A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) divulgou, no fim de dezembro, uma carta de Ano-Novo na qual manifesta preocupação com a situação da democracia e aponta retrocessos sociais registrados ao longo de 2025 no país, ao mesmo tempo em que reconhece avanços em áreas sociais, econômicas e ambientais, como o fortalecimento do Sistema Único de Saúde (SUS) e indicadores positivos da economia brasileira.
No documento, assinado por integrantes da presidência da entidade, a CNBB afirma que o último ano foi marcado por tensões que afetaram a convivência democrática e fragilizaram a confiança nas instituições. A carta define a democracia como um patrimônio da sociedade brasileira e sustenta que seu funcionamento depende do respeito ao diálogo, às instituições e aos mecanismos de freios e contrapesos. “A democracia, com sua exigência de diálogo, suas instituições, seus freios e contrapesos, é patrimônio do povo brasileiro e precisa de cuidado e promoção”, afirma o texto divulgado pela entidade.
Ao fazer um balanço crítico do período, os bispos apontam que interesses econômicos e disputas de poder prejudicaram mecanismos essenciais de controle institucional. Entre as preocupações destacadas estão a conduta de autoridades públicas, especialmente no Congresso Nacional, o enfraquecimento da ética na vida pública, o aumento da corrupção e mudanças em marcos legais como a Lei da Ficha Limpa e a Lei Geral do Licenciamento Ambiental. A carta também menciona riscos à proteção ambiental e aos direitos de povos originários e comunidades tradicionais, citando a aprovação do marco temporal no Congresso, além do crescimento da violência, do discurso de ódio e de crimes como o feminicídio.
O documento aborda ainda fatores estruturais que, segundo a CNBB, limitam o desenvolvimento social, como o elevado volume de recursos destinados ao pagamento de juros e amortizações da dívida pública, a persistência da desigualdade social e a expansão de economias ilícitas associadas ao uso de drogas. Para a entidade, esses elementos contribuem para a manutenção de situações de exclusão e dificultam maiores investimentos em áreas como educação, saúde, moradia e segurança.
Apesar das críticas, a carta registra avanços observados em 2025. No campo social, a CNBB destaca o fortalecimento do SUS, com aumento da proporção de médicos por habitante. Na economia, são mencionadas a redução da taxa de desemprego, a estabilidade da inflação e o crescimento do Produto Interno Bruto. A entidade também cita resultados no comércio exterior, como a retirada de tarifas norte-americanas sobre produtos brasileiros e a abertura de novos mercados internacionais, atribuídas a negociações do governo federal.
No setor ambiental, os bispos ressaltam o protagonismo do Brasil na área de energias renováveis e a realização da 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30), em Belém, como marcos do compromisso com o enfrentamento da crise climática. O texto reafirma que projetos políticos não devem se sobrepor à vida, à justiça social e ao cuidado com o meio ambiente.
A carta aborda ainda temas ligados à doutrina da Igreja Católica, como a posição contrária à legalização do aborto e a defesa da vida desde a concepção até o fim natural. Ao mesmo tempo, amplia o conceito de defesa da vida para incluir o combate à fome, à miséria e à desigualdade, destacando a necessidade de políticas que garantam condições dignas de existência para toda a população.
Ao final, a CNBB recorre a referências de dom Helder Câmara e do poeta Thiago de Mello para sustentar uma mensagem de esperança para 2026, defendendo a pacificação, o respeito mútuo e o diálogo como caminhos para enfrentar os desafios apontados no documento.
Fonte e foto: Agência Brasil
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