O médico infectologista Thor Dantas, pré-candidato ao governo do Acre pelo PSB, defendeu durante entrevista ao programa Bar do Vaz que o Estado precisa recuperar a capacidade de planejamento, execução e articulação política para enfrentar problemas em áreas como saúde, infraestrutura e desenvolvimento econômico.
Ao comentar o cenário político e administrativo do Acre, Thor afirmou que o Estado vive uma crise de credibilidade e gestão. Segundo ele, a baixa capacidade de execução dos recursos disponíveis para investimento tem prejudicado a entrega de obras, serviços públicos e resultados concretos para a população.
“O Acre hoje consegue executar não mais do que 35% do dinheiro que existe”, afirmou o médico, ao defender que o governo estadual precisa voltar a exercer papel de liderança na organização das prioridades do Estado.
“Nós precisamos resgatar a nossa capacidade de planejamento e execução. Essa é a principal característica de um bom governo.”
Na entrevista, Thor disse que o problema não está apenas na escassez de recursos, mas na falta de um plano capaz de integrar governo estadual, bancada federal, governo federal, setor empresarial e municípios. Para ele, a política no Acre tem funcionado de forma “descentralizada, desorganizada e desarticulada”.
O pré-candidato afirmou que um governo precisa planejar, arrecadar, investir e coordenar os diferentes atores envolvidos no desenvolvimento do Estado. Segundo Thor, cada parlamentar pode ter projetos legítimos, mas a ausência de uma estratégia comum reduz a capacidade de transformar recursos em ações estruturantes.
Thor também recorreu à própria trajetória para justificar sua entrada na disputa. Disse ter 28 anos de atuação como médico no Acre, citou passagem pela direção do pronto-socorro, pela presidência da Fundacre, pela Secretaria Adjunta de Saúde e pela criação da faculdade de medicina e da residência médica no Estado.
Ao longo da entrevista, o médico buscou associar sua experiência na saúde pública à defesa de um modelo de gestão baseado em planejamento, equipe técnica e execução. Ele afirmou que o Acre precisa de liderança capaz de unir diferentes setores em torno de um projeto comum.
“O governo precisa planejar, arrecadar dinheiro e investir. O governo, num Estado como o Acre, é o indutor do processo econômico. (…) Ele precisa ser liderança. É aquele que une todo mundo, une o setor empresarial, faz a ponte com o governo federal, a bancada…”
A saúde apareceu como uma das áreas centrais de sua fala, mas Thor ampliou o diagnóstico para outros setores. Ao tratar de desenvolvimento, afirmou que o governo estadual deve atuar como indutor da economia, articulando investimentos, infraestrutura, setor produtivo e acesso a recursos federais.
A entrevista marcou uma tentativa de apresentar sua pré-candidatura a partir de um discurso técnico e administrativo. Mais do que responder ao cenário eleitoral, Thor procurou defender que o principal desafio do Acre é recuperar a capacidade do Estado de planejar e executar políticas públicas.
Foto: Sérgio Vale – Segue ele no Instagram @sergiovaleac
Confira a entrevista do pré-candidato ao governo do Acre Thor Dantas no Bar do Vaz
A queda da ponte Frei Paolino Baldassari, em Sena Madureira, entrou no centro do debate político na Assembleia Legislativa do Acre nesta terça-feira, 9, a partir de uma questão que o ÉPop também já havia colocado como ponto decisivo para a perícia: as diferenças entre o anteprojeto apresentado pelo Deracre e o projeto executivo que levou à construção da obra sobre o Rio Iaco. Em discurso no plenário, o deputado Edvaldo Magalhães cobrou respostas sobre a possível redução de estacas, mudanças nas dimensões da fundação, substituição de elementos previstos originalmente e autorização para alterações em uma estrutura erguida em área de risco conhecido de erosão e “terra caída”.
A fala do parlamentar reforça o eixo principal da apuração publicada pelo ÉPop: a ponte não pode ser analisada apenas como vítima de um fenômeno natural. O Rio Iaco tem histórico de erosão nas margens, e o próprio projeto da obra reconhecia esse risco. Por isso, a investigação precisa confrontar o que foi previsto, o que foi aprovado, o que foi executado e o que foi efetivamente fiscalizado pelo poder público. A pergunta central deixou de ser apenas por que a ponte caiu. Agora, a questão é saber se ela foi construída exatamente como deveria para resistir ao local onde foi implantada.
Edvaldo tratou desse ponto ao explicar o modelo de contratação usado na obra. Segundo ele, no regime de contratação integrada, o governo apresenta um anteprojeto, licita a obra e a empresa vencedora elabora o projeto executivo. A fiscalização do contratante, nesse caso o Deracre, teria de verificar se o projeto final respeitava as premissas do anteprojeto. Foi nesse trecho que o deputado levantou a primeira cobrança direta: “Por que que o projeto executivo está bem diferente do que o anteprojeto apresentado pelo Deracre? Quem foi que deu o de acordo para essas mudanças?”
A pergunta dialoga diretamente com a apuração técnica feita pelo ÉPop. O anteprojeto da ponte tratava a margem esquerda, no lado do Centro de Sena Madureira, como uma área vulnerável, com necessidade de soluções específicas de fundação, drenagem e proteção contra a erosão. As pranchas analisadas pela reportagem apontavam estacas escavadas de concreto armado com diâmetros de 1,20 metro e 1,40 metro, além de profundidades que chegavam a 20 e 30 metros, conforme o ponto da estrutura. Essa informação se tornou ainda mais relevante depois do colapso, porque a queda ocorreu justamente em um ambiente de margem instável, onde a fundação deveria cumprir papel decisivo.
No plenário, Edvaldo também cobrou explicações sobre possível redução das peças estruturais. “As estacas tinham uma extensão maior e uma circunferência também maior, de volume de concretagem maior. Por que diminuíram? Por que substituíram as estacas? Das estacas, os anéis de aço que constavam do anteprojeto, por quê? Para baratear a obra? Quem concordou com isso? Quem atestou isso? Quem deu de acordo para isso?”, questionou.
Esse é o ponto mais sensível da apuração. Uma ponte pode sofrer com a movimentação da margem de um rio amazônico, mas a engenharia existe justamente para prever esse tipo de comportamento. Em Sena Madureira, o fenômeno das terras caídas não era surpresa. O barranco do Rio Iaco já aparecia como fator de risco antes da inauguração. Se houve alteração nas fundações, se as estacas executadas ficaram menores ou diferentes das previstas, se houve retirada de camisas de aço ou mudança de solução sem justificativa técnica robusta, a perícia terá de dizer quem tomou essa decisão e quem a aceitou dentro do Estado.
A reportagem do ÉPop já havia apontado que a análise não deve ficar restrita à imagem da ponte rompida. A investigação precisa chegar às sondagens, aos memoriais de cálculo, às pranchas do projeto executivo, aos boletins de medição, aos relatórios de fiscalização, aos diários de obra, às notas de pagamento e ao chamado “as built”, documento que mostra como a estrutura ficou depois de executada. Sem essa comparação, qualquer resposta sobre a queda será incompleta.
Edvaldo também rejeitou a tentativa de apresentar o desbarrancamento como explicação suficiente. Ele lembrou que o fenômeno é conhecido no Acre e faz parte da experiência de quem vive às margens dos rios. “Todo e qualquer engenheiro, toda e qualquer empresa que minimamente se preze ao construir na beira dos barrancos sabe que tem que ter um cuidado especial com as chamadas sondagens, com as fundações. Porque o barranco pode levar. Imagine um construtor de ponte, aí que a tecnologia tem que ser avançada”, afirmou.
A ponte Frei Paolino Baldassari foi entregue como obra de ligação entre o Centro e o Segundo Distrito de Sena Madureira. Para a cidade, ela representava uma solução esperada havia décadas. Por isso, a queda produziu um impacto que vai além do prejuízo material. O colapso interrompeu uma promessa de mobilidade urbana, expôs dúvidas sobre a qualidade da obra e abriu uma crise de confiança sobre a capacidade do Estado de contratar, acompanhar e receber estruturas públicas em áreas ambientalmente complexas.
O deputado também levou ao debate o valor pago pela obra. Edvaldo afirmou que a planilha de pagamentos superou R$ 45 milhões, conforme apuração também do ÉPop, embora a obra tenha sido anunciada inicialmente em valores menores. Ele cobrou transparência sobre a origem dos recursos e levantou a possibilidade de haver dinheiro federal na execução. “Houve recursos federais nesta obra? Porque se houve, tem que chamar a Polícia Federal também para investigar”, disse.
Documentos do projeto já apontavam erosão, escorregamentos, fundações profundas e drenagem especial na área da ponte.
Esse ponto amplia o alcance da apuração. Se a obra teve recursos exclusivamente estaduais, a investigação tende a ficar concentrada nos órgãos locais de controle, no Ministério Público Estadual, no Tribunal de Contas e na própria Assembleia. Se houve verba federal, ainda que repassada ao Tesouro estadual por emendas ou outros mecanismos, a Polícia Federal e órgãos federais de controle podem entrar no caso. A resposta depende da rastreabilidade dos pagamentos e da origem efetiva do dinheiro usado na ponte.
No segundo momento em que voltou ao assunto, Edvaldo endureceu a cobrança sobre a qualidade da execução. Ele citou imagens em que parte do tabuleiro teria sido perfurada por uma estaca durante o colapso e disse que a engenharia precisa verificar a cura do concreto, a profundidade das estacas e a conformidade da estrutura. “A engenharia pode comprovar se a cura tava correta. A engenharia pode comprovar a profundidade da estaca. Porque o fenômeno da terra caída, pelo amor de Deus, todo ano acontece”, afirmou.
As perguntas feitas por Edvaldo Magalhães no plenário reforçam o caminho já apontado pelo ÉPop: a investigação precisa sair da superfície do desabamento e chegar ao subsolo da obra, onde estavam as fundações, as escolhas de engenharia e as assinaturas que autorizaram cada mudança.
Em Plácido de Castro, Bocalom defende produção, emprego e novo ciclo de desenvolvimento para o Acre
Pré-candidato ao governo afirma que municípios do interior precisam estar no centro de uma política econômica voltada à geração de renda, infraestrutura e fortalecimento das vocações regionais
Em agenda de pré-campanha ao governo do Acre, o ex-prefeito de Rio Branco, Tião Bocalom, esteve em Plácido de Castro e voltou a defender que o futuro do estado passa pelo fortalecimento da produção, pela geração de emprego e pela valorização econômica dos municípios do interior.
Durante a visita, Bocalom apresentou uma visão de desenvolvimento voltada ao aproveitamento do potencial produtivo da região, com foco na criação de oportunidades para quem vive fora da capital. Segundo ele, Plácido de Castro reúne condições estratégicas para participar de um novo ciclo econômico no Acre, especialmente pela localização, pela vocação produtiva e pela importância histórica na formação do estado.
O pré-candidato afirmou que o interior precisa deixar de ser tratado apenas como área de passagem política em períodos eleitorais e passar a ocupar lugar central no planejamento do governo. Para Bocalom, investimentos em infraestrutura, apoio ao produtor, melhoria da logística e incentivo ao empreendedorismo local são caminhos para transformar potencial em renda.
A defesa da produção como instrumento de desenvolvimento tem sido uma das principais marcas de sua movimentação pelo estado. Em Plácido de Castro, ele reforçou que gerar emprego não depende apenas de programas temporários, mas de uma política permanente capaz de estimular quem produz, abrir mercado e criar ambiente para novos investimentos.
A agenda também incluiu encontro com lideranças locais e com o prefeito Camilo da Silva. Bocalom agradeceu a recepção no município e destacou que pretende construir seu plano de governo ouvindo as demandas de cada região.
A visita faz parte de uma série de agendas pelo interior acreano, em um movimento para ampliar sua presença política fora da capital e consolidar sua pré-candidatura ao governo do Acre nas eleições de 2026.
Mailza publica vídeo e pode ser questionada na Justiça Eleitoral
Governadora, pré-candidata à reeleição, usou frase que pode ser analisada como “palavra mágica”, critério adotado pelo TSE em casos de propaganda antecipada
A governadora do Acre, Mailza Assis, pré-candidata à reeleição, publicou em seu perfil no Instagram um vídeo sobre a implantação de uma nova base comunitária da Polícia Militar na Cidade do Povo, em Rio Branco.
Na gravação, Mailza apresenta a ação de segurança pública e afirma que a medida faz parte de um conjunto de investimentos no bairro. O trecho que chama atenção aparece no final do vídeo, quando a governadora diz: “Esse é o trabalho que está sendo feito e merece continuar.”
A publicação foi feita no perfil pessoal da governadora, que atualmente comanda o Executivo estadual. Mailza assumiu o governo do Acre após a renúncia de Gladson Cameli e, desde então, tem adotado em discursos e publicações uma mensagem de continuidade da gestão anterior. Em seu perfil, a ideia de seguir o trabalho aparece de forma recorrente em vídeos e postagens. A governadora já é tratada publicamente como pré-candidata à reeleição.
No vídeo, Mailza afirma:
“Vamos transformar a Cidade do Povo num dos bairros mais seguros da cidade de Rio Branco. E um grande passo está sendo dado agora. Essa é a nova base comunitária da Polícia Militar aqui na entrada do bairro. Com isso, vamos trazer um efetivo de centenas de policiais 24 horas por dia. Ações sociais, educativas e mais esse forte investimento em segurança vão transformar a vida de quem vive aqui. Esse é o trabalho que está sendo feito e merece continuar.”
Veja o video no perfil da Governadora no Instagram @mailza.acre
A legislação eleitoral permite que pré-candidatos divulguem ideias, projetos, ações realizadas e posicionamentos políticos antes do período oficial de campanha. O limite está no pedido de voto, inclusive quando ele aparece por expressões que passam a mesma mensagem, mesmo sem o uso direto da palavra “voto”.
Nesse caso, a frase “merece continuar” é o ponto que pode gerar questionamento. Como Mailza é governadora e pré-candidata à reeleição, a mensagem pode ser interpretada como defesa da continuidade da atual gestão. Em uma eventual representação eleitoral, o argumento seria que a fala vai além da prestação de contas e se aproxima de um apelo político pela permanência do grupo no poder.
A governadora, por outro lado, pode sustentar que o vídeo trata apenas da divulgação de uma ação administrativa na área da segurança pública, sem pedido direto de voto, sem número de urna, sem menção à eleição e sem apresentação formal de candidatura.
A discussão passa pelo artigo 36-A da Lei nº 9.504/1997, que permite a divulgação de pré-candidaturas, ações políticas e qualidades pessoais antes da campanha oficial, desde que não haja pedido explícito de voto.
O TSE, no entanto, tem decidido que o pedido de voto não precisa aparecer apenas na forma direta, como “vote em mim”. A Corte admite a análise das chamadas “palavras mágicas”, expressão usada em decisões eleitorais para tratar de frases que, mesmo sem pedir voto de forma literal, passam mensagem equivalente.
Em julgados recentes, o Tribunal reconheceu que expressões com o mesmo sentido de pedido de voto podem caracterizar propaganda antecipada, dependendo do contexto. A análise considera quem fez a publicação, o cargo ocupado, o momento da divulgação, o conteúdo da mensagem e a existência de elementos que possam favorecer eleitoralmente o pré-candidato.
No caso da publicação de Mailza, a frase “esse é o trabalho que está sendo feito e merece continuar” é o ponto que pode ser levado ao Ministério Público Eleitoral. Como a governadora é pré-candidata à reeleição, caberá ao órgão avaliar se a mensagem ficou no campo da prestação de contas ou se apresentou sentido eleitoral de continuidade.
A reportagem não identificou, até a publicação desta matéria, registro de impulsionamento pago do vídeo ou informação sobre uso de recursos públicos na produção da peça.
O espaço está aberto para manifestação da governadora Mailza Assis.