Durante a oficina de planejamento territorial do projeto Fronteiras da Amazônia, realizada em Cruzeiro do Sul em 25 de setembro, o coordenador da Organização dos Povos Indígenas do Rio Juruá (OPIRJ), Francisco Piyãko, chamou atenção para o valor estratégico do Juruá e alertou para a necessidade de que o desenvolvimento ocorra sem que as riquezas naturais e culturais da região sejam comprometidas. Ele destacou que o território reúne 14 terras indígenas e 13 povos distintos, organizados pela OPIRJ, e que essa diversidade dá ao Acre um papel central nas discussões sobre fronteira, soberania e sustentabilidade. “Nós não temos uma região qualquer. Nós temos uma região de muito valor, e esse lugar está ficando cada vez mais raro no mundo”, afirmou.
Em sua fala, Piyãko defendeu que a construção de políticas públicas não seja pautada por disputas políticas ou visões reducionistas. Destacou que o debate deve ser conduzido pela cooperação. “Como disse o prefeito Bocalom, se a gente se tratar como inimigo, a gente vai trabalhar pra derrubar um ao outro. E a gente não quer isso. As nossas discussões aqui no território têm sido bem conduzidas e estamos preparados para debater essas questões”, afirmou. Segundo ele, os povos indígenas têm clareza sobre o potencial econômico e ambiental do Juruá e desejam participar de forma ativa na definição das estratégias de integração.
O líder indígena também alertou que a integração entre municípios e países vizinhos não pode ser entendida apenas como abertura de estradas ou corredores de passagem. Para ele, a experiência da comissão transfronteiriça, que ao longo de dez anos produziu mapas e estudos detalhados sobre temas como pistas de pouso, áreas de cultivo e segurança, demonstra que é possível planejar o futuro com base em informações consistentes e no respeito às legislações existentes. Ele lembrou que a presença do Estado na fronteira tem sido reforçada nos últimos dois anos e que a criação de centros de inteligência integrados entre países é um passo importante para evitar que a região seja reduzida a rota de interesses externos.
Ao tratar do futuro, Piyãko ressaltou que o Juruá precisa amadurecer as discussões antes de adotar grandes obras de infraestrutura. Ele defendeu que qualquer medida de integração considere os valores socioculturais e ambientais da floresta, evitando que comunidades sejam transformadas em espaços de passagem sem proteção ou combate à pobreza. “A floresta e as populações tradicionais precisam conhecer, se posicionar e garantir seus direitos. O desenvolvimento não pode acontecer às custas da perda da nossa diversidade”, declarou.
“Nós temos discutido muito em parceria com instituições como a Funai, o Exército e universidades, porque as nossas questões de fronteira precisam desse debate. Não dá para trabalhar numa região como essa sem diálogo e transparência”, afirma Piyãko. Para ele, o potencial econômico, turístico e cultural do Juruá precisa ser visto em sua amplitude e não reduzido a poucos produtos de referência. “Quando a gente olha na lista parece que temos dois ou três produtos, mas na verdade temos muitas outras riquezas. Essa região é grande, diversa e precisa ser valorizada em toda a sua dimensão”, afirmou.
A oficina de planejamento territorial do projeto Fronteiras da Amazônia foi realizada em Cruzeiro do Sul no dia 25 de setembro, organizada pelo Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional (MIDR) em parceria com o Instituto Brasileiro de Administração Municipal (IBAM). O evento contou com a participação de gestores municipais, técnicos, representantes da sociedade civil e lideranças indígenas.