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Direto ao ponto

Sem ruptura, Alysson mantém agenda de continuidade em Rio Branco

Após a saída de Tião Bocalom, a condução da prefeitura por Alysson Bestene reforça a leitura de uma transição estável, alinhada e politicamente calculada.

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Com a saída de Tião Bocalom para disputar as eleições, Alysson Bestene assumiu a gestão num movimento que, até aqui, tem sido marcado menos por gestos de ruptura e mais por sinais de continuidade cuidadosamente organizados.

O que se vê na agenda da prefeitura não é propriamente a tentativa de inaugurar um novo ciclo, mas de sustentar a imagem de que a máquina segue operando sem interrupção. E isso, em política, também é uma escolha. Ao aparecer vinculado a ações de manutenção urbana, atendimento de demandas imediatas e diálogo com lideranças comunitárias, Alysson parece atuar para consolidar uma transição estável, sem criar distância pública em relação à gestão anterior.

Esse dado chama atenção porque a sucessão poderia abrir espaço para uma inflexão mais visível, com troca de tom, mudança de prioridades ou tentativa de demarcar território. Não foi o caminho escolhido. O prefeito tem se movimentado dentro de uma linha de continuidade administrativa, preservando uma lógica já conhecida da gestão municipal: presença em agendas de rua, foco em serviços urbanos e interlocução com comunidades.

A manutenção da cidade ajuda a explicar essa estratégia. Serviços de drenagem, terraplenagem, remendo profundo, limpeza e recuperação de áreas públicas aparecem como vitrine de governo em andamento. Não se trata apenas de rotina administrativa. Trata-se de um tipo de agenda que produz efeito político imediato porque comunica normalidade, presença e resposta. Em transições de comando, esse tipo de sinal costuma ser relevante justamente por afastar a ideia de desorganização ou vazio de poder.

No mesmo sentido, a reunião com lideranças comunitárias da Baixada da Sobral reforça outra dimensão dessa condução: a manutenção do diálogo direto com setores organizados da cidade. Mais do que um encontro protocolar, a agenda funciona como marcador político. Alysson ocupa um espaço importante para qualquer prefeito que assume no curso do mandato: o de demonstrar escuta, manter pontes abertas e mostrar que a mudança no gabinete não altera, ao menos por enquanto, a interlocução com as bases.

Há um componente adicional nessa movimentação. Ao não tentar imprimir, de saída, uma identidade de contraste, Alysson evita alimentar a leitura de que sua chegada representa revisão ou correção de rumo. Pelo contrário: a escolha parece ser a de se apresentar como fiador da continuidade, alguém que assume o posto preservando o eixo político e administrativo construído ao lado de Bocalom.

Isso não é ausência de marca própria. Na prática, Alysson parece apostar que, neste momento, o ganho político não está em parecer diferente, mas em parecer seguro no comando, apto a conduzir a prefeitura dentro de uma transição pactuada e sem sobressaltos.

Tião sai do cargo, mas o grupo sabe exatamente o que quer e mantém o foco no caminho traçado para 2026. Alysson assume não como alguém que precise reinventar a gestão, mas como quem conduz a passagem com estabilidade, preserva alianças e mantém a agenda pública em funcionamento.

Direto ao ponto

Quem muito se oferece vira xepa: o ocaso do MDB do Acre

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Depois de meses oferecendo apoio a todos os lados, o partido chega às convenções sem protagonismo, sem rumo e correndo o risco de aceitar o papel que lhe restar.

Na feira, a xepa é o momento em que se vende o que sobrou. Na política, a lógica não é muito diferente. E, às vésperas das convenções de 2026, o MDB do Acre parece ter aceitado esse papel: o de quem espera que alguém, por conveniência, resolva levá-lo para casa.

Durante meses, o partido transitou entre o governo e a oposição. Conversou com Mailza Assis, alimentou expectativas de indicar o vice, abriu diálogo com Alan Rick, voltou a conversar com o governo, retomou as tratativas com a oposição e, ao final desse longo processo, conseguiu um feito raro: deixou de ser disputado para passar a ser visto como um problema pelos dois lados da disputa.  

A política segue uma regra simples: quem tem convicção escolhe; quem não escolhe acaba sendo escolhido. E, pior, nas condições impostas pelos outros. O MDB desperdiçou meses tentando aumentar seu poder de barganha e terminou reduzindo seu próprio valor político.

A situação ficou tão constrangedora que a indefinição já não está apenas entre permanecer com Mailza ou migrar para Alan Rick. Nem dentro da própria legenda parece existir unidade. Enquanto uma ala sinaliza em uma direção, outra aponta para o caminho oposto. O partido transmite a imagem de uma embarcação sem leme, incapaz de definir o próprio destino.  

O mais irônico é que o MDB ainda possui história, estrutura e tempo de televisão. Mas nenhum desses ativos substitui aquilo que o partido perdeu ao longo dessa negociação interminável: autoridade política. Autoridade não se mede apenas pelo tamanho da legenda, mas pela capacidade de tomar decisões e inspirar confiança.

Hoje, em vez de ser cortejado, o MDB espera ser chamado. Em vez de estabelecer condições, aguarda que alguém lhe diga quais condições aceita oferecer. Em vez de protagonizar a eleição, tornou-se personagem secundário de uma novela que ele próprio escreveu.

Talvez ainda embarque em uma chapa competitiva. Mas isso já não altera a percepção construída ao longo dos últimos meses. Na política, reputação também é patrimônio. E patrimônio se desvaloriza quando é colocado em liquidação.

No fim, resta uma lição tão antiga quanto a própria atividade política: quem passa tempo demais oferecendo o próprio apoio acaba descobrindo que, no encerramento da feira, sobra apenas o espaço reservado à xepa.

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Direto ao ponto

Ideologia não é problema. A falta de coerência, sim.

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Em tempos de campanhas e discursos moldados pelas pesquisas de opinião, uma pergunta merece ser feita: um político deve mudar suas convicções para conquistar votos ou ampliar sua capacidade de diálogo sem renunciar à própria identidade?

A resposta passa por um conceito frequentemente tratado de forma equivocada: ideologia.

Toda liderança política possui uma base ideológica. Trata-se do conjunto de princípios, valores e crenças que orienta suas decisões. Não existe política sem visão de mundo. Até mesmo quem afirma não ser de direita, de esquerda ou de centro está fazendo uma escolha política e ideológica. A neutralidade absoluta é mais um discurso do que uma realidade.

O problema, portanto, não está na ideologia. Está na incoerência.

Democracias maduras esperam que seus líderes dialoguem, negociem, construam consensos e estejam dispostos a rever estratégias. Mas dialogar não significa abandonar princípios. Amadurecer politicamente não é apagar a própria história.

Existe uma diferença clara entre evoluir e se reinventar por conveniência eleitoral. Um líder pode atualizar propostas, reconhecer erros, incorporar novas ideias e adaptar soluções aos desafios do presente. Isso faz parte da política. O que exige explicação é a mudança de discurso que parece responder apenas ao interesse de ampliar o eleitorado.

Princípios não são o mesmo que posições. Princípios são permanentes. Posições podem mudar conforme as circunstâncias, as evidências e as necessidades da sociedade. É possível rever caminhos sem abandonar os valores que sustentam uma trajetória pública.

O eleitor não deve exigir que um político permaneça imutável. Deve exigir coerência. Mudanças fazem parte da vida pública, desde que sejam justificadas com transparência e compatíveis com os valores que o próprio candidato sempre afirmou defender.

Nos últimos anos, tornou-se comum assistir a políticos que, diante de novos cenários eleitorais, passam a negar antigas bandeiras, antigos aliados e até antigas convicções. Quando isso ocorre sem uma explicação consistente, a percepção pública deixa de ser a de evolução e passa a ser a de oportunismo.

O debate político brasileiro talvez esteja fazendo a pergunta errada. A questão não é se alguém deixou a esquerda, aproximou-se da direita ou migrou para o centro. A pergunta que realmente importa é outra: essa mudança nasceu de uma reflexão honesta ou de um cálculo eleitoral?

A confiança do eleitor não se constrói sobre a ausência de ideologia. Constrói-se sobre a coerência. Afinal, liderar não é dizer aquilo que cada plateia deseja ouvir. É manter fidelidade aos próprios princípios, dialogar com quem pensa diferente e demonstrar que convicção e capacidade de construir consensos podem caminhar juntas.

Foto: Sérgio Vale

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Direto ao ponto

O PT que fez Jorge Viana agora não cabe na campanha dele

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Jorge Viana afirma que não está negando sua história no PT. Mas, ao mesmo tempo, diz que não pretende colocar o partido em sua campanha. A frase parece conciliadora, mas é politicamente dura: ele conserva o PT como origem, mas o rejeita como identidade eleitoral.

Não se trata de qualquer filiado tentando ampliar seu eleitorado. Jorge Viana foi eleito prefeito de Rio Branco, governador do Acre por dois mandatos e senador da República pelo PT. É filiado ao partido desde os anos 1980 e sua trajetória se confunde com a construção da força petista no Acre.

Por isso, quando diz que sua candidatura “é do Acre” e não “do PT”, Jorge não está apenas fazendo uma escolha de marketing. Está dizendo que a marca partidária que o levou à Prefeitura, ao Palácio Rio Branco e ao Senado passou a ser um problema para sua própria campanha.

O PT que lhe deu estrutura, militância, palanque e identidade política agora deve desaparecer da propaganda para que ele possa buscar votos. Jorge quer os votos do Acre, mas não quer disputar a eleição sob a bandeira do partido que construiu sua carreira.

A contradição é evidente. Ele afirma que não nega sua história, mas evita apresentá-la integralmente. Afinal, não há Jorge Viana prefeito, governador e senador sem PT. Sua biografia política não foi construída apesar do partido; foi construída dentro dele.

O ponto também de destaque está na tentativa de responsabilizar “parte do PT” pela derrota de 2018. Jorge pode criticar disputas internas, divergências e erros de condução. Mas não pode transformar o partido em culpado exclusivo quando lhe convém e, depois, pedir que esse mesmo partido permaneça como retaguarda silenciosa de sua candidatura.

Se houve erros, quais foram? Quem os cometeu? Que decisões concretas levaram à derrota? E qual foi a responsabilidade de Jorge Viana, uma das maiores lideranças do grupo, naquele processo?

A autocrítica não pode ser seletiva. Não basta dizer que “teve muitos erros” e, ao mesmo tempo, preservar para si os acertos do período em que o PT governou o Acre. Quem foi protagonista de um ciclo político não pode se colocar apenas como vítima de suas consequências.

A fala de Jorge também coloca o PT diante de uma escolha constrangedora. O partido aceita ser reduzido a uma legenda de cartório, útil para garantir filiação, tempo político e estrutura, mas invisível na campanha de seu principal nome? Ou pretende sustentar publicamente seu programa, sua história e suas responsabilidades?

Porque, se Jorge Viana afirma que sua candidatura não é do PT, o PT precisa explicar qual é, então, a sua candidatura.

O risco é o PT ficar sem candidato, sem discurso e sem coragem de defender a própria trajetória, justamente para proteger aquele que mais se beneficiou dela.

Jorge Viana pode querer ser o candidato do Acre. Mas não pode exigir que o Acre esqueça quem o fez prefeito, governador e senador.

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