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Nova Xapuri – Obra e Futuro
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Redação
Reportagem Premiada
Este texto foi o vencedor do 1º lugar na categoria Texto no 3º Prêmio de Comunicação do Governo do Estado do Acre – Marcos Vicentti (2025).

Xapuri amanhece entre o som do rio e o eco das máquinas. No horizonte, a Ponte da Sibéria desenha sua curva sobre o Acre como quem costura uma cidade partida ao meio. Rio acima, ainda cruza a velha balsa; rio abaixo, a catraia é quem continua dando o tom — lembrança de um tempo que começa a se despedir.
O concreto novo se ergue sobre o curso lento do rio e anuncia uma travessia que vai além da geografia. Por décadas, Xapuri viveu dividida por uma distância curta e, ao mesmo tempo, imensa. De um lado, o centro urbano e o movimento das praças; do outro, o bairro da Sibéria e as comunidades rurais que, até hoje, dependem do ritmo das águas para chegar à cidade. Entre os dois mundos, o cotidiano se fazia de espera, de travessias contadas pelo relógio da balsa e pela força do remo.






Agora, o som metálico das ferragens e os cheiros do cimento e do asfalto recém-assentados anunciam um novo tempo. A ponte e a estrada, a Variante, formam uma mesma linha de futuro, abrindo passagem para o movimento das pessoas, da produção e das ideias. É o fim de uma era em que a vida parava quando o rio enchia ou a lama tomava o caminho.
Xapuri se transforma diante dos próprios olhos. A cidade que nasceu da borracha, que resistiu nas lutas extrativistas e guardou a memória de Chico Mendes, volta a ser ponto de encontro. Cada estaca fincada na beira do Acre e cada quilômetro pavimentado da Variante são também um gesto de permanência, de quem acredita que o interior merece o mesmo chão firme que sustenta as capitais.
A nova Xapuri começa ali, entre o barulho das máquinas e o silêncio da água que segue correndo, levando, com ela, o último vestígio de uma travessia que ficou para trás.

O Rio Acre reflete o concreto novo e as lembranças antigas de uma travessia que sempre separou Xapuri em dois mundos: o centro e a Sibéria. À beira do barranco, o educador Elias da Costa Chaves observa o avanço da ponte como quem reconhece o fim de um ciclo. “O isolamento aqui é o que mais pesa. Antes da balsa, a canoa tinha hora pra funcionar. Oito, nove da noite já parava. Quem ficasse do lado de cá, ficava preso. Agora, com a ponte, a gente vai e volta a hora que quiser. Sai do isolamento. Pode levar a família, visitar os parentes. Minha mãe tem 85 anos. Com a ponte pronta, posso atravessar com ela quando quiser. É liberdade.”
Elias fala com a tranquilidade de quem esperou uma vida inteira. Ele lembra do pai, seringueiro, que morreu sonhando com essa obra. “O velho dizia que um dia iam fazer. Mas era só conversa. Toda eleição, promessa. Só zoada. Quando o governador Gladson veio e prometeu. Está cumprindo com a promessa dele. Fizeram o lançamento aqui no salão comunitário, ele mostrou uma saia e disse que se não cumprisse ia vestir essa saia. Eu acreditei que ele ia fazer essa ponte.”

O educador, que hoje atua em uma escola em Epitaciolândia, nasceu no Seringal Barra e, quando chegou na Sibéria, iniciou a vida de travessias, estudava do outro lado e todos os dias fazia o mesmo trajeto. “Descia o barranco liso, no escuro, com lanterna. Quando chovia, a gente caía na lama, voltava pra casa molhado. Era rotina. A gente fez o fundamental aqui, o médio do outro lado. Para atravessar, era na remada. Motor de rabeta é coisa nova. Antes era remo, força de braço. Agora os meninos vão estudar de ônibus. Vão ter o que a gente não teve.”
Com o olhar preso na estrutura que já anuncia um novo futuro, Elias descreve a obra em uma expressão: elo de ligação. “Uma ponte une. Ela junta o que o rio separa. Integra. E aqui tudo é Xapuri. Antes era só promessa, agora é realidade. Isso aqui muda tudo. É o fim do isolamento.”
Enquanto Elias conta sua história, como é de costume no interior, chega junto mais gente para a conversa. Josimar dos Santos Silva, 47 anos, enfermeiro e líder comunitário do Bairro Sibéria, já marca para daqui há pouco a entrevista. “Eu nasci aqui, moro aqui há 47 anos. Vi muita gente sofrer por falta de travessia. A catraia fechava às dez da noite e a gente ficava isolado. Já fizemos parto na beira do rio porque não dava tempo de chegar no hospital. Já perdemos gente que infartou do lado de cá, que foi furada, que precisou de socorro e não conseguiu atravessar.”

Em um relato que marcou profundamente a comunidade, ele conta como uma noite trágica selou o destino de tantas pessoas naquele verão de 2012. “Uma família voltava de um culto, e a catraia bateu num pau no rio seco. Três pessoas morreram. Tinha criança, idoso, gente que não sabia nadar. A gente ficou gritando na beira do barranco. Foi um desespero. Teve morador que caiu na água para ajudar essas pessoas, outros pegaram canoa, desceram rapidamente. Muitos foram salvos, outros ficaram enganchados no galho, mas muitas pessoas mesmo assim foram salvas. Hoje, onde está localizada a balsa, foram retiradas pessoas lá já quase morrendo. A gente sofreu essa fatalidade em decorrência da ponte que a gente não tinha na época.”
Para Josimar, a ponte é mais que estrutura: é um reparo histórico, após vários pedidos e até abaixo-assinados entregues para governantes ao longo dos anos. “Essa é uma luta de décadas. A comunidade nunca perdeu a fé. Quase metade da população de Xapuri mora desse lado. Quando a balsa para, tudo para. Agora a gente vai poder ir e vir, trabalhar, estudar, viver com dignidade.”
Ele fala do bairro com orgulho. “Hoje a Sibéria tem mais de 3 mil casas, tem mercado, farmácia, agropecuária. É um bairro que cresceu, que tem história. Aqui todo mundo se conhece, todo mundo se ajuda. Eu amo esse lugar. Não saí quando era difícil, não vou sair agora. Essa ponte chega no tempo certo. Antes da ponte era atraso. Depois da ponte, é futuro.”

Com extensão total de 363 metros, a obra tem orçamento de mais R$ 40 milhões, sendo R$ 15 milhões provenientes de emenda parlamentar do senador Marcio Bittar e R$ 25 milhões de investimento do Estado.
Na sede do Deracre, em Rio Branco, Sula Ximenes fala com a calma de quem conhece cada detalhe da obra. Hoje, ela preside a autarquia e acompanhou a Ponte da Sibéria e a Estrada da Variante desde o primeiro traço de projeto, quando era chefe de gabinete. “Foi um sonho muito antigo daquela população”, diz, relembrando o dia da ordem de serviço, em 2022. “Eu estive lá quando o governador Gladson prometeu, e nós licitamos com recurso próprio. Desde então começou a obra, e agora, finalmente, está próximo para a gente fazer essa inauguração.”
Orgulhosa do trabalho de todos os envolvidos e do crença do governador em sua gestão, ela afirma: “Será um marco na história de Xapuri deixar a balsa para trás. Eu sempre, quando vou lá, vejo assim: é o passado e o futuro lado a lado. Porque quando a gente sobe ali na ponte, olhando, a gente vê a balsa lá embaixo.”

Sula explica que “fazer uma obra dessa não é fácil, e ela não é simples. É uma obra complexa”. Foram três anos de desafios técnicos, desapropriações e ajustes. “Os desafios foram muitos, tanto na parte de recurso quanto na execução, mas o governo sempre aportando, nunca faltou recurso, porque era uma prioridade do governador Gladson.”

Ela fala com firmeza sobre o método: “Uma obra dessa é feita por muitas mãos. Não é só licitar e contratar a empresa. Vem a parte de desapropriação, a parte social, toda feita pelo Deracre, com visita às famílias que moravam ali no entorno. Fizemos tudo com cuidado, com carinho, com uma equipe eficiente.”
Ao mencionar o investimento, o tom é de responsabilidade. “O compromisso é com as pessoas. Quando se faz política com seriedade, com comprometimento, as coisas acontecem. E foi o que aconteceu ali com a ponte de Xapuri e também com a de Sena.”
Sobre o papel pessoal nesse processo, Sula sorri. “Eu me sinto honrada e agradecida em fazer parte desse momento para Xapuri. Agradeço ao governador por ter me dado essa oportunidade. Sei cada detalhe, sei o quanto de suor de todos foi empregado nessa obra.”

Do alto da ponte, o olhar alcança mais longe, segue o curso do rio e se perde na curva da estrada nova. A Sibéria se liga ao asfalto da Variante, atravessando o centro de Xapuri, como se o concreto chamasse o caminho adiante. As duas obras se encontram no mesmo gesto: o de romper o isolamento e costurar a cidade ao resto do Acre. Juntas, refazem o eixo de uma nova Xapuri.
O dia segue e o sol corre sozinho sobre o asfalto novo da Estrada da Variante, onde o cheiro é de mais promessa cumprida. À beira da pista, o vice-prefeito, e morador histórico da região, Vânio Miranda olha para o horizonte e fala como quem revisita a própria infância: “A gente veio de Rondônia em 1988, cheio de sonho, e minha mãe preocupada: ‘Como é que os meninos vão estudar?’. Como estava na terraplanagem, a gente veio todo animado. Vamos para a escola tranquilo, de bicicleta, de carro. E aí, no decorrer de algum tempo para, isso não foi mais se tornando realidade. A estrada foi se acabando e o asfalto que era pra ser verdade, se acabou. Não existiu asfalto.”
A voz de Vânio embarga quando lembra dos primeiros tempos. “A gente acordava quatro da manhã, meu pai ia tirar leite, e nós seguíamos pra escola. Muitas vezes a bicicleta atolava, o pneu enchia de lama e a gente deixava na beira da estrada pra chegar a pé. Era assim todo dia.”

A Variante foi durante décadas sinônimo de isolamento. “Essa estrada aqui já tirou mais de cinco mil litros de leite por dia. Tinha gente que tirava mil litros sozinho”, conta Vânio, agora vice-prefeito e empresário. “Meu pai, Toninho Miranda, tirava setecentos. A produção era forte, mas a falta de estrada acabou com tudo. As bueiras quebravam, o caminhão da feira, que passava toda sexta-feira, atolava. A gente ia com o trator puxar.”
Ele respira fundo e diz o que muitos moradores pensam: “Foram mais de trinta anos de espera. Muita gente morreu sem ver esse asfalto. Meu pai, meus tios, Dona Isaura, o Zezinho Baiano. Mas o sonho ficou. Agora tá aqui, pronto. A estrada voltou a viver. Tem caminhão da feira toda sexta, ônibus passando, táxi passando. A gente nunca imaginou ver táxi passando na porta.”
Do outro lado da cidade, o taxista Jamilson Rodrigues, 30 anos de praça, fala do mesmo asfalto com outro olhar, de quem vive na estrada todos os dias. “Rapaz, isso aqui é uma benção. Quando cheguei em Xapuri, a estrada era de barro puro. A gente atolava tanto. A Variante era um desejo de muita gente, do seu Toninho Miranda, Zezé Miranda, era um sonho, mas infelizmente eles não alcançaram. Agora, com ela pronta, a gente economiza tempo, gasolina e vida. Dá uns oito, dez minutos a menos por corrida, e a viagem pra Rio Branco ficou mais leve.”
A Estrada da Variante, com 17,5 km, liga o centro de Xapuri à BR-317, criando uma rota alternativa à antiga Estrada da Borracha. A obra foi executada pelo Governo do Estado, por meio do Deracre, com investimento de aproximadamente R$ 30 milhões, oriundos de recursos estaduais e de emenda parlamentar federal.

A estrada que cortava a esperança agora costura a cidade de novo. E Sula Ximenes sabe o peso que carrega. “A Variante foi uma das obras mais difíceis que já enfrentamos. Mais até que a ponte da Sibéria”, diz, com a serenidade de quem acompanhou cada metro deste sonho. “Foram 17 quilômetros com desapropriações, galerias, trechos instáveis. Em certo momento, faltou recurso, porque era uma emenda parlamentar, e depois conseguiu ser regularizado. Mas o governador Gladson Cameli manteve o compromisso.”
Sula fala com a precisão de quem viu o projeto sair do papel. “A maior dificuldade é essa, transformar um sonho em obra. As pessoas olham de fora e acham que é só colocar máquina. Mas quem está dentro sabe o processo: licitação, adequação, análise técnica, financeira. A estrada demorou, mas ficou pronta, e o resultado tá aí: conecta Xapuri ao desenvolvimento, encurta o caminho pra Rio Branco e devolve dignidade a quem viveu décadas no barro.”
Ao longo da via, há sinais de renascimento. Vânio conta que os produtores voltaram a acreditar. “O leite está voltando. Tem gente que tinha parado e voltou a tirar leite. Estão plantando de novo: mandioca, banana, abacaxi, jambu. Toda sexta o caminhão chega no mercado de Xapuri carregado da produção da Variante. É renda, é movimento. Essa estrada é vida pra nossa cidade.”

Ele fala devagar, como quem mede as palavras para que fiquem gravadas. “Deus coloca a gente no lugar certo, na hora certa. Eu cresci nessa estrada, e hoje sou vice-prefeito da cidade, com a estrada levando o nome do meu pai. É uma responsabilidade grande, mas é gratificante. O prefeito Maxwell Maia é um irmão que eu ganhei. É um cara que pensa grande, e junto com o governador Gladson e a vice-governadora Mailza, a gente conseguiu fazer o que parecia impossível.”
No caminho de volta, o carro desliza sobre o asfalto novo. Vânio olha o movimento dos veículos e conclui: “Você tá lá na capital, vem à Brasileia, mas não ia vir em Xapuri, porque ficava, como o ditado popular, de manga, e hoje as pessoas veem uma rotatória daquela, já entram na Variante, e com isso traz o movimento para a nossa cidade.”
A história de Vânio e da família Miranda é, em si, um pedaço da própria estrada. Foram décadas de trabalho e persistência, sempre com os pés no barro e o olhar adiante: “Meu pai sempre dizia: ‘Faça algo por alguém. Faça o melhor, cada dia mais’.”





O rio e a estrada agora se encontram na mesma linha de horizonte. A ponte da Sibéria e a Estrada da Variante se constroem como gestos que mudam o destino de uma cidade. Xapuri, que aprendeu a viver entre margens e atoleiros, volta a se reconhecer inteira. O concreto e o asfalto costuram a história interrompida por décadas de espera, ligando o centro à Sibéria, o campo à cidade, o passado ao que ainda está por vir.

A nova Xapuri nasce dessas conexões, da persistência de quem acreditou e da decisão de um governo que fez chegar o investimento certo até onde o mapa costuma esquecer. A ponte e a estrada transformam a paisagem e, com ela, a vida. E quando o sol reflete sobre o rio e sobre o asfalto, é possível ver que a cidade, enfim, se completou, unida, firme, e voltada para o futuro.
Realização Bari Comunicação – Texto de Arison Jardim – Fotos de Sérgio Vale – Vídeo de Jean Andrade – Direção Geral de Alexandre Nunes
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Especiais
Macadame: a solução de engenharia que pode mudar o futuro da BR-364 no Acre
Published
2 semanas agoon
21/05/2026By
Redação
O DNIT adotou o macadame hidráulico como principal solução estrutural para a rodovia — e a mudança vai muito além do asfalto.
do trecho central da BR-364 assentados sobre o solo mais instável do país
trechos com macadame de 2015–2016 seguem em boa trafegabilidade
pedra britada compactada que distribui tensões e drena internamente
A reconstrução da BR-364 no Acre avança para uma nova etapa baseada em engenharia adaptada às condições amazônicas. O Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT) adotou o macadame hidráulico como principal solução estrutural para garantir maior eficiência e durabilidade à rodovia federal.
Segundo o superintendente regional do DNIT no Acre, engenheiro civil Ricardo Araújo, a escolha da técnica representa uma mudança significativa na forma de construir e manter estradas na região.
“Quando o terreno natural não oferece resistência suficiente, a engenharia precisa suplementar essa deficiência com mais estrutura.”
— Ricardo Araújo, superintendente regional do DNIT no Acre
Grande parte do trecho central da BR-364, aproximadamente 400 quilômetros, está assentada sobre a tabatinga — um solo silto-argiloso altamente expansivo, sensível à água e considerado um dos mais complexos do país para obras rodoviárias.
Estudos técnicos indicam que essa formação pode atingir centenas de metros de profundidade, e não há solos bons nas proximidades, impossibilitando soluções tradicionais. Além disso, a tabatinga não pode ser melhorada por meio de simples adição de cal ou cimento, dada a sua composição química peculiar.
🌎 O problema do solo
📍 Por que a tabatinga destrói a pista
🗺️ O solo importa
Nesse tipo de terreno, o problema não começa no asfalto, mas no subleito — a base natural da estrada. Durante o verão amazônico, o solo perde umidade, retrai e cria fissuras profundas. No inverno, absorve grandes volumes de água, expandindo e perdendo resistência. O resultado é o recalque diferencial.
Historicamente, muitas rodovias amazônicas foram dimensionadas com métodos desenvolvidos para outras regiões do Brasil, sem considerar as características geológicas locais. Isso gerou estruturas insuficientes e um ciclo vicioso de degradação.
“O buraco aparece na superfície, mas o problema está embaixo. Se a deficiência estrutural continua, tapar o buraco resolve hoje e ele volta no mês seguinte.”
— Ricardo Araújo, DNIT Acre
O macadame hidráulico surge como resposta direta a essa deficiência estrutural. A técnica consiste na execução de uma base formada por camadas espessas de pedra britada, estabilizada granulometricamente e compactada. Essa estrutura funciona como uma camada rígida e drenante que substitui a função que o solo deveria exercer, mas não consegue.
“Na engenharia rodoviária, esse mecanismo é conhecido como distribuição de tensões: o peso dos veículos deixa de chegar concentrado ao subleito e passa a ser dissipado pela camada de pedra, evitando que o pavimento afunde na lama profunda”, ressalta Araújo.
Além disso, o macadame atua como camada drenante. A drenagem interna permite que a água atravesse a estrutura sem comprometer a pista — fator essencial em áreas de várzea e clima extremo como o Acre. “Na prática, o macadame funciona como um ‘escudo estrutural’ entre o pavimento e a tabatinga.”
Infográfico técnico
Como o macadame protege a BR-364 — comparativo de estruturas
Representação esquemática. Fonte: DNIT / declarações do eng. Ricardo Araújo (texto da matéria).
⚙️ Infografia técnica · Como o macadame protege a BR-364
Especialistas do DNIT definem o macadame hidráulico como o “antídoto” para o problema histórico da BR-364. Estradas com deficiência estrutural entram em um ciclo contínuo e oneroso: buracos são tapados repetidamente, mas a origem do problema persiste.
A reconstrução estrutural exige investimento inicial mais alto, porém diminui de forma significativa os gastos ao longo do tempo. Trechos recuperados com macadame podem reduzir despesas anuais de manutenção de centenas de milhares de reais para valores muito menores. Diagrama do problema
O ciclo vicioso do pavimento sem base estrutural — clique em cada etapa
Fonte: declarações do eng. Ricardo Araújo, DNIT Acre (texto da matéria).
“Estradas mal estruturadas custam caro para sempre. Quando corrigimos a origem do problema, a rodovia passa a exigir muito menos intervenção.”
— Ricardo Araújo, DNIT Acre
A eficácia do método já pode ser observada na própria BR-364. Trechos executados em macadame hidráulico entre 2015 e 2016 permanecem em boas condições de trafegabilidade quase dez anos depois, mesmo submetidos aos rigorosos ciclos de chuva amazônica.
Esses resultados reforçaram a decisão técnica de adotar o macadame como padrão estrutural nos novos projetos executivos. “Hoje já temos trechos executados com macadame que continuam bons, mesmo enfrentando inverno rigoroso. Isso mostra que a técnica funciona para a realidade do Acre”, afirma o engenheiro.
Análise comparativa (ilustrativa)
Custo acumulado de manutenção ao longo do tempo
Valores ilustrativos baseados em dados relativos citados pelo DNIT. O macadame pode reduzir despesas anuais de manutenção de centenas de milhares de reais para valores significativamente menores.
O engenheiro explica que, mesmo diante da complexa logística de transporte de pedra — necessária porque o Acre não dispõe deste material — os estudos apontam que a durabilidade obtida compensa o custo adicional.
O DNIT reconhece que a BR-364 vive hoje um paradoxo operacional. Enquanto a solução definitiva exige reconstrução estrutural, a rodovia não pode ser interrompida — representa a única ligação terrestre contínua entre municípios acreanos. Sem manutenção emergencial, parte do estado poderia enfrentar isolamento severo.
Assim, os serviços de tapa-buracos e conservação continuam sendo executados como medida de sobrevivência operacional.
“A BR-364 é uma rodovia social, dependemos dela no dia a dia. Precisamos mantê-la aberta, fazendo manutenção, tapando buracos e melhorando os pontos críticos, enquanto avançamos para uma solução mais duradoura.”
— Ricardo Araújo, DNIT Acre
A adoção do macadame representa uma mudança de paradigma na infraestrutura rodoviária do estado. Em vez de tentar adaptar modelos tradicionais à região amazônica, o projeto passa a considerar as características naturais do território.
O método é especialmente indicado para áreas com solo úmido, tráfego intenso e regimes climáticos extremos — exatamente as condições encontradas no interior do Acre.
Para Araújo, o impacto vai além da engenharia rodoviária. “A BR-364 é uma rodovia estratégica para o Acre. Ela conecta municípios, garante o deslocamento da população, o transporte de pacientes, o abastecimento das cidades e o funcionamento dos serviços públicos.”
“Quando fortalecemos a estrutura da estrada, estamos conectando pessoas, reduzindo o isolamento e assegurando melhores condições de vida.”
— Ricardo Araújo, DNIT Acre
Macadame: a solução de engenharia que pode mudar o futuro da BR-364 no Acre
Foto: Sérgio Vale / Secom · Cedida (DNIT)
O inimigo invisível que nasce no subleito
Extensão do problema ao longo da rodovia
Por que o macadame é diferente
O antídoto para o ciclo de buracos
Evidência prática na própria BR-364
O dilema entre manter e reconstruir
Engenharia adaptada à Amazônia
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No Instagram, pré-candidatos ao Governo do Acre travam disputa por poder, narrativa e território político
Published
4 semanas agoon
07/05/2026By
Redação
No feed da pré-campanha
Entre 2 de fevereiro e 5 de maio de 2026, Mailza Assis, Tião Bocalom, Alan Rick e Thor Dantas apareceram em 1.065 publicações públicas monitoradas pela Pop IntelBox, somando cerca de 529,5 mil interações entre curtidas e comentários.
Antes de a campanha oficial tomar as ruas, os bairros, os ramais e os palanques do Acre, a eleição de 2026 já começou a se mover numa arena onde cada gesto vira mensagem e cada postagem tenta ocupar um pedaço do imaginário público: o Instagram. Entre 2 de fevereiro e 5 de maio de 2026, Mailza Assis, Tião Bocalom, Alan Rick e Thor Dantas apareceram em 1.065 publicações públicas monitoradas pela Pop IntelBox, somando cerca de 529,5 mil interações entre curtidas e comentários. O número não mede voto, nem preferência eleitoral, nem aprovação de governo. Mede outra coisa, talvez mais sutil e igualmente decisiva neste momento anterior à campanha: quem fala mais, quem mobiliza melhor, quem tenta se tornar dono de determinados temas e qual personagem político cada pré-candidato busca vestir diante do eleitor acreano.
A disputa digital no Acre não é apenas uma corrida por curtidas. É uma briga por papel político. Bocalom tenta se firmar como o gestor que entrega obra concreta, que aponta para o asfalto, o elevado, a rua modificada e diz ao eleitor: está feito. Mailza Assis tenta transformar a continuidade do governo em presença própria, com um rosto feminino, institucional, religioso, territorial e cuidador. Alan Rick trabalha a imagem do senador que traz recurso, ocupa Brasília, entra em debates nacionais e tenta converter mandato em força eleitoral. Thor Dantas busca abrir espaço como alternativa técnica, principalmente a partir da saúde, falando menos, mas tentando falar a partir de uma credencial profissional.
O primeiro corte dos dados revela uma diferença importante entre barulho e densidade. Tião Bocalom foi o nome mais presente no período, com 600 publicações e 223.751 interações. É quase uma ocupação diária do feed, uma estratégia de presença constante, como quem finca bandeira no território digital todos os dias para não deixar o assunto esfriar. Mailza Assis publicou menos da metade, 255 posts, mas chegou muito perto no engajamento total, com 219.503 interações, e liderou a média por publicação, com 860,8 interações por post. Alan Rick apareceu com 167 publicações, 72.256 interações e média de 432,7. Thor Dantas teve a presença mais estreita, com 43 posts, 13.988 interações e média de 325,3.
Essa diferença conta uma história política. Bocalom opera pela repetição e pela visualidade da entrega. Mailza aposta na intensidade de cada aparição. Alan trabalha com uma comunicação mais disciplinada de mandato, marcada por hashtags, temas legislativos e pautas de confronto. Thor ainda está numa fase de afirmação, tentando convencer o público de que sua experiência técnica pode virar projeto de poder.
No caso de Tião Bocalom, a narrativa é direta e quase material. O prefeito de Rio Branco aparece como o homem da obra, da máquina, da entrega física, do antes e depois. Das 600 postagens, 226 foram classificadas no eixo de gestão, obras e entregas. O conteúdo de maior engajamento de todo o monitoramento foi dele: um vídeo publicado em 21 de março de 2026 sobre o Elevado Mamédio Bittar, com a frase “Está entregue! Elevado Mamedio Bittar é do povo. Rio Branco avançando”. A publicação somou 6.634 interações, sendo 6.212 curtidas e 422 comentários.
A força de Bocalom está naquilo que pode ser filmado. A obra vira prova, o vídeo vira palanque, o elevado vira argumento. Em uma política marcada muitas vezes pela promessa, ele tenta sustentar a comunicação no concreto. A imagem de gestor executor ganha corpo quando o eleitor vê a estrutura de pé, a via aberta, o trânsito alterado, o equipamento público entregue. O risco também mora aí. A narrativa que funciona em Rio Branco precisa atravessar o mapa inteiro do Acre. Uma eleição estadual exige que o capital político municipal caminhe para além da capital, chegue aos municípios do interior, aos rios, às terras firmes, aos lugares onde a obra vista no Instagram pode parecer distante da vida cotidiana.
Mailza Assis aparece em outro registro. Sua comunicação mistura governo, assistência social, segurança pública, saúde, fé, família, eventos populares e presença territorial. O eixo mais frequente em seu perfil foi assistência social, com 118 posts, seguido por gestão, obras e entregas, com 107, e agenda e comunidade, com 103. A maior média de engajamento apareceu nos conteúdos ligados a família, fé e valores, com 1.447,9 interações por post, e segurança pública, com 1.044,1.
A governadora trabalha uma fronteira delicada: precisa ser continuidade sem parecer apenas extensão de outro nome. Por isso, a comunicação tenta costurar origem humilde, missão pública, maternagem política, fé e autoridade institucional. Em 3 de abril, uma publicação com a frase “Sou uma mulher comum, como tantas outras do nosso Acre” alcançou 4.499 interações. A força da mensagem está no deslocamento: Mailza não se apresenta apenas como ocupante do cargo, mas como alguém que reivindica pertencimento ao Acre comum, ao Acre das mulheres que trabalham, cuidam, creem e sustentam famílias longe dos salões de decisão.
Quando fala da contratação de aprovados do Iapen, Mailza encontra outro ponto sensível. O vídeo teve 4.180 interações e 706 comentários. Segurança pública e funcionalismo costumam mobilizar uma audiência que não apenas curte, mas cobra, celebra, pressiona e participa. A política aparece ali como promessa de estabilidade, emprego, autoridade do Estado e resposta a uma área que atravessa a vida das famílias acreanas. A vantagem de Mailza está na densidade: publica menos que Bocalom, mas alcança quase o mesmo engajamento total. Seu desafio é construir autonomia simbólica diante do capital político herdado de Gladson Cameli.
Alan Rick ocupa um terceiro lugar nessa disputa. Sua comunicação tem marca mais padronizada, com uso recorrente de hashtags como #acre, #aquitemtrabalho, #alanpeloacre e #alanrickpeloacre. O senador fala de mandato, recursos, saúde, infraestrutura, Senado, emendas e pautas nacionais. Seu perfil teve 77 publicações no eixo de política eleitoral, 73 em gestão, obras e entregas, e 43 em saúde.
O dado mais politicamente relevante em Alan não está apenas no total de interações, mas no peso dos comentários. Foram 12.365 comentários dentro de 72.256 interações, uma proporção de 17,1%, superior à dos demais monitorados. Comentário não é sinônimo automático de apoio. Pode ser adesão, crítica, cobrança, militância, ironia ou conflito. Mas mostra que Alan aciona uma audiência mais disposta a responder. Ele não apenas passa pelo feed; ele provoca reação.
Essa característica combina com a assinatura política que tenta construir. Alan aparece como o parlamentar que conecta o Acre a Brasília, que transforma debate nacional em ativo local e emenda parlamentar em argumento eleitoral. Um vídeo de 25 de fevereiro sobre o PL 2294/2024 e o exame nacional de proficiência médica chegou a 3.782 interações. Outro post, sobre pesquisa eleitoral para o governo do Acre, somou 2.386 interações e 436 comentários. Sua força está na clareza da marca: mandato, recurso, saúde e confronto. Seu risco está no próprio combustível dessa comunicação. O atrito engaja, mas também amplia rejeições, endurece campos e pode transformar visibilidade em controvérsia permanente.
Thor Dantas aparece em escala menor, mas com uma tentativa clara de diferenciação. Foram 43 publicações, 13.988 interações e média de 325,3 por post. O volume ainda não permite compará-lo em pé de igualdade com os demais, mas permite ver uma estratégia em formação. Thor tenta converter autoridade profissional em capital político. Seus temas mais recorrentes foram saúde, agenda e comunidade, além de política eleitoral. O post de maior engajamento tratou de sua possível candidatura em 2026 e somou 1.584 interações. Outro vídeo, sobre baixa cobertura vacinal contra gripe, chegou a 856 interações.
O lugar que Thor tenta ocupar é o do técnico-político. Num cenário em que Bocalom fala como gestor executor, Mailza como liderança de continuidade e Alan como articulador de mandato, Thor tenta aparecer como especialista preparado. Saúde pública, gestão, crítica institucional e viabilidade eleitoral formam o centro de sua comunicação. A força está na diferenciação. O limite está na escala. Para crescer, precisará transformar reputação profissional em presença territorial, capilaridade política e linguagem digital mais frequente. Os posts de maior tração contam o que move o Instagram político acreano. Em Bocalom, a força vem das obras e da mobilidade urbana. Em Mailza, os picos aparecem quando governo, fé, festa popular, posse, segurança e origem pessoal se cruzam. Em Alan, saúde, Revalida, saneamento, pesquisa eleitoral e temas nacionais puxam reação. Em Thor, a audiência cresce quando a candidatura deixa de ser sombra e passa a ser dita. O engajamento, portanto, não nasce apenas da popularidade individual. Ele nasce de evento, emoção, conflito, imagem e oportunidade.
O vídeo domina essa gramática. Em Mailza, os vídeos alcançaram média de 1.176,8 interações, acima dos carrosséis e imagens. Em Bocalom, a média dos vídeos foi de 517,2. Em Alan, 555,1. Em Thor, 408,1. A política no Instagram depende de rosto, voz, cena e ritmo. A obra precisa aparecer. A emoção precisa ser encenada. A fala precisa caber em poucos segundos. A presença pública passa a ser também performance audiovisual.
No fundo, cada pré-candidato tenta ensinar o eleitor a enxergá-lo de uma determinada forma. Bocalom quer ser reconhecido como quem faz. Mailza quer ser reconhecida como quem cuida e continua, mas com nome próprio. Alan quer ser reconhecido como quem articula, entrega e enfrenta. Thor quer ser reconhecido como quem entende tecnicamente dos problemas e pode governar com método. Essa é a disputa real por trás das curtidas: a formação antecipada de reputações.
O Instagram, nesse momento, funciona como um laboratório da eleição de 2026. Ali, os pré-candidatos testam linguagem, medem temperatura, aproximam aliados, tensionam adversários e tentam descobrir quais temas pegam fogo no terreiro digital. Os dados não dizem quem vencerá a eleição. Mas mostram que a campanha já começou antes da campanha, no terreno das imagens, dos comentários, das narrativas e da tentativa de ocupar um lugar fixo na cabeça do eleitor acreano.
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Design, ancestralidade e a disputa pelo valor da floresta
Published
1 mês agoon
23/04/2026By
Redação
Especial É Pop 🌿 Matéria Especial
Design, ancestralidade e a disputa pelo valor da floresta
José Luiz de Paula Jr., ecodesigner, educador e fundador do Instituto dos Sentidos. | Foto: Acervo pessoal
Falar com José Luiz de Paula Jr. é entrar em uma discussão que ultrapassa o design, a perfumaria e a estética dos produtos da floresta. O que ele coloca em primeiro plano é uma disputa mais profunda: quem nomeia, transforma, protege e se beneficia da biodiversidade amazônica.
Em sua leitura, não há bioeconomia possível sem reconhecimento do saber ancestral, repartição concreta de benefícios e permanência digna de povos indígenas, quilombolas e ribeirinhos em seus próprios territórios. Sua trajetória parte de uma memória íntima e anterior ao circuito internacional em que seu trabalho passou a circular. Antes dos prêmios, das vitrines e do reconhecimento fora do país, está a formação sensorial construída com o avô, Zé Vicente, entre o Vale do Paraíba e o asfalto de São Paulo.
É dessa experiência, ligada ao cultivo, ao cheiro das plantas e ao que ele define como “caminho da percepção natural”, que nasce uma compreensão do olfato não como ornamento, mas como linguagem, arquivo e ferramenta de leitura do mundo. Ao longo dos anos, José Luiz deslocou esse repertório para uma prática voltada às comunidades da Amazônia. Em vez de tratar design como acabamento ou embalagem, ele o apresenta como instrumento antropológico e econômico.
Em sua formulação, perfumes, frascos, cores, grafismos e conceitos de marca podem operar como tradução de identidades coletivas — desde que não apaguem a origem dos conhecimentos nem repitam a lógica histórica de extração sem retorno. O ponto central de sua fala está aí: agregar valor, sem retirar das comunidades o domínio sobre aquilo que produzem e sabem.
O jovem indígena não quer ser um urbano deslocado; ele quer ser um protagonista em sua própria terra. — José Luiz de Paula Jr.
Zé Vicente, avô de José Luiz. “Um homem da terra, do cultivo, das plantas.” | Foto: Acervo pessoal
Antes de falar de design e bioeconomia, você frequentemente menciona o avô, Zé Vicente. O que essa relação tem a ver com o trabalho que você desenvolve hoje?
“Minha formação sensorial começou com ele. Era um homem da terra, do cultivo, das plantas. Com ele aprendi que o olfato é o sentido mais primitivo e mais verdadeiro que temos. Antes de qualquer teoria de design, aprendi a ler o mundo pelo cheiro das coisas. Esse ‘caminho da percepção natural’ é o que me guia até hoje quando entro em uma aldeia ou em uma floresta.”
Você costuma dizer que o olfato é o “patrono da felicidade” e que o design deve acessar a memória afetiva. Como ocorre o seu processo de “escuta olfativa” para traduzir a identidade de um povo em produto?
“O design, para mim, só faz sentido se for um agente de transformação. Enxergo perfumes e embalagens como instrumentos antropológicos. Através do olfato, das cores e das formas, traduzimos o comportamento de grupos étnicos — sejam indígenas, quilombolas ou ribeirinhos. O corpo do indígena é mídia; ele comunica estado de espírito através da pintura. Já o olfato é o nosso sentido mais vital e primitivo, muitas vezes atrofiado pela vida urbana. Meu papel como designer é resgatar essa percepção. Quando entro na mata, não vejo apenas árvores; já visualizo cores, volumetrias e frascos que embalarão aquela essência.”
José Luiz em campo, no contato direto com comunidades tradicionais da Amazônia. | Foto: Acervo pessoal
Sua vivência nos beiradões e aldeias do Acre — com Ashaninka, Yawanawá e Shanenawa — gerou perfumes bioeconômicos que chegam à Europa. O que esses povos te ensinaram sobre o tempo das coisas e sobre o valor da “floresta em pé”?
“Em busca do que chamo de ‘Brasil Profundo’, fui parar no Vale do Juruá. Foi no convívio direto com os Ashaninkas, Puyanawas, Yawanawas e Shawandawas que descobri que é possível viver com pouco, desde que esse pouco seja preenchido por uma imensa plenitude. Ali, redescobri a liberdade e a ciência em sua forma mais pura. Precisamos superar o preconceito acadêmico de que o saber tradicional não é ciência. Quem detém o conhecimento milenar da floresta é cientista da vida. Aprendi com líderes como Benki e tantos outros que a natureza não precisa ser ‘salva’ por nossa soberba humana; ela é soberana e reage às nossas ações. Nós é que precisamos da floresta para sobreviver com dignidade e saúde. O planeta continuará aqui; a questão é se nós estaremos.”
Você trabalhou com o “mel roxo de açaí” em Moju, no Pará. Como o design atua para resgatar o orgulho da comunidade e transformá-lo em ferramenta de independência econômica?
“Minha missão mudou quando vi 2 litros de um mel precioso serem vendidos em uma garrafa de plástico por um valor irrisório. Ali, decidi que o design deveria servir a quem realmente precisa: as comunidades originárias. Redesenhamos o conceito, reduzimos para 150ml com alto valor agregado e estabelecemos um modelo onde 50% do lucro retorna diretamente para a comunidade. Isso não é caridade, é justiça econômica. Precisamos romper com o ‘colonialismo contemporâneo’, onde o conhecimento da floresta é explorado sem o devido retorno a seus guardiões.”
Bioeconomia sem inovação e partilha de benefícios é apenas uma palavra vazia. — José Luiz de Paula Jr.
A palavra “bioeconomia” virou moda em fóruns globais, muitas vezes esvaziada de seu sentido humano. Onde termina o mero extrativismo e onde começa a verdadeira bioeconomia?
“Bioeconomia sem inovação e partilha de benefícios é apenas uma palavra vazia. A Amazônia abriga 33 milhões de pessoas; é um universo que exige soluções que unam a ciência acadêmica ao saber ancestral para gerar escala com ética. Como educador, meu objetivo é levar a ‘escola de perfumaria’ e o conhecimento técnico para dentro das aldeias. Quero que a juventude indígena e quilombola possa transformar sua biodiversidade em riqueza, sem precisar abandonar sua cultura. Para isso, fundamos o Instituto dos Sentidos.”
Qual é o maior desafio para garantir que os jovens dessas comunidades enxerguem futuro no seu próprio território?
“O jovem indígena não quer ser um urbano deslocado; ele quer ser um protagonista em sua própria terra. Meus projetos são profundamente inspirados em figuras que são verdadeiras bibliotecas vivas, como o xamã Tatá Yawanawa, que fez sua passagem aos 104 anos, o cacique Antonio Ashaninka e Dona Peti, o cacique Joel Puyanawa, o cacique Biraci Brasil, Biraci Júnior e Anchieta Shawandawa. Lugar de jovem indígena, quilombola ou ribeirinho é na universidade, sim, mas para que ele retorne com ferramentas que potencializem o conhecimento de seus ancestrais.”
José Luiz de Paula Jr. | Foto: Acervo pessoal
No final de maio de 2026, Macapá sediará o 2º Fórum Internacional de Bioeconomia Amazônica (FIBAM). O que os empreendedores locais, cooperativas e investidores podem esperar?
“O FIBAM 2026 terá um papel estratégico e urgente na defesa do patrimônio biológico da região. Vamos enfrentar temas críticos, como a praga que atualmente está dizimando as lavouras de mandioca no Amapá — uma doença vinda da Guiana Francesa que ameaça a base da segurança alimentar do povo amazônida. No Fórum deste ano, estaremos reunindo especialistas brasileiros e franceses, integrando a ciência acadêmica, a Embrapa e o conhecimento das comunidades locais para resolver esta e outras questões de biobotânica amazônica. O Fórum é, acima de tudo, um ponto de convergência onde o capital consciente se une à ciência de ponta e ao saber ancestral.”
Como você enxerga o papel da Amazônia no novo cenário mundial — não mais como “pulmão” a ser explorado, mas como mente criativa e dona de suas próprias patentes?
“A palavra de ordem para o futuro da Amazônia é segurança jurídica. O conhecimento ancestral e as manifestações culturais também devem ser protegidos por mecanismos de propriedade intelectual. O grande desafio da Amazônia moderna é formar profissionais que dominem a linguagem da ciência avançada para validar o que as comunidades já sabem há milênios. Temos bioativos com grande poder farmacológico e alto potencial de patenteamento, com ações comprovadas inclusive na área da neurociência. Somente com ética e garantias jurídicas asseguraremos que a riqueza gerada pela biodiversidade beneficie, prioritariamente, os guardiões da floresta.”
A floresta não pode ser tratada apenas como fonte de matéria-prima, mas como território de conhecimento, cultura e geração de valor. — José Luiz de Paula Jr., ecodesigner e fundador do Instituto dos Sentidos
Entrevistado José Luiz de Paula Jr. — Ecodesigner, educador e fundador do Instituto dos Sentidos
Fotos Acervo pessoal de José Luiz de Paula Jr.
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