Assumir o governo de um estado, ainda que de forma circunstancial, costuma ser visto como uma oportunidade decisiva para quem pretende disputar uma eleição majoritária. A visibilidade aumenta, a presença institucional se fortalece e o acesso à máquina pública cria a sensação de que o jogo pode ser reorganizado a favor de quem está no poder. Mas há um limite claro nesse raciocínio: nem todo cargo produz liderança.
É exatamente esse desafio que se impõe à vice-governadora Maílza Assis ao assumir o governo do Acre neste momento decisivo do calendário eleitoral. Depois de já ter ocupado posições relevantes, como suplente de senadora, exercício de mandato no Senado e a própria vice-governadora, Maílza chega ao posto mais alto do Executivo estadual com a oportunidade de se projetar politicamente. O problema é que ocupar espaços não é o mesmo que construir liderança.
Liderança exige algo que não vem com a caneta nem com o cargo. Ela depende de trajetória reconhecida, identidade política clara e capacidade de se afirmar como referência perante seus pares e principalmente diante da população. E esses elementos, quando não são construídos ao longo do tempo, dificilmente surgem em poucos meses, por mais favorável que seja o contexto institucional.
Ao assumir o governo, Maílza tende a buscar ancoragem no capital político do atual governador Gladson Cameli, que deixa o cargo para disputar o Senado. Trata-se de um movimento natural do ponto de vista estratégico, mas que também evidencia uma fragilidade: quando a força política precisa ser transferida, é sinal de que ela ainda não se consolidou de forma autônoma.
O tempo, nesse caso, é um fator decisivo e adverso. São poucos meses até a eleição de outubro, um intervalo insuficiente para construir aquilo que, em regra, demanda anos de presença pública consistente. A disputa se desenha, ainda, em um cenário competitivo, no qual os principais adversários chegam com atributos que Maílza ainda tenta consolidar.
Tião Bocalom, atual prefeito de Rio Branco, é um nome conhecido, testado e reconhecido como liderança por parcela significativa do eleitorado. Alan Rick, por sua vez, construiu popularidade na comunicação antes de ingressar na política institucional e reforçou sua presença ao longo do mandato no Senado. Ambos entram na disputa com um ativo essencial em eleições majoritárias: reconhecimento.
E é justamente aí que reside o ponto central dessa eleição. O eleitor não escolhe apenas um projeto administrativo ou uma proposta de governo. Ele escolhe, sobretudo, quem considera capaz de liderar.
Nesse tipo de disputa, o marketing político tem um papel importante, mas limitado. Ele pode organizar a comunicação, ajustar a narrativa e ampliar a visibilidade do candidato. O que não pode fazer é criar, em curto prazo, densidade política, identidade pública e liderança reconhecida. Esses atributos não são produtos de campanha; são resultados de construção ao longo do tempo.
O risco, portanto, é evidente. A ampliação da exposição institucional pode não ser acompanhada pela consolidação de uma imagem de liderança. O eleitor passa a ver mais a candidata, mas não necessariamente passa a reconhecê-la como líder. E, em política, essa diferença é decisiva.
Maílza Assis entra na disputa com estrutura, apoio político e o peso do governo nas mãos. Mas enfrenta um desafio que não pode ser resolvido apenas com estratégia de campanha: transformar uma posição circunstancial de poder em liderança efetiva.
Em recente publicação nas redes sociais, o publicitário e profissional de marketing político Zé Américo resumiu assim o desafio da liderança: “No fim das contas, eleição majoritária não é apenas sobre quem ocupa o cargo. É sobre quem o eleitor acredita que pode exercê-lo com autoridade. E liderança, como a política costuma demonstrar, não se improvisa.”
Foto: Sérgio Vale