O Ateliê da Floresta, instalado na Reserva Extrativista Chico Mendes, em Xapuri, no Acre, tem transformado madeira caída naturalmente na floresta em fonte de renda para a comunidade, sem derrubada de árvores, a partir de um modelo produtivo baseado em licenciamento ambiental, trabalho artesanal e parcerias institucionais. Em quase dois anos de atividade, o projeto gerou cerca de R$ 128 mil, utilizando apenas duas árvores que já estavam no chão da floresta.
A experiência parte do aproveitamento de troncos e resíduos lenhosos encontrados naturalmente no interior da reserva, alguns deles caídos há décadas. Um dos exemplos citados pelo projeto é um canelão que estava no chão há mais de 40 anos e passou a ser utilizado como matéria-prima para a produção de móveis, utensílios e peças artesanais. Em 2024, o Ateliê obteve licença para trabalhar 16 árvores já caídas, mas, até o momento, apenas duas foram parcialmente utilizadas, o que evidencia o ritmo controlado da produção e o foco no uso responsável do recurso florestal.
De acordo com o material divulgado pelo próprio Ateliê, a proposta busca demonstrar que a madeira morta pode gerar mais valor econômico quando inserida em uma cadeia produtiva comunitária do que quando comercializada de forma isolada. O projeto contrapõe a prática comum de venda de árvores em pé por valores baixos, ao mostrar que a transformação artesanal amplia a renda, diversifica o trabalho local e mantém a floresta preservada.
O Ateliê da Floresta é resultado de um processo coletivo que começou a ser idealizado há mais de 15 anos por Raimundo Mendes, conhecido como Raimundão, liderança histórica da região. A ideia surgiu a partir da defesa de que a floresta poderia gerar renda de forma contínua sem a necessidade de derrubada, valorizando o conhecimento comunitário e o uso sustentável dos recursos naturais. A concretização do projeto ocorreu por meio de parcerias com organizações como SOS Amazônia, AMOPREX, a gestão da Resex Chico Mendes, o Instituto de Pesquisas Ecológicas (IPÊ), o Fundo Amazônia, a iniciativa Nossabio e, mais recentemente, o Fundo Casa Socioambiental, por meio da Teia da Sociobiodiversidade.
Além da geração de renda, o Ateliê também introduziu uma nova atividade produtiva na comunidade, permitindo que extrativistas passem a atuar como artesãos, ampliando as possibilidades de trabalho e complementando a renda familiar. O modelo adotado reforça a lógica de uso múltiplo da floresta em pé, com impactos diretos na economia local e na permanência das famílias no território, sem ruptura com os modos de vida tradicionais.
A iniciativa segue em expansão gradual, mantendo o controle sobre o volume de madeira utilizada e priorizando o diálogo com a comunidade e os órgãos responsáveis pela gestão da unidade de conservação. Segundo o material divulgado, a proposta é consolidar o Ateliê como uma atividade permanente, baseada no respeito à floresta e na valorização do trabalho coletivo, reforçando que, naquele território, a floresta não é derrubada, mas integrada à economia local de forma regulada e sustentável.