ex-marido ser tomado por uma fúria cega ao bisbilhotar mensagens antigas no seu celular. Sob a ponta de uma ameaça de morte que gelaria a espinha de qualquer um, foi obrigada a conduzir na contramão, desafiando os carros e a própria sorte, até ter o aparelho atirado contra o rosto, rasgando-lhe a sobrancelha num golpe de pura covardia.
A Vítima 5, por sua vez, recebeu a foto de uma arma de fogo na cintura do ex-companheiro, oprimida apenas porque ele “meteu na cabeça” que ela estaria com outra pessoa. Noutro processo sombrio, a Vítima 12 foi encurralada com uma faca e ameaçada de morte pelo ex-marido pelo simples “crime” de ter sido vista passando de carro acompanhada por outro rapaz.
Sabemos, por dolorosa experiência, que essa violência física raramente é um raio inesperado; ela é o desfecho aterrador de uma escalada de controle que começa por minar a alma, gota a gota. A Vítima 2 ilustra, com uma dor cortante, a quebra da submissão imposta pelo terror psicológico. Ela relata que o marido sempre gritava, enquanto ela “sempre se calava e pronto”, engolindo a própria voz como quem engole água barrenta para sobreviver. No dia em que reuniu a força para lhe responder e estancar o abuso, foi de imediato bombardeada com insultos — chamada de “quenga”, “puta” e “má mãe” —, um ataque moral que evoluiu, num ápice, para uma brutal sessão de enforcamento, puxões de cabelo e murros.
A Vítima 6 narra o mesmo rito macabro de aniquilação: o agressor iniciou a investida berrando “cala a boca sua merda, sua bosta, sua vagabunda” para, no segundo seguinte, passar a empurrá-la e chutá-la, como se não existisse ali um sopro de vida humana, mas apenas um obstáculo a ser varrido no seu caminho de ódio.
Esse rito de aniquilação, contudo, não se alimenta apenas do machismo herdado que permeia os autos. Onde a presença do Estado quase sempre míngua, a engrenagem do ódio encontra combustível farto e inflamável nas privações do dia a dia.
O Álcool, a Miséria e as Cinzas do Patrimônio
No duro contexto das margens amazônicas, a dependência econômica e a pobreza aguda, somadas à fuga entorpecente do álcool, atuam como catalisadores cruéis do ciclo ininterrupto de agressões. A miséria material que assombra as palafitas e as casas de madeira sem pintura torna-se cristalina, e trágica, no relato da Vítima 1. Ela foi golpeada violentamente com uma espátula, precisando levar três pontos que costuraram o couro cabeludo, mas não a dignidade. O motivo do ataque revela um cenário de desolação absoluta: a mulher ousou questionar o marido após ele ter vendido o botijão de gás — o coração pulsante daquela cozinha modesta — para comprar cachaça. O agressor, ao confessar a covardia diante da lei, lançou mão da velha desculpa esfarrapada do “desespero” e da bebedeira para tentar lavar as próprias mãos. Com uma banalidade semelhante que nos gela o estômago, o Acusado 9 tentou justificar o injustificável perante o juiz: “eu tinha chegado bebido; aí eu tava bêbado e agredi ela”, como se a garrafa fosse a verdadeira dona dos seus punhos cerrados.
Mas o terror imposto por esses homens não se contenta em ferir apenas a carne e o espírito. Quando o corpo da mulher já não basta para saciar a fúria dominadora, o agressor parte, sem o menor escrúpulo, para a aniquilação daquilo que garante a sobrevivência material da vítima. A violência patrimonial surge, então, como uma punição vil, covarde e calculada. Os autos do processo da Vítima 7 documentam essa vingança em chamas: sua casa inteira foi banhada a gasolina e incendiada após uma discussão, reduzindo a um monte de cinzas a geladeira suada de pagar, o fogão e todas as roupas de uso pessoal. O mesmo fogo criminoso e impiedoso, que não queima apenas móveis, mas transforma em fumaça a esperança de um recomeço, consumiu o colchão da Vítima 14. O ataque ocorreu no calar da noite, depois que o ex-companheiro invadiu sua residência pela janela, rasgando o que lhe restava de santuário e paz.
A Banalidade do Mal
Talvez o aspecto mais sombrio e revoltante das audiências nos tribunais seja o puro cinismo humano. A sociedade e os próprios algozes tendem a minimizar a violência sistêmica, tratando o espancamento brutal de uma mulher como um mero aborrecimento cotidiano, uma sujeira que a gente varre para debaixo do tapete. O Acusado 3, por exemplo, que invadiu a casa da ex-sogra e, num ato inominável, distribuiu socos e chutou a barriga da ex-cunhada, grávida de três meses, teve a audácia de afirmar em juízo que “só empurrou”, negando veementemente os golpes que a vítima presenciou. O Acusado 8 seguiu a mesma cartilha fétida do deboche, alegando que “não bateu”, apenas deu “uns empurrões”, optando por ignorar as marcas roxas de espancamento atestadas por laudo de corpo de delito.
Esse mesmo indivíduo (Acusado 8) escancara, sem pudor, outra tragédia que foi criminosamente normalizada na nossa região amazônica: a exploração infantil. Em seu depoimento frio, ele revelou, com a naturalidade de quem fala da chuva do dia, que foi morar com a vítima quando ela tinha apenas 13 anos de idade.
O trauma é, assim, semeado como uma praga para a próxima geração, e a tragédia frequentemente se reinicia com as dolorosas reconciliações movidas pela dependência e pelo pavor contínuo — como atestam, infelizmente, os processos da Vítima 1 e da Vítima 11, que informaram à Justiça que “se reconciliaram e hoje estão bem”, num eco que soa mais como sobrevivência do que como paz.
A Arte de Curar e a Coragem de Mudar
O ano de 2025 cravou uma ferida ainda mais funda na nossa história recente, provando que o silêncio custa caro demais. Segundo o doloroso levantamento do Feminicidômetro do Ministério Público Estadual, o Acre amargou um aumento brutal de 75% nos casos de feminicídio em relação ao ano anterior, totalizando 14 vidas ceifadas. 14 VIDAS! Retornamos, assim, ao sombrio topo do ranking nacional de letalidade para as mulheres, repetindo os picos assustadores de 2016 e 2018. Diante de estatísticas tão cruéis, que sangram nosso estado de ponta a ponta, trazer essas histórias para a superfície deixa de ser apenas um exercício jornalístico e passa a ser uma urgência de sobrevivência. É preciso iluminar os porões da nossa sociedade para conseguir enxergar e combater os perigos que ainda espreitam dentro de tantas casas.
Se a dor dessas mulheres tem raízes profundas, a cura também precisa ganhar espaço para brotar. A trajetória luminosa da pequena Cristina, a Medusa, é a prova viva e pulsante de que a denúncia e a arte são caminhos de salvação. Ao transformar o trauma herdado em poesia de combate, ela ressignificou o próprio destino e rasgou o roteiro invisível que aprisionava as mulheres de sua família por gerações. “Se eu não tivesse tido a arte, eu ia ser mais uma estatística do feminicídio”, confidencia a poeta. Assim como Medusa encontrou na força da palavra o remédio para estancar a própria dor, o compartilhamento sem amarras dessas realidades atua como o nosso antídoto coletivo contra a barbárie.
Ao expor a crueza dos autos judiciais e a lágrima das vítimas, o objetivo final nunca foi paralisar o leitor pelo medo, mas provocar o movimento.
Ao expor a crueza dos autos judiciais e a lágrima das vítimas, o objetivo final nunca foi paralisar o leitor pelo medo, mas provocar o movimento. É um chamado inegociável para que os homens encarem o espelho, repensem atitudes cristalizadas, desconstruam o machismo velado nas rodas de conversa e rompam a cumplicidade covarde diante do ciúme possessivo e dos “empurrões” alheios. A paz doméstica exige que a consciência masculina desperte.
E, acima de tudo, estas linhas são um abraço estendido para que as mulheres que ainda choram na calada da noite encontrem força para quebrar o ciclo. A arte de Medusa nos ensina que a culpa não é da vítima e que, por mais espessa que seja a escuridão, nenhuma mulher está sozinha. Dar o primeiro passo rumo à denúncia pode parecer assustador, mas é unindo essas vozes, antes silenciadas, que a nossa sociedade poderá dar o passo definitivo em direção a um futuro onde o amor não seja confundido com posse, e onde a paz deixe de ser um privilégio para ser, enfim, o nosso cotidiano.
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A fé cabocla rasga o varadouro para alcançar o sagrado; Nova Olinda, Juruá
Published
4 semanas agoon
21/02/2026By
Redação
A fé cabocla rasga o varadouro para alcançar o sagrado
A travessia de lama, suor e silêncio nas barrancas do extremo oeste acreano, onde o povo da floresta forja os seus próprios milagres.
Fevereiro de 2026
Onde o Brasil ensaia o seu fim e o Peru se anuncia, o mapa abandona as linhas retas e passa a ser desenhado pelas curvas barrentas das águas. No extremo oeste do Acre, o município de Marechal Thaumaturgo não é apenas uma fronteira geopolítica; é uma trincheira viva da Amazônia profunda. Ali, a Reserva Extrativista do Alto Juruá e as Terras Indígenas formam um cinturão humano e verde, onde a cultura da floresta dita as horas e o isolamento não decreta o fim do mundo, mas a preservação de um. É neste beiradão de Brasil, a dezenas de quilômetros do asfalto, que repousa um dos maiores monumentos da religiosidade popular amazônica: o Santuário de Nova Olinda.
Para narrar essa travessia, emprestamos os olhos, o suor e os passos de Cleudon França, jornalista e memorialista que, entre os dias 12 e 15 de fevereiro deste ano, refez o duro trajeto até as margens sagradas do Igarapé São Luís. E é pelas palavras dele que somos guiados para a crueza e a beleza desse altar a céu aberto.
A Batalha Fluvial e o Pedágio da Correnteza
A peregrinação começa muito antes de o joelho dobrar; ela se inicia na proa do batelão. Partindo da sede de Marechal Thaumaturgo, rasga-se o Rio Juruá até adentrar os braços mais estreitos do seu afluente, o Rio Caipora. A navegação logo deixa de ser deslocamento e vira um enfrentamento físico.
A água amarelada e turva denuncia onde há pedra. Nas cachoeiras rasas e lajes expostas, a embarcação verde e amarela de madeira não avança sozinha. Os motores Honda calam ou são erguidos no braço. Os homens descem. Com a água batendo na cintura e fustigando as pernas, eles cravam os pés nas pedras escorregadias do leito. O esforço estampa-se nas veias saltadas e nas roupas encharcadas coladas ao corpo, enquanto empurram a canoa contra o volume espumante da corredeira.
Mais adiante, o desafio muda de forma: uma imensa árvore caída cruza o igarapé de margem a margem, um emaranhado de galhos secos e cipós barrando a passagem. A tripulação precisa escalar o tronco dentro d’água, negociando cada centímetro com a correnteza que não cede. O avanço é medido em poucos metros. Como resume Cleudon: “A floresta impõe regras invisíveis: quem não respeita, retorna. Quem persevera, chega transformado”.
Para narrar essa travessia, emprestamos os olhos, o suor e os passos de Cleudon França, jornalista e memorialista que, entre os dias 12 e 15 de fevereiro deste ano, refez o duro trajeto até as margens sagradas do Igarapé São Luís. E é pelas palavras dele que somos guiados para a crueza e a beleza desse altar a céu aberto.
O Varadouro, o Facão e a Gênese do Mito
Onde a água desiste, as pernas assumem. Deixando os barcos para trás, o promesseiro mergulha no varadouro, engolido pela imensidão da mata. A grandeza do Juruá reduz o homem à sua verdadeira dimensão: Cleudon, vestindo branco, de terço no peito, abre os braços diante de uma samaúma colossal, e ainda assim parece minúsculo diante daquele tronco que se ergue como uma muralha de casca e musgo, adornado por uma placa rústica com os dizeres NOVOLINDA.
Nesse ambiente de sombras alongadas, ladeiras escorregadias de argila e vales onde a lama suga as botas, a caminhada exige horas a fio. “Na trilha, não existe personagem: existe cansaço real, medo real, limite real”, atesta Cleudon sobre o trecho terrestre.
Mas por que se lançar a tamanho sacrifício? A resposta ecoa do tempo em que o sangue molhava aquela mesma terra. A tradição oral ensina que três irmãos vindos do Ceará foram emboscados ali por indígenas não contatados enquanto cortavam seringa. Dois tombaram mortos, e o terceiro, ferido, enterrou-se na areia da praia fazendo uma promessa desesperada a São Francisco. Mais de uma semana depois, quando o resgate os encontrou, os corpos dos caídos estavam em perfeita conservação.
Nascia ali o milagre. Para o nosso guia, recontar esse enredo é vital: “Ser ‘voz dessa última fronteira’ é compreender que a memória não é nostalgia — é responsabilidade”.
O Altar de Terra, Cera e Retratos
“O instante da chegada ao Santuário de Nova Olinda, acontece primeiro por dentro”, descreve Cleudon. Quando se alcança o terreno à beira do Igarapé São Luís, a exaustão se dissolve em um silêncio absoluto. “O coração se ajoelha antes mesmo do corpo”, confidencia. “A alma chora antes das palavras porque entende que atravessou algo maior do que rios e trilhas — atravessou limites invisíveis”.
O visual é arrebatador por sua crueza. Da terra úmida, erguem-se grossos troncos em forma de cruz. Eles sustentam o peso brutal de centenas de peças de roupas. São vestidos florais, camisas, toalhas coloridas e até um velho chapéu de feltro espetado na ponta. Cada farrapo desbotado pela chuva é o fantasma de uma doença curada.
A poucos passos, um barranco de terra escura, entrelaçado por raízes, foi transformado em um altar natural. A rocha é uma cascata congelada de parafina branca, derretida sob a chama viva de dezenas de velas acesas que o vento da mata não apaga.
Sob a proteção de um telhado de zinco, a Casa das Promessas guarda o relicário da fronteira. O ambiente é forrado de tinta verde e preenchido por um varal de roupas deixadas como oferenda. No centro, uma cruz de madeira desaparece sob grossos terços de contas pretas e miçangas cruzadas. Na parede ao fundo, a alma do Juruá se revela: um mosaico de fotografias 3×4, retratos de famílias, imagens de crianças e agricultores. Nas tábuas, nomes como “Hudson” e “Brandão da Silva” foram entalhados, marcando a fé na madeira.
O rito final é a própria água. Os promesseiros mergulham no igarapé para lavar as dores entranhadas. “As águas do Rio São Luís não são apenas correnteza — são espelho e rito”, aponta Cleudon. “Saí molhado por fora. Mas leve por dentro”.
O Panteão dos Seringais e a Fé Cabocla
O Santuário de Nova Olinda não é uma anomalia isolada no mapa acreano; ele é um fragmento de um mosaico muito maior. A ausência histórica de igrejas de alvenaria e do clero nas profundezas da Amazônia forjou uma fé que brota do barro e do sofrimento. Onde o Vaticano não chegou, o seringueiro e o indígena canonizaram os seus próprios mártires.
A crueldade do ciclo da borracha esculpiu figuras como Santa Raimunda do Bom Sucesso, no Seringal Cumaru, em Assis Brasil. Abandonada na mata em trabalho de parto, em 1910, ela morreu na raiz de uma imensa seringueira. A lenda de seu corpo inexplicavelmente pesado e do perfume celestial que tomou o seringal transformou-a no símbolo máximo contra a violência à mulher amazônida. Hoje, todo dia 15 de agosto, milhares de brasileiros e peruanos rompem varadouros na Reserva Extrativista Chico Mendes em uma gigantesca romaria transnacional para clamar por sua proteção.
Nas águas do Alto Rio Envira, a devoção volta-se para a Menina Santa de Feijó (Maria da Liberdade), vítima de uma morte brutal na floresta. Seu túmulo atrai fiéis de várias gerações que utilizam o barro sagrado do local para curar feridas. Protetora das parturientes, seu nome ecoa nos batelões de madeira que cortam as madrugadas escuras. Em Xapuri, no Seringal Boa Vista, a resistência veste a pele de São João do Guarani. Um seringueiro nordestino fulminado pela malária na solidão da mata virou o “Santo da Floresta”, arrastando há mais de um século uma devoção ininterrupta a cada mês de junho.
Quando não são os mártires do seringal, a fé segue os passos dos andarilhos. O grande quadro emoldurado que Cleudon encontrou no altar de Nova Olinda pertence ao Irmão José da Cruz, um missionário profético que, nos anos 1960, espalhou cruzeiros de madeira, benzeções e curas pelas barrancas do Juruá antes de desaparecer misteriosamente rumo ao Peru.
E nos centros urbanos, o sincretismo atinge a sua epifania. Em Rio Branco, nasceram as linhas ayahuasqueiras do Santo Daime (com Mestre Irineu) e da Barquinha (com Daniel Pereira de Mattos). É a consagração máxima da identidade acreana: a cruz do catolicismo popular nordestino mergulhada no cipó e na folha da ancestralidade indígena. Tudo isso enquanto milhares tomam as ruas de Xapuri todo 20 de janeiro para a apoteótica Procissão de São Sebastião, fundindo o secular e o divino.
O Panteão dos Seringais e a Fé Cabocla
Para decifrar esse panteão invisível que vai das margens do Rio Envira às barrancas de Marechal Thaumaturgo, precisamos de chaves que explicam a própria humanidade. O semioticista Roland Barthes nos diria que aquelas roupas amarradas na cruz e os terços pendurados na madeira de Nova Olinda não são restos deixados na mata; são signos poderosos. O tecido abandonou sua função utilitária de vestir o corpo e se tornou a própria dor exorcizada. É o mito que apropria e sacraliza o sofrimento, dando um sentido celestial à tragédia que a floresta e os homens impõem.
E mais, trazemos aqui o sociólogo Pierre Bourdieu pois, em um lapso de memória de antigas leituras, imaginamos que ele veria no devoto amazônico o senhor de seu próprio campo religioso. Desamparado pelas instituições eclesiásticas, o caboclo tomou para si o poder do sagrado: ele próprio benze, reza, ergue a igreja de zinco e acende a vela na rocha. Nesse “mercado de bens de salvação”, o capital simbólico exigido não é o dízimo financeiro, mas o suor. Arrastar a canoa nas cachoeiras do Caipora e afundar as pernas na lama por horas a fio é a moeda que “traz” a graça. É o habitus da floresta: a certeza visceral de que nada que vem sem dor é digno de milagre.
Quando Cleudon observa a imensidão verde após vencer a travessia com seu parceiro, ele nos entrega a bússola para entender o Juruá: “A amizade de verdade é subir a montanha juntos e celebrar lá no alto”. No isolamento da natureza, onde a mata devora as vaidades, o homem não encontra apenas a divindade. “O silêncio de Marechal Thaumaturgo ensina que o ser humano é frágil — mas não é pequeno”, conclui o nosso memorialista. No reflexo das águas turvas e nas cruzes pesadas do Acre, o amazônida não clama apenas por cura; ele consagra a sua infinita e teimosa capacidade de resistir.
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Filhos da Floresta: Rian Barros e a nova cara da luta na Resex Chico Mendes
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1 mês agoon
16/02/2026By
Redação
Filhos da Floresta: Rian Barros e a nova cara da luta na Resex Chico Mendes
Texto e diagramação de Arison Jardim
O silêncio absoluto da Amazônia é um mito urbano. A floresta é barulhenta, viva, um motor biológico que não desliga. Mas na Reserva Extrativista Chico Mendes, no Acre, há um novo ruído se misturando ao canto dos pássaros e ao estalo dos ouriços de castanha caindo no chão úmido: o som das notificações de celular.
Para quem assiste de longe, acomodado na imagem romântica (e muitas vezes engessada) do seringueiro isolado no tempo, a cena pode parecer um choque de realidades. Para Rian Barros, é apenas a sobrevivência mudando de marcha. Filho de Raimundão Mendes de Barros — lenda viva dos históricos empates que, na base do corpo a corpo, frearam as motosserras ao lado do primo Chico Mendes —, Rian carrega um sobrenome que pesa como a própria história do estado.
Hoje, como Secretário da Juventude do PT e liderança que não arreda o pé do chão de terra, ele personifica a ponte entre a trincheira do passado e as batalhas do século XXI.
“Ser filho do Raimundão aqui dentro da Resex não é só orgulho, é uma responsabilidade muito grande”, ele me diz. A voz carrega a firmeza de quem não aprendeu política nos livros, mas na poeira dos ramais. “Eu cresci ouvindo história de resistência, de enfrentamento, de gente que peitou fazendeiro pra garantir esse chão que a gente pisa hoje. Essa terra não foi de graça. Foi conquistada na luta, com suor, sangue e vidas.”
Essa memória, no entanto, é uma planta que exige rega diária. Rian sabe que o esquecimento é o primeiro sintoma da perda de direitos. A juventude da floresta entende parte da dimensão histórica de onde pisa, mas, nas palavras dele, “resgatar essa memória é manter a chama acesa e a luta mais viva do que nunca”.
Criada em março de 1990, a Reserva Extrativista Chico Mendes não foi uma concessão diplomática do Estado, mas o resultado de mais de uma década de sangue derramado.
Com 970 mil hectares abraçando sete municípios do Acre, ela nasceu da luta de Chico Mendes e seus companheiros, com a carne e a coragem dos “empates” — barricadas humanas onde seringueiros davam as mãos para formar escudos contra tratores e motosserras.
O objetivo era frear o trator da ditadura que vendia a Amazônia para a agropecuária do Sul. A Resex foi concebida sob uma premissa revolucionária: provar que as populações tradicionais poderiam prosperar mantendo a floresta de pé. Uma utopia que, trinta anos depois, colide com a dureza do mercado.

Resex Chico Mendes, entre Brasileia e Assis Brasil (Foto: Arison Jardim)
O peso do ouriço e a borracha que pisa em Paris
A modernidade não apagou a dureza do ofício. O extrativismo não é um passeio no parque; é uma coreografia bruta com a natureza. A coleta da castanha-do-brasil dita o ritmo econômico e o desgaste físico de quem vive sob a copa das árvores.

“Quem tá no mato sabe que a castanha não é fácil. É peso nas costas, é chuva, é risco de cobra, é andar muito dentro da mata, é trabalho duro”, descreve Rian, dissipando qualquer verniz poético sobre a lida diária.
A saída para não ser esmagado pela engrenagem do mercado contínua sendo a mesma cartilha escrita por seus antecessores: o associativismo. A cooperativa funciona como um escudo.
“Sozinho o produtor é pequeno, mas juntos a gente fica forte. A organização coletiva ainda é nossa melhor defesa contra atravessador que quer pagar mixaria.”
Mas a economia da floresta se ramificou. A borracha, o ouro branco que já definiu os rumos do Acre, ressurge não mais como commodity de exploração desenfreada, mas como artigo de luxo ético. “A borracha continua viva, é nossa tradição. Hoje ela ganha força de novo porque o mundo começa a entender que a floresta em pé vale mais do que derrubada”, reflete. A prova material disso calça os pés de europeus: a parceria da comunidade com a marca francesa Vert (Veja) transformou o látex acreano em tênis de alto valor agregado, numa relação que finalmente remunera a conservação.
Para entender o peso dos passos de Rian, é preciso olhar para as pegadas de seu pai. Raimundo Mendes de Barros, o Raimundão, não é apenas o primo de Chico Mendes; ele é a memória viva e pulsante de uma época em que a defesa da Amazônia não era feita em conferências internacionais, mas com o próprio corpo na frente de tratores.
Nas décadas de 1970 e 1980, Raimundão foi um dos grandes fiadores dos “empates” — a tática desesperada e corajosa em que famílias de seringueiros davam as mãos para formar escudos humanos contra o avanço das motosserras e da pistolagem.
Sobrevivente de uma geração de líderes rurais que pagou com a vida pela ousadia de defender a floresta em pé, ele viu a Reserva Extrativista nascer do luto e da luta. Hoje, como um dos maiores guardiões do território, Raimundão é o patriarca da Resex, a ponte histórica que ensina a nova geração a não esquecer o preço do chão que pisam.

Guardião da memória: Raimundão resistiu na linha de frente dos empates e segue como uma das maiores referências da Resex Chico Mendes (Foto: Arison Jardim)
O Ciberespaço e o Ecoturismo como Trincheiras
O grande paradoxo que Rian ajuda a desconstruir é a falsa ideia de que a preservação exige isolamento. A nova geração de extrativistas recusa o papel de peça de museu antropológico. Eles querem a floresta intacta, mas querem Wi-Fi debaixo da sumaúma.
“Tem gente que acha que viver na reserva é viver atrasado, isso não é verdade. A gente tem celular, internet, usa rede social e continua sendo extrativista. Uma coisa não apaga a outra”, decreta. A conexão não dilui a identidade; ela a amplifica.
“Ser moderno não é deixar de ser seringueiro, é usar o que tem hoje pra defender o que é nosso. A tecnologia ajuda a vender melhor, denunciar injustiças e organizar a nossa juventude.”
Essa mesma lente pragmática é apontada para o turismo. O ecoturismo que desponta na Resex Chico Mendes é recebido pelos jovens não apenas como um complemento ao balanço financeiro no fim do mês, mas como uma vitrine ideológica. “Trazer gente de fora pra conhecer a Resex não é só dinheiro. É mostrar nossa realidade, nossa luta, nosso jeito de viver. Pra juventude, é renda, mas também é consciência.”

A tensão entre a preservação e o avanço da ilegalidade atingiu um ponto de ruptura histórico em meados de 2025. O ICMBio, amparado por decisões judiciais, deflagrou a “Operação Suçuarana” para a retirada de centenas de cabeças de gado irregulares do interior da reserva.
A resposta dos invasores foi inédita e assustadora: agentes de fiscalização enfrentaram táticas de guerrilha. Criminosos incendiaram pontes, bloquearam ramais, cortaram cercas e atacaram acampamentos oficiais.
O episódio escancarou para o país uma nova e sombria realidade acreana: a simbiose violenta entre o crime ambiental, a grilagem de terras e o avanço do crime organizado nos territórios de floresta.
Amar, Mudar e Permanecer
Nada disso, contudo, blinda a reserva do fenômeno silencioso que esvazia o interior do Brasil: o êxodo rural. Os jovens partem. Vão inchar as periferias de Rio Branco ou de cidades menores, seduzidos pela promessa de uma vida menos ríspida. Mas Rian faz uma correção cirúrgica nessa narrativa: “O jovem não sai porque quer, infelizmente ele sai porque precisa.”
A cura para o êxodo não é o discurso, é o asfalto, o cabo de fibra ótica, o preço justo. “A boa maioria não quer trocar sua terra pra ir morar na cidade. O que falta muitas vezes não é vontade, é política pública chegando de verdade”, pontua.
Em seu perfil digital, Rian empunha um verso clássico de Belchior: “Amar e mudar as coisas me interessa mais”. Na boca de um político urbano, seria apenas marketing. No chão da Resex, é um manifesto de sobrevivência.
“Não é só frase de efeito, é uma postura”, explica Rian, destrinchando sua visão de futuro para a próxima década.
“Amar a floresta não é romantizar, é defender, é cobrar e se organizar. Porque amar sem mudar é acomodação, e mudar sem amar vira política fria, que não entende o povo.”
Seu sonho para os próximos dez anos passa longe de utopias inatingíveis. Ele quer o básico bem feito: cooperativas transparentes, turismo estruturado, ramais trafegáveis e uma juventude que escolha ficar por ter oportunidade.
No fim da conversa, a mensagem que ecoa de Rian Barros é um recado direto a quem olha para a Amazônia apenas como um santuário intocável. “Isso não vai acontecer na base do discurso bonito, mas sim quando a gente transformar amor pelo nosso território em pressão, em projeto, em orçamento, em política pública concreta.” O filho de Raimundão sabe melhor do que ninguém: a floresta só fica em pé se quem vive sob a sombra de suas árvores também estiver de pé. E com dignidade.
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