Connect with us

Especiais

Macadame: a solução de engenharia que pode mudar o futuro da BR-364 no Acre

Published

on

A BR-364 cortando a floresta amazônica no Acre
Especial · Infraestrutura

Macadame: a solução de engenharia que pode mudar o futuro da BR-364 no Acre

O DNIT adotou o macadame hidráulico como principal solução estrutural para a rodovia — e a mudança vai muito além do asfalto.

Foto: Sérgio Vale / Secom · Cedida (DNIT)
🛣️
400 km
sobre tabatinga

do trecho central da BR-364 assentados sobre o solo mais instável do país

📅
10 anos
durabilidade comprovada

trechos com macadame de 2015–2016 seguem em boa trafegabilidade

⚙️
Macadame
hidráulico

pedra britada compactada que distribui tensões e drena internamente

A reconstrução da BR-364 no Acre avança para uma nova etapa baseada em engenharia adaptada às condições amazônicas. O Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT) adotou o macadame hidráulico como principal solução estrutural para garantir maior eficiência e durabilidade à rodovia federal.

Segundo o superintendente regional do DNIT no Acre, engenheiro civil Ricardo Araújo, a escolha da técnica representa uma mudança significativa na forma de construir e manter estradas na região.

“Quando o terreno natural não oferece resistência suficiente, a engenharia precisa suplementar essa deficiência com mais estrutura.” — Ricardo Araújo, superintendente regional do DNIT no Acre

Grande parte do trecho central da BR-364, aproximadamente 400 quilômetros, está assentada sobre a tabatinga — um solo silto-argiloso altamente expansivo, sensível à água e considerado um dos mais complexos do país para obras rodoviárias.

Estudos técnicos indicam que essa formação pode atingir centenas de metros de profundidade, e não há solos bons nas proximidades, impossibilitando soluções tradicionais. Além disso, a tabatinga não pode ser melhorada por meio de simples adição de cal ou cimento, dada a sua composição química peculiar.

🌎 O problema do solo

Perfil geológico mostrando a tabatinga e a instabilidade estrutural da BR-364 Foto: Sérgio Vale / Secom · Cedida (DNIT)

📍 Por que a tabatinga destrói a pista

O inimigo invisível que nasce no subleito

  • Solo silto-argiloso altamente expansivo e instável
  • Perde resistência com umidade — incha no inverno, racha no verão
  • Recalque profundo atinge o pavimento por cima
  • O buraco aparece na superfície — mas o problema nasce embaixo
  • Não pode ser tratada com cal ou cimento por sua composição química

🗺️ O solo importa

Extensão do problema ao longo da rodovia

Mapa técnico indicando a extensão da tabatinga ao longo da BR-364
Extensão da tabatinga no trecho central. Cedida (DNIT)
Trator encalhado na tabatinga durante obra na BR-364
A tabatinga é capaz de “engolir” um trator (Foto: Sérgio Vale, em 2008)

Nesse tipo de terreno, o problema não começa no asfalto, mas no subleito — a base natural da estrada. Durante o verão amazônico, o solo perde umidade, retrai e cria fissuras profundas. No inverno, absorve grandes volumes de água, expandindo e perdendo resistência. O resultado é o recalque diferencial.

Historicamente, muitas rodovias amazônicas foram dimensionadas com métodos desenvolvidos para outras regiões do Brasil, sem considerar as características geológicas locais. Isso gerou estruturas insuficientes e um ciclo vicioso de degradação.

“O buraco aparece na superfície, mas o problema está embaixo. Se a deficiência estrutural continua, tapar o buraco resolve hoje e ele volta no mês seguinte.” — Ricardo Araújo, DNIT Acre

Por que o macadame é diferente

O macadame hidráulico surge como resposta direta a essa deficiência estrutural. A técnica consiste na execução de uma base formada por camadas espessas de pedra britada, estabilizada granulometricamente e compactada. Essa estrutura funciona como uma camada rígida e drenante que substitui a função que o solo deveria exercer, mas não consegue.

“Na engenharia rodoviária, esse mecanismo é conhecido como distribuição de tensões: o peso dos veículos deixa de chegar concentrado ao subleito e passa a ser dissipado pela camada de pedra, evitando que o pavimento afunde na lama profunda”, ressalta Araújo.

Além disso, o macadame atua como camada drenante. A drenagem interna permite que a água atravesse a estrutura sem comprometer a pista — fator essencial em áreas de várzea e clima extremo como o Acre. “Na prática, o macadame funciona como um ‘escudo estrutural’ entre o pavimento e a tabatinga.”

Infográfico técnico

Como o macadame protege a BR-364 — comparativo de estruturas

❌ Pavimento tradicional (sem macadame)
Asfalto
Camada superficial — aguenta sozinha
Frágil
Solo-brita ou solo local
Perde resistência com umidade
Instável
Tabatinga
Seca e racha no verão; incha e cede no inverno
Crítico
Resultado
Recalque → buraco → tapa-buraco → buraco volta
Ciclo vicioso
✅ Com macadame hidráulico
Asfalto
Suportado por uma base robusta abaixo
Protegido
Pedra britada compactada
Distribui tensões; água escoa pelos vazios
Escudo
Tabatinga isolada
Não recebe cargas; não expande sob o pavimento
Controlada
Resultado
Até 10 anos de trafegabilidade — manutenção drasticamente reduzida
Durável

Representação esquemática. Fonte: DNIT / declarações do eng. Ricardo Araújo (texto da matéria).

⚙️ Infografia técnica · Como o macadame protege a BR-364 Infografia técnica das camadas do macadame hidráulico

Esquema das camadas estruturais do macadame hidráulico. Cedida (DNIT)

O antídoto para o ciclo de buracos

Especialistas do DNIT definem o macadame hidráulico como o “antídoto” para o problema histórico da BR-364. Estradas com deficiência estrutural entram em um ciclo contínuo e oneroso: buracos são tapados repetidamente, mas a origem do problema persiste.

A reconstrução estrutural exige investimento inicial mais alto, porém diminui de forma significativa os gastos ao longo do tempo. Trechos recuperados com macadame podem reduzir despesas anuais de manutenção de centenas de milhares de reais para valores muito menores.

Advertisement
TJ ACRE Maio Laranja1350x300

Diagrama do problema

O ciclo vicioso do pavimento sem base estrutural — clique em cada etapa

Tabatinga úmida Solo expande e cede Fissuras no leito Recalque diferencial Buraco na pista Superfície afunda Tapa-buraco Remendo superficial Custo alto Problema persiste Ciclo vicioso sem fim
👆 Passe o mouse (ou toque) em cada etapa do ciclo para ver a explicação.

Fonte: declarações do eng. Ricardo Araújo, DNIT Acre (texto da matéria).

“Estradas mal estruturadas custam caro para sempre. Quando corrigimos a origem do problema, a rodovia passa a exigir muito menos intervenção.” — Ricardo Araújo, DNIT Acre

Evidência prática na própria BR-364

Terraplenagem e drenagem durante as obras da BR-364
Trecho em terraplenagem e drenagem durante as obras da BR-364. Foto: Sérgio Vale / Secom

A eficácia do método já pode ser observada na própria BR-364. Trechos executados em macadame hidráulico entre 2015 e 2016 permanecem em boas condições de trafegabilidade quase dez anos depois, mesmo submetidos aos rigorosos ciclos de chuva amazônica.

Esses resultados reforçaram a decisão técnica de adotar o macadame como padrão estrutural nos novos projetos executivos. “Hoje já temos trechos executados com macadame que continuam bons, mesmo enfrentando inverno rigoroso. Isso mostra que a técnica funciona para a realidade do Acre”, afirma o engenheiro.

Análise comparativa (ilustrativa)

Custo acumulado de manutenção ao longo do tempo

Pavimento sem base estrutural adequada
Pavimento com macadame hidráulico
0 R$ médio R$ alto Ano 1 Ano 3 Ano 5 Ano 7 Ano 9 Ano 10 Trechos 2015–2016 ainda trafegáveis ✔

Valores ilustrativos baseados em dados relativos citados pelo DNIT. O macadame pode reduzir despesas anuais de manutenção de centenas de milhares de reais para valores significativamente menores.

O engenheiro explica que, mesmo diante da complexa logística de transporte de pedra — necessária porque o Acre não dispõe deste material — os estudos apontam que a durabilidade obtida compensa o custo adicional.

O dilema entre manter e reconstruir

Máquinas pesadas na abertura de trecho da BR-364
Máquinas trabalham na abertura e preparação de trecho da BR-364. Foto: Sérgio Vale

O DNIT reconhece que a BR-364 vive hoje um paradoxo operacional. Enquanto a solução definitiva exige reconstrução estrutural, a rodovia não pode ser interrompida — representa a única ligação terrestre contínua entre municípios acreanos. Sem manutenção emergencial, parte do estado poderia enfrentar isolamento severo.

Assim, os serviços de tapa-buracos e conservação continuam sendo executados como medida de sobrevivência operacional.

“A BR-364 é uma rodovia social, dependemos dela no dia a dia. Precisamos mantê-la aberta, fazendo manutenção, tapando buracos e melhorando os pontos críticos, enquanto avançamos para uma solução mais duradoura.” — Ricardo Araújo, DNIT Acre

Manutenção emergencial em trecho crítico da BR-364
Intervenção emergencial em trecho crítico da BR-364. Cedida (DNIT)
Estrutura de drenagem em construção no trecho da BR-364 em Feijó
Estrutura de drenagem em construção no trecho da BR-364 em Feijó. Foto: Sérgio Vale / Secom

Engenharia adaptada à Amazônia

A adoção do macadame representa uma mudança de paradigma na infraestrutura rodoviária do estado. Em vez de tentar adaptar modelos tradicionais à região amazônica, o projeto passa a considerar as características naturais do território.

O método é especialmente indicado para áreas com solo úmido, tráfego intenso e regimes climáticos extremos — exatamente as condições encontradas no interior do Acre.

Para Araújo, o impacto vai além da engenharia rodoviária. “A BR-364 é uma rodovia estratégica para o Acre. Ela conecta municípios, garante o deslocamento da população, o transporte de pacientes, o abastecimento das cidades e o funcionamento dos serviços públicos.”

Trecho pavimentado e consolidado da BR-364 no Acre
Trecho pavimentado e em operação da BR-364. Foto: Sérgio Vale / Secom · Cedida (DNIT)

“Quando fortalecemos a estrutura da estrada, estamos conectando pessoas, reduzindo o isolamento e assegurando melhores condições de vida.” — Ricardo Araújo, DNIT Acre


TextoCarina Menezes — parceria É Pop e Na Proa da Notícia Fotos e imagensSérgio Vale / Secom · Cedidas (DNIT)

Continue Reading
Advertisement CAMPANHA DOCS POP BARI (1200 x 396 px)

Especiais

No Instagram, pré-candidatos ao Governo do Acre travam disputa por poder, narrativa e território político

Published

on

No feed da pré-campanha

Entre 2 de fevereiro e 5 de maio de 2026, Mailza Assis, Tião Bocalom, Alan Rick e Thor Dantas apareceram em 1.065 publicações públicas monitoradas pela Pop IntelBox, somando cerca de 529,5 mil interações entre curtidas e comentários.

2 de fevereiro a 5 de maio de 2026 1.065 publicações públicas 529,5 mil interações
600 posts de Tião Bocalom, o maior volume entre os perfis analisados.
860,8 interações por post de Mailza Assis, a média mais alta do levantamento.
17,1% das interações de Alan Rick vieram de comentários.
43 posts de Thor Dantas, presença menor e concentrada em saúde.

Antes de a campanha oficial tomar as ruas, os bairros, os ramais e os palanques do Acre, a eleição de 2026 já começou a se mover numa arena onde cada gesto vira mensagem e cada postagem tenta ocupar um pedaço do imaginário público: o Instagram. Entre 2 de fevereiro e 5 de maio de 2026, Mailza Assis, Tião Bocalom, Alan Rick e Thor Dantas apareceram em 1.065 publicações públicas monitoradas pela Pop IntelBox, somando cerca de 529,5 mil interações entre curtidas e comentários. O número não mede voto, nem preferência eleitoral, nem aprovação de governo. Mede outra coisa, talvez mais sutil e igualmente decisiva neste momento anterior à campanha: quem fala mais, quem mobiliza melhor, quem tenta se tornar dono de determinados temas e qual personagem político cada pré-candidato busca vestir diante do eleitor acreano.

A disputa digital no Acre não é apenas uma corrida por curtidas. É uma briga por papel político. Bocalom tenta se firmar como o gestor que entrega obra concreta, que aponta para o asfalto, o elevado, a rua modificada e diz ao eleitor: está feito. Mailza Assis tenta transformar a continuidade do governo em presença própria, com um rosto feminino, institucional, religioso, territorial e cuidador. Alan Rick trabalha a imagem do senador que traz recurso, ocupa Brasília, entra em debates nacionais e tenta converter mandato em força eleitoral. Thor Dantas busca abrir espaço como alternativa técnica, principalmente a partir da saúde, falando menos, mas tentando falar a partir de uma credencial profissional.

O primeiro corte dos dados revela uma diferença importante entre barulho e densidade. Tião Bocalom foi o nome mais presente no período, com 600 publicações e 223.751 interações. É quase uma ocupação diária do feed, uma estratégia de presença constante, como quem finca bandeira no território digital todos os dias para não deixar o assunto esfriar. Mailza Assis publicou menos da metade, 255 posts, mas chegou muito perto no engajamento total, com 219.503 interações, e liderou a média por publicação, com 860,8 interações por post. Alan Rick apareceu com 167 publicações, 72.256 interações e média de 432,7. Thor Dantas teve a presença mais estreita, com 43 posts, 13.988 interações e média de 325,3.

Essa diferença conta uma história política. Bocalom opera pela repetição e pela visualidade da entrega. Mailza aposta na intensidade de cada aparição. Alan trabalha com uma comunicação mais disciplinada de mandato, marcada por hashtags, temas legislativos e pautas de confronto. Thor ainda está numa fase de afirmação, tentando convencer o público de que sua experiência técnica pode virar projeto de poder.

No caso de Tião Bocalom, a narrativa é direta e quase material. O prefeito de Rio Branco aparece como o homem da obra, da máquina, da entrega física, do antes e depois. Das 600 postagens, 226 foram classificadas no eixo de gestão, obras e entregas. O conteúdo de maior engajamento de todo o monitoramento foi dele: um vídeo publicado em 21 de março de 2026 sobre o Elevado Mamédio Bittar, com a frase “Está entregue! Elevado Mamedio Bittar é do povo. Rio Branco avançando”. A publicação somou 6.634 interações, sendo 6.212 curtidas e 422 comentários.

A força de Bocalom está naquilo que pode ser filmado. A obra vira prova, o vídeo vira palanque, o elevado vira argumento. Em uma política marcada muitas vezes pela promessa, ele tenta sustentar a comunicação no concreto. A imagem de gestor executor ganha corpo quando o eleitor vê a estrutura de pé, a via aberta, o trânsito alterado, o equipamento público entregue. O risco também mora aí. A narrativa que funciona em Rio Branco precisa atravessar o mapa inteiro do Acre. Uma eleição estadual exige que o capital político municipal caminhe para além da capital, chegue aos municípios do interior, aos rios, às terras firmes, aos lugares onde a obra vista no Instagram pode parecer distante da vida cotidiana.

Mailza Assis aparece em outro registro. Sua comunicação mistura governo, assistência social, segurança pública, saúde, fé, família, eventos populares e presença territorial. O eixo mais frequente em seu perfil foi assistência social, com 118 posts, seguido por gestão, obras e entregas, com 107, e agenda e comunidade, com 103. A maior média de engajamento apareceu nos conteúdos ligados a família, fé e valores, com 1.447,9 interações por post, e segurança pública, com 1.044,1.

A governadora trabalha uma fronteira delicada: precisa ser continuidade sem parecer apenas extensão de outro nome. Por isso, a comunicação tenta costurar origem humilde, missão pública, maternagem política, fé e autoridade institucional. Em 3 de abril, uma publicação com a frase “Sou uma mulher comum, como tantas outras do nosso Acre” alcançou 4.499 interações. A força da mensagem está no deslocamento: Mailza não se apresenta apenas como ocupante do cargo, mas como alguém que reivindica pertencimento ao Acre comum, ao Acre das mulheres que trabalham, cuidam, creem e sustentam famílias longe dos salões de decisão.

Quando fala da contratação de aprovados do Iapen, Mailza encontra outro ponto sensível. O vídeo teve 4.180 interações e 706 comentários. Segurança pública e funcionalismo costumam mobilizar uma audiência que não apenas curte, mas cobra, celebra, pressiona e participa. A política aparece ali como promessa de estabilidade, emprego, autoridade do Estado e resposta a uma área que atravessa a vida das famílias acreanas. A vantagem de Mailza está na densidade: publica menos que Bocalom, mas alcança quase o mesmo engajamento total. Seu desafio é construir autonomia simbólica diante do capital político herdado de Gladson Cameli.

Alan Rick ocupa um terceiro lugar nessa disputa. Sua comunicação tem marca mais padronizada, com uso recorrente de hashtags como #acre, #aquitemtrabalho, #alanpeloacre e #alanrickpeloacre. O senador fala de mandato, recursos, saúde, infraestrutura, Senado, emendas e pautas nacionais. Seu perfil teve 77 publicações no eixo de política eleitoral, 73 em gestão, obras e entregas, e 43 em saúde.

O dado mais politicamente relevante em Alan não está apenas no total de interações, mas no peso dos comentários. Foram 12.365 comentários dentro de 72.256 interações, uma proporção de 17,1%, superior à dos demais monitorados. Comentário não é sinônimo automático de apoio. Pode ser adesão, crítica, cobrança, militância, ironia ou conflito. Mas mostra que Alan aciona uma audiência mais disposta a responder. Ele não apenas passa pelo feed; ele provoca reação.

Essa característica combina com a assinatura política que tenta construir. Alan aparece como o parlamentar que conecta o Acre a Brasília, que transforma debate nacional em ativo local e emenda parlamentar em argumento eleitoral. Um vídeo de 25 de fevereiro sobre o PL 2294/2024 e o exame nacional de proficiência médica chegou a 3.782 interações. Outro post, sobre pesquisa eleitoral para o governo do Acre, somou 2.386 interações e 436 comentários. Sua força está na clareza da marca: mandato, recurso, saúde e confronto. Seu risco está no próprio combustível dessa comunicação. O atrito engaja, mas também amplia rejeições, endurece campos e pode transformar visibilidade em controvérsia permanente.

Thor Dantas aparece em escala menor, mas com uma tentativa clara de diferenciação. Foram 43 publicações, 13.988 interações e média de 325,3 por post. O volume ainda não permite compará-lo em pé de igualdade com os demais, mas permite ver uma estratégia em formação. Thor tenta converter autoridade profissional em capital político. Seus temas mais recorrentes foram saúde, agenda e comunidade, além de política eleitoral. O post de maior engajamento tratou de sua possível candidatura em 2026 e somou 1.584 interações. Outro vídeo, sobre baixa cobertura vacinal contra gripe, chegou a 856 interações.

O lugar que Thor tenta ocupar é o do técnico-político. Num cenário em que Bocalom fala como gestor executor, Mailza como liderança de continuidade e Alan como articulador de mandato, Thor tenta aparecer como especialista preparado. Saúde pública, gestão, crítica institucional e viabilidade eleitoral formam o centro de sua comunicação. A força está na diferenciação. O limite está na escala. Para crescer, precisará transformar reputação profissional em presença territorial, capilaridade política e linguagem digital mais frequente.

Advertisement
TJ ACRE Maio Laranja1350x300

Os posts de maior tração contam o que move o Instagram político acreano. Em Bocalom, a força vem das obras e da mobilidade urbana. Em Mailza, os picos aparecem quando governo, fé, festa popular, posse, segurança e origem pessoal se cruzam. Em Alan, saúde, Revalida, saneamento, pesquisa eleitoral e temas nacionais puxam reação. Em Thor, a audiência cresce quando a candidatura deixa de ser sombra e passa a ser dita. O engajamento, portanto, não nasce apenas da popularidade individual. Ele nasce de evento, emoção, conflito, imagem e oportunidade.

O vídeo domina essa gramática. Em Mailza, os vídeos alcançaram média de 1.176,8 interações, acima dos carrosséis e imagens. Em Bocalom, a média dos vídeos foi de 517,2. Em Alan, 555,1. Em Thor, 408,1. A política no Instagram depende de rosto, voz, cena e ritmo. A obra precisa aparecer. A emoção precisa ser encenada. A fala precisa caber em poucos segundos. A presença pública passa a ser também performance audiovisual.

No fundo, cada pré-candidato tenta ensinar o eleitor a enxergá-lo de uma determinada forma. Bocalom quer ser reconhecido como quem faz. Mailza quer ser reconhecida como quem cuida e continua, mas com nome próprio. Alan quer ser reconhecido como quem articula, entrega e enfrenta. Thor quer ser reconhecido como quem entende tecnicamente dos problemas e pode governar com método. Essa é a disputa real por trás das curtidas: a formação antecipada de reputações.

O Instagram, nesse momento, funciona como um laboratório da eleição de 2026. Ali, os pré-candidatos testam linguagem, medem temperatura, aproximam aliados, tensionam adversários e tentam descobrir quais temas pegam fogo no terreiro digital. Os dados não dizem quem vencerá a eleição. Mas mostram que a campanha já começou antes da campanha, no terreno das imagens, dos comentários, das narrativas e da tentativa de ocupar um lugar fixo na cabeça do eleitor acreano.

Continue Reading

Especiais

Design, ancestralidade e a disputa pelo valor da floresta

Published

on

Especial É Pop 🌿 Matéria Especial

Design, ancestralidade e a disputa pelo valor da floresta

📅 Publicado em: Abril de 2026 ✍️ Produção: Alexandre Nunes e Arison Jardim 🎙️ Entrevistado: José Luiz de Paula Jr.
José Luiz de Paula Jr.

José Luiz de Paula Jr., ecodesigner, educador e fundador do Instituto dos Sentidos. | Foto: Acervo pessoal

Falar com José Luiz de Paula Jr. é entrar em uma discussão que ultrapassa o design, a perfumaria e a estética dos produtos da floresta. O que ele coloca em primeiro plano é uma disputa mais profunda: quem nomeia, transforma, protege e se beneficia da biodiversidade amazônica.

Em sua leitura, não há bioeconomia possível sem reconhecimento do saber ancestral, repartição concreta de benefícios e permanência digna de povos indígenas, quilombolas e ribeirinhos em seus próprios territórios. Sua trajetória parte de uma memória íntima e anterior ao circuito internacional em que seu trabalho passou a circular. Antes dos prêmios, das vitrines e do reconhecimento fora do país, está a formação sensorial construída com o avô, Zé Vicente, entre o Vale do Paraíba e o asfalto de São Paulo.

É dessa experiência, ligada ao cultivo, ao cheiro das plantas e ao que ele define como “caminho da percepção natural”, que nasce uma compreensão do olfato não como ornamento, mas como linguagem, arquivo e ferramenta de leitura do mundo. Ao longo dos anos, José Luiz deslocou esse repertório para uma prática voltada às comunidades da Amazônia. Em vez de tratar design como acabamento ou embalagem, ele o apresenta como instrumento antropológico e econômico.

Fotos | José Luiz de Paula Jr.
José Luiz de Paula Jr. - foto 2 José Luiz - foto 3 José Luiz - foto 4 José Luiz - foto 5

Em sua formulação, perfumes, frascos, cores, grafismos e conceitos de marca podem operar como tradução de identidades coletivas — desde que não apaguem a origem dos conhecimentos nem repitam a lógica histórica de extração sem retorno. O ponto central de sua fala está aí: agregar valor, sem retirar das comunidades o domínio sobre aquilo que produzem e sabem.

O jovem indígena não quer ser um urbano deslocado; ele quer ser um protagonista em sua própria terra. — José Luiz de Paula Jr.

Bloco 1 — Olfato, memória e o avô Zé Vicente Zé Vicente, avô de José Luiz

Zé Vicente, avô de José Luiz. “Um homem da terra, do cultivo, das plantas.” | Foto: Acervo pessoal

Antes de falar de design e bioeconomia, você frequentemente menciona o avô, Zé Vicente. O que essa relação tem a ver com o trabalho que você desenvolve hoje?

“Minha formação sensorial começou com ele. Era um homem da terra, do cultivo, das plantas. Com ele aprendi que o olfato é o sentido mais primitivo e mais verdadeiro que temos. Antes de qualquer teoria de design, aprendi a ler o mundo pelo cheiro das coisas. Esse ‘caminho da percepção natural’ é o que me guia até hoje quando entro em uma aldeia ou em uma floresta.”

Você costuma dizer que o olfato é o “patrono da felicidade” e que o design deve acessar a memória afetiva. Como ocorre o seu processo de “escuta olfativa” para traduzir a identidade de um povo em produto?

“O design, para mim, só faz sentido se for um agente de transformação. Enxergo perfumes e embalagens como instrumentos antropológicos. Através do olfato, das cores e das formas, traduzimos o comportamento de grupos étnicos — sejam indígenas, quilombolas ou ribeirinhos. O corpo do indígena é mídia; ele comunica estado de espírito através da pintura. Já o olfato é o nosso sentido mais vital e primitivo, muitas vezes atrofiado pela vida urbana. Meu papel como designer é resgatar essa percepção. Quando entro na mata, não vejo apenas árvores; já visualizo cores, volumetrias e frascos que embalarão aquela essência.”

José Luiz de Paula Jr. em campo

José Luiz em campo, no contato direto com comunidades tradicionais da Amazônia. | Foto: Acervo pessoal

Bloco 2 — O Acre, o Pará e a floresta em pé

Sua vivência nos beiradões e aldeias do Acre — com Ashaninka, Yawanawá e Shanenawa — gerou perfumes bioeconômicos que chegam à Europa. O que esses povos te ensinaram sobre o tempo das coisas e sobre o valor da “floresta em pé”?

“Em busca do que chamo de ‘Brasil Profundo’, fui parar no Vale do Juruá. Foi no convívio direto com os Ashaninkas, Puyanawas, Yawanawas e Shawandawas que descobri que é possível viver com pouco, desde que esse pouco seja preenchido por uma imensa plenitude. Ali, redescobri a liberdade e a ciência em sua forma mais pura. Precisamos superar o preconceito acadêmico de que o saber tradicional não é ciência. Quem detém o conhecimento milenar da floresta é cientista da vida. Aprendi com líderes como Benki e tantos outros que a natureza não precisa ser ‘salva’ por nossa soberba humana; ela é soberana e reage às nossas ações. Nós é que precisamos da floresta para sobreviver com dignidade e saúde. O planeta continuará aqui; a questão é se nós estaremos.”

Você trabalhou com o “mel roxo de açaí” em Moju, no Pará. Como o design atua para resgatar o orgulho da comunidade e transformá-lo em ferramenta de independência econômica?

“Minha missão mudou quando vi 2 litros de um mel precioso serem vendidos em uma garrafa de plástico por um valor irrisório. Ali, decidi que o design deveria servir a quem realmente precisa: as comunidades originárias. Redesenhamos o conceito, reduzimos para 150ml com alto valor agregado e estabelecemos um modelo onde 50% do lucro retorna diretamente para a comunidade. Isso não é caridade, é justiça econômica. Precisamos romper com o ‘colonialismo contemporâneo’, onde o conhecimento da floresta é explorado sem o devido retorno a seus guardiões.”

Bioeconomia sem inovação e partilha de benefícios é apenas uma palavra vazia. — José Luiz de Paula Jr.

José Luiz - foto 6 José Luiz - foto 7 José Luiz - foto 8
Bloco 3 — A verdadeira bioeconomia

A palavra “bioeconomia” virou moda em fóruns globais, muitas vezes esvaziada de seu sentido humano. Onde termina o mero extrativismo e onde começa a verdadeira bioeconomia?

“Bioeconomia sem inovação e partilha de benefícios é apenas uma palavra vazia. A Amazônia abriga 33 milhões de pessoas; é um universo que exige soluções que unam a ciência acadêmica ao saber ancestral para gerar escala com ética. Como educador, meu objetivo é levar a ‘escola de perfumaria’ e o conhecimento técnico para dentro das aldeias. Quero que a juventude indígena e quilombola possa transformar sua biodiversidade em riqueza, sem precisar abandonar sua cultura. Para isso, fundamos o Instituto dos Sentidos.”

Advertisement
TJ ACRE Maio Laranja1350x300

Qual é o maior desafio para garantir que os jovens dessas comunidades enxerguem futuro no seu próprio território?

“O jovem indígena não quer ser um urbano deslocado; ele quer ser um protagonista em sua própria terra. Meus projetos são profundamente inspirados em figuras que são verdadeiras bibliotecas vivas, como o xamã Tatá Yawanawa, que fez sua passagem aos 104 anos, o cacique Antonio Ashaninka e Dona Peti, o cacique Joel Puyanawa, o cacique Biraci Brasil, Biraci Júnior e Anchieta Shawandawa. Lugar de jovem indígena, quilombola ou ribeirinho é na universidade, sim, mas para que ele retorne com ferramentas que potencializem o conhecimento de seus ancestrais.”

José Luiz de Paula Jr.

José Luiz de Paula Jr. | Foto: Acervo pessoal

Bloco 4 — O futuro e o FIBAM 2026

No final de maio de 2026, Macapá sediará o 2º Fórum Internacional de Bioeconomia Amazônica (FIBAM). O que os empreendedores locais, cooperativas e investidores podem esperar?

“O FIBAM 2026 terá um papel estratégico e urgente na defesa do patrimônio biológico da região. Vamos enfrentar temas críticos, como a praga que atualmente está dizimando as lavouras de mandioca no Amapá — uma doença vinda da Guiana Francesa que ameaça a base da segurança alimentar do povo amazônida. No Fórum deste ano, estaremos reunindo especialistas brasileiros e franceses, integrando a ciência acadêmica, a Embrapa e o conhecimento das comunidades locais para resolver esta e outras questões de biobotânica amazônica. O Fórum é, acima de tudo, um ponto de convergência onde o capital consciente se une à ciência de ponta e ao saber ancestral.”

Como você enxerga o papel da Amazônia no novo cenário mundial — não mais como “pulmão” a ser explorado, mas como mente criativa e dona de suas próprias patentes?

“A palavra de ordem para o futuro da Amazônia é segurança jurídica. O conhecimento ancestral e as manifestações culturais também devem ser protegidos por mecanismos de propriedade intelectual. O grande desafio da Amazônia moderna é formar profissionais que dominem a linguagem da ciência avançada para validar o que as comunidades já sabem há milênios. Temos bioativos com grande poder farmacológico e alto potencial de patenteamento, com ações comprovadas inclusive na área da neurociência. Somente com ética e garantias jurídicas asseguraremos que a riqueza gerada pela biodiversidade beneficie, prioritariamente, os guardiões da floresta.”

A floresta não pode ser tratada apenas como fonte de matéria-prima, mas como território de conhecimento, cultura e geração de valor. — José Luiz de Paula Jr., ecodesigner e fundador do Instituto dos Sentidos

✦ É Pop
Produção Alexandre Nunes e Arison Jardim
Entrevistado José Luiz de Paula Jr. — Ecodesigner, educador e fundador do Instituto dos Sentidos
Fotos Acervo pessoal de José Luiz de Paula Jr.

Continue Reading

Especiais

No coração do Rio Moa, a escuta de Vitória Rodrigues encontra o Povo Nukini e transforma cuidado em presença

Published

on

Matéria especial

Acre • 22 de março de 2026

No coração do Rio Moa, a escuta de Vitória Rodrigues encontra o Povo Nukini e transforma cuidado em presença

No chão da Aldeia Isã, o cuidado aparece sem pressa: conversa partilhada, infância em roda, alimento como memória e uma psicologia que volta ao território para construir vínculo com a própria gente.

Reportagem: Arison Jardim

Fotos: acervo de Vitória Rodrigues

Especial do É Pop

Crianças do povo Nukini sorriem na escadaria que desce até o Rio Moa, cercadas por verde e casas da aldeia.
Na abertura da matéria, a escadaria que desce até o Moa condensa a paisagem da aldeia: infância, rio, casas e floresta num mesmo plano.
Vista da Aldeia Isã com casas de madeira, placas solares e o Rio Moa ao fundo sob o céu aberto.
Casas, placas solares, barranco e mata fechada. Tecnologia e tradição aparecem juntas no cotidiano do território.

No dia 13 de março, na Aldeia Isã, em Mâncio Lima, a psicóloga clínica Vitória Rodrigues sentou no chão com crianças do povo Nukini para conversar sobre corpo, limites e respeito, e ali o cuidado ganhou a forma que a floresta entende: palavra dita sem pressa, presença partilhada e confiança construída no ritmo da comunidade. A cena não nasceu de uma visita apressada, dessas que entram, falam e vão embora. Nasceu de um retorno. Vitória saiu do Juruá para estudar Psicologia na Bahia, atravessou o peso da distância, enfrentou o susto acadêmico de quem percebe que o Brasil também cobra caro de quem vem das bordas, e voltou porque compreendeu que sua profissão só faria sentido inteiro perto da própria gente, dos rios, dos avós, das histórias e das urgências que moldaram sua formação humana antes mesmo da universidade.

Nas imagens que a jovem profissional compartilha em suas redes sociais, a aldeia aparece com a força tranquila de quem segue em pé. As crianças descem a escadaria que leva ao barranco do rio com o corpo solto de quem conhece o chão onde pisa. Mais adiante, as casas de madeira se alinham diante da mata fechada, com placas solares captando luz no meio do verde pesado do Moa. Sob uma árvore frondosa, meninos e meninas se juntam como se a comunidade inteira coubesse naquele círculo de sombra. Em outro canto, o terreiro abre espaço para o respiro largo do céu e para o tempo da convivência. Não há nada de exótico ali. Há vida organizada, infância correndo livre, tecnologia combinada com tradição e uma paisagem onde o cotidiano continua sendo a primeira escola.

Voltar para perto

Foi para esse chão que Vitória decidiu voltar. “Esse retorno é também um reencontro comigo mesma”, diz ela, numa frase que ajuda a entender que sua escolha profissional não nasceu apenas do diploma, mas da vida vivida antes dele. Ao sair do Acre para estudar, levou junto a memória da família, a experiência de quem cresceu atravessada pelos rios do Juruá e a consciência de que a distância também ensina. Na Bahia, encontrou outro Brasil, rompeu preconceitos e percebeu que a formação acadêmica, por si só, não bastava. O que ela buscava tinha outro tamanho. “Compreendo o cuidado psicológico como um espaço de presença e construção conjunta”, afirma. Nessa formulação, não cabe a psicologia isolada do mundo, fechada em consultório e apartada da vida concreta. O que existe é uma escuta que pisa no território e se deixa afetar por ele.

Esse entendimento ganha mais densidade quando ela própria nomeia o que a orienta. “Acredito que toda psicologia é, antes de tudo, social”, afirma. A frase, quando chega ao centro da Aldeia Isã, deixa de ser princípio abstrato e ganha corpo. Ali, cada conversa com uma mulher, cada roda com crianças, cada permanência ao lado das famílias pede que o cuidado considere o que atravessa uma comunidade indígena do alto Juruá: a memória coletiva, a relação com a terra, os modos de criação, a história da resistência, a delicadeza das infâncias e o direito de viver sem violência. Vitória também fala da base que sustenta sua prática: “Minha escuta se constrói a partir dessa compreensão, buscando acolher a singularidade de cada trajetória sem desconsiderar os cenários que a atravessam”. O que ela oferece, então, não é só atendimento. É presença ética onde a vida acontece.

Na Aldeia Isã, essa presença se espalhou de forma orgânica. A roda com as crianças sobre corpo, limites e respeito ocorreu sem o peso do tabu e sem a rigidez de quem fala de cima para baixo. Houve escuta, troca e cuidado com a linguagem. Pais e mães acompanharam de perto, atentos, como quem sabe que proteger também passa por aprender a conversar. Entre as mulheres, o trabalho seguiu pela mesma vereda: fortalecer a palavra, abrir espaço para o que muitas vezes fica represado no cotidiano e lembrar que saúde mental não é luxo de cidade, mas necessidade humana em qualquer latitude da floresta. Vitória não aparece como alguém que chega para ensinar tudo. Ela se coloca como quem constrói junto. “Ofereço um espaço ético e acolhedor para quem busca se aproximar de si, elaborar sofrimentos, fortalecer recursos internos e ampliar a compreensão sobre suas vivências”, resume.

Comer também é território

Essa maneira de estar transforma até o que parece lateral em parte central da narrativa. A comida, por exemplo, que encanta quem sente saudade da própria casa, não entra como curiosidade de passagem. Ela entra como território. Quando Vitória posta a imagem de um buriti aberto na mão, com a polpa alaranjada e a casca escura, a imagem traz a textura dessa convivência. O prato de caranguejo servido com banana-da-terra, fumegando sobre a mesa de madeira, também diz muito sobre esse encontro e da experiência única que é viver na Amazônia. Comer ali é partilhar tempo. É admitir que a confiança não nasce só da conversa formal, mas do cotidiano.

Até a cuia cheia de larvas, alimento ancestral em muitos contextos amazônicos, ajuda a desmontar o olhar apressado de fora. Na floresta, comer é saber. Comer é memória. Comer é pertencimento. “Esses alimentos são entendidos como presentes da natureza e carregam a história de resistência do povo Nukini”, explica.

Mão segura um buriti aberto, com polpa alaranjada e casca escura.
Buriti aberto na mão: a matéria insere o alimento como memória, paisagem e partilha.
Prato com caranguejo e banana-da-terra servido sobre mesa de madeira.
O cotidiano da aldeia também se conta pela mesa. Comer junto ajuda a sustentar confiança.
Cuia com larvas, alimento ancestral em contextos amazônicos.
Alimento ancestral, saber transmitido e resistência viva. O gesto de comer também comunica pertencimento.
“Sentar junto para preparar alimentos, usar artesanato, brincar e conversar ajuda a construir o vínculo terapêutico.”

Para Vitória, é no cotidiano compartilhado que a relação profissional deixa de soar impositiva e passa a ser reconhecida como confiança, proximidade e aprendizado mútuo.

Vitória Rodrigues sentada sobre uma canoa no rio, cercada pela mata.
A presença no território também passa pelo silêncio, pela água e pelo tempo repartido com a comunidade.

Um povo vivo no alto Rio Moa

O espaço amplo, o céu pesado de chuva, a grama curta e as casas tradicionais compõem uma paisagem em que a vida corre sem apartar cultura, trabalho, espiritualidade e convivência. A aldeia não é cenário. É organismo vivo. E é justamente por isso que a presença de uma psicóloga que conhece o peso simbólico desse território pode produzir outro tipo de vínculo. Vitória não fala em neutralidade. Sua caminhada deixa claro que cuidar também é reconhecer história, desigualdade, pertencimento e potência.

“Hoje, eles estão organizados em seis aldeias: Haka, Pãna, Abacateral, Recanto Verde, Maloquinha e Inu Isã, sendo a sede a Aldeia Vaka Visu, localizada próxima à Serra do Divisor. São conhecidos como ‘povo da montanha’ ou ‘povo da onça’, e mantêm forte relação com a terra por meio do plantio e das práticas tradicionais”, diz Vitória. A fala dela abre a porteira certa para compreender quem são os Nukini. No alto rio Moa, no extremo oeste do Acre, no município de Mâncio Lima, esse povo carrega uma história marcada pela permanência. Os Nukini pertencem à família linguística Pano e seguem fincados num território onde floresta, água, roçado, memória e parentesco não vivem separados. A terra, ali, é caminho de transmissão entre os mais velhos e os mais novos, é o lugar onde a cultura não se apresenta em vitrine, mas respira no dia a dia.

A caminhada do povo Nukini atravessou a violência das frentes extrativistas, a pressão sobre o território, o peso dos antigos seringais e as muitas tentativas de apagar modos próprios de existir. Ainda assim, a comunidade seguiu de pé. Seguiu no modo de organizar a vida comunitária e no esforço cotidiano de proteger o que é seu. Quando Vitória se aproxima das mulheres e das crianças da Aldeia Isã com escuta e cuidado, ela não encontra um povo parado no tempo. Encontra um povo vivo, organizado, atravessado por desafios contemporâneos e, ao mesmo tempo, profundamente enraizado em saberes que não nasceram ontem.

É por isso que aquelas crianças sorrindo na beira do Moa dizem tanto. Elas não são apenas a imagem bonita de uma visita. Elas são a prova de continuidade de um povo que segue fazendo da floresta uma casa habitada. Entre a Serra do Divisor e o curso barrento do rio, o que se vê é uma forma de existência onde o futuro depende da memória e onde a memória só permanece viva porque ainda há território, comunidade e luta. Nesse chão, a volta de Vitória Rodrigues ganha outra dimensão. Não é somente o retorno de uma psicóloga ao Acre. É o encontro entre cuidado, identidade e resistência no coração de um povo que continua escrevendo sua própria história.

“Dar voz e oferecer escuta à minha gente é, antes de tudo, um compromisso afetivo e social.”

Vitória Rodrigues no Instagram

O vídeo abaixo amplia a experiência da reportagem com um registro direto do trabalho e da presença de Vitória no território.

Advertisement
TJ ACRE Maio Laranja1350x300
Continue Reading

Tendência