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Direto ao ponto

Jorge Viana entre a memória e o futuro

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A diferença não estará no peso da biografia, mas na coragem de romper com a lógica tradicional da política acreana

Dias atrás, um articulista acreano chamou atenção para a seguinte formulação: nas eleições de 2026, os chamados “velhos caciques” são, curiosamente, a “grande novidade” do tabuleiro político local. A tese, longe de ser mero recurso retórico, ajuda a compreender o reposicionamento de figuras que, dadas como fora do jogo, reaparecem com protagonismo, como é o caso do ex-senador, ex-governador e ex-prefeito de Rio Branco Jorge Viana. Como ouvi também de um militante raiz e histórico do PT que cravou “Se corre o bicho pega, se ficar o bicho come… não tem jeito é isso mesmo, é o que temos.”

Jorge Viana, não era um nome dado como certo, tampouco inevitável. Surge, portanto, como novidade no timing e no contexto. Mas é justamente aí que reside o ponto central: ser novidade circunstancial não basta. A pergunta é se essa candidatura virá acompanhada de inovação política real ou se se limitará à repetição de fórmulas já conhecidas?

Jorge construiu uma trajetória que dialoga com diferentes setores. Governador bem avaliado, senador com trânsito institucional e, mais recentemente, gestor à frente da ApexBrasil com reconhecimento inclusive no meio empresarial, reúne atributos raros num cenário marcado por polarizações simplificadoras. Não por acaso, sua imagem extrapola o campo progressista tradicional.

Mas é exatamente por isso que dele se espera mais.

Se pretende representar uma alternativa qualificada, capaz de reposicionar o campo progressista no Acre, Jorge Viana tem diante de si uma oportunidade concreta de sinalizar ruptura com práticas envelhecidas, e isso pode começar pela composição de sua chapa.

O eleitor vota em um nome ao Senado, mas, na prática, elege também dois suplentes quase sempre desconhecidos do grande público. São eles que, em caso de afastamento, licença ou qualquer outra intercorrência, assumem o mandato e passam a representar o estado.

Não se trata de detalhe, mas de substância democrática. Saber quem são esses nomes, de onde vêm e a que interesses estão vinculados é fundamental para compreender o verdadeiro sentido de cada candidatura. Ignorar isso é abrir espaço para distorções graves, em que a vontade do eleitor pode ser substituída por arranjos que jamais passariam pelo crivo das urnas. Trazer esse debate para o centro da campanha não apenas qualifica a disputa, como também impõe um novo padrão de responsabilidade política. 

O padrão é conhecido: parentes, aliados de carreira, financiadores ou nomes sem densidade eleitoral, mas úteis à engrenagem tradicional. É o que se vê, por exemplo, nos bastidores de outras candidaturas, onde as suplências tendem a reproduzir a lógica de sempre, muitas vezes, inclusive, com figuras alheias à realidade local. 

Romper com isso exigiria coragem e visão. A escolha do suplente, pode se transformar em um gesto de alto impacto.

Ao optar por uma jovem liderança, alguém sem mandato, mas com atuação consistente no campo progressista, oriunda dos movimentos sociais, da academia, do empreendedorismo ou das novas agendas urbanas, Jorge Viana não apenas renovaria sua chapa, mas reposicionaria o debate político no estado. Mais do que um gesto simbólico, seria um recado claro: a política pode, sim, abrir espaço para novas vozes sem abrir mão da experiência. Foi essa a mensagem projetada na posse do terceiro mandato, quando Lula subiu a rampa do Palácio do Planalto ao lado de representantes da sociedade civil, numa cena que reafirmava que a política só volta a fazer sentido quando se reconhece no povo real.

Essa escolha teria ainda um efeito estratégico relevante. Em vez de disputar apenas no terreno da memória, onde sua trajetória já é conhecida, Jorge Viana passaria a dialogar também com o futuro. Incorporaria à sua candidatura um elemento de oxigenação capaz de mobilizar segmentos hoje distantes da política tradicional, especialmente os mais jovens.

Num cenário em que muitos candidatos ainda sequer revelaram seus suplentes e, quando o fizerem, provavelmente seguirão o script convencional, inovar pode ser o verdadeiro diferencial competitivo.

No fim das contas, os velhos caciques são, sim, a novidade. Mas apenas aqueles que entenderem o espírito do tempo conseguirão ir além. Isso vale para todos os que estão diante de uma encruzilhada clássica da política. No caso de Jorge Viana, de quem se espera mais, a escolha é clara: Pode viver da própria memória ou pode escrever uma história melhor do que a que já escreveu.

Nomes não faltam. Nas conversas com o articulista e com os militantes, surgem referências como Medusa, Rodrigo Forneck e Cleson, cada um com sua própria trajetória, caminhada de luta, militância e reconhecimento, alguns com impedimentos por idade, mas são lembrados.. Desta vez, a escolha não é apenas eleitoral. É histórica.

Foto: Sérgio Vale

Direto ao ponto

O PT que fez Jorge Viana agora não cabe na campanha dele

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Jorge Viana afirma que não está negando sua história no PT. Mas, ao mesmo tempo, diz que não pretende colocar o partido em sua campanha. A frase parece conciliadora, mas é politicamente dura: ele conserva o PT como origem, mas o rejeita como identidade eleitoral.

Não se trata de qualquer filiado tentando ampliar seu eleitorado. Jorge Viana foi eleito prefeito de Rio Branco, governador do Acre por dois mandatos e senador da República pelo PT. É filiado ao partido desde os anos 1980 e sua trajetória se confunde com a construção da força petista no Acre.

Por isso, quando diz que sua candidatura “é do Acre” e não “do PT”, Jorge não está apenas fazendo uma escolha de marketing. Está dizendo que a marca partidária que o levou à Prefeitura, ao Palácio Rio Branco e ao Senado passou a ser um problema para sua própria campanha.

O PT que lhe deu estrutura, militância, palanque e identidade política agora deve desaparecer da propaganda para que ele possa buscar votos. Jorge quer os votos do Acre, mas não quer disputar a eleição sob a bandeira do partido que construiu sua carreira.

A contradição é evidente. Ele afirma que não nega sua história, mas evita apresentá-la integralmente. Afinal, não há Jorge Viana prefeito, governador e senador sem PT. Sua biografia política não foi construída apesar do partido; foi construída dentro dele.

O ponto também de destaque está na tentativa de responsabilizar “parte do PT” pela derrota de 2018. Jorge pode criticar disputas internas, divergências e erros de condução. Mas não pode transformar o partido em culpado exclusivo quando lhe convém e, depois, pedir que esse mesmo partido permaneça como retaguarda silenciosa de sua candidatura.

Se houve erros, quais foram? Quem os cometeu? Que decisões concretas levaram à derrota? E qual foi a responsabilidade de Jorge Viana, uma das maiores lideranças do grupo, naquele processo?

A autocrítica não pode ser seletiva. Não basta dizer que “teve muitos erros” e, ao mesmo tempo, preservar para si os acertos do período em que o PT governou o Acre. Quem foi protagonista de um ciclo político não pode se colocar apenas como vítima de suas consequências.

A fala de Jorge também coloca o PT diante de uma escolha constrangedora. O partido aceita ser reduzido a uma legenda de cartório, útil para garantir filiação, tempo político e estrutura, mas invisível na campanha de seu principal nome? Ou pretende sustentar publicamente seu programa, sua história e suas responsabilidades?

Porque, se Jorge Viana afirma que sua candidatura não é do PT, o PT precisa explicar qual é, então, a sua candidatura.

O risco é o PT ficar sem candidato, sem discurso e sem coragem de defender a própria trajetória, justamente para proteger aquele que mais se beneficiou dela.

Jorge Viana pode querer ser o candidato do Acre. Mas não pode exigir que o Acre esqueça quem o fez prefeito, governador e senador.

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Mailza soltou a mão de Zequinha?

Na política, ninguém é descartado por um único motivo. Mas há momentos em que um aliado deixa de ser solução e passa a representar problema.

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Na política, ninguém é descartado por um único motivo. Mas há momentos em que um aliado deixa de ser solução e passa a representar problema.

É possível que a distância entre Mailza Assis e Zequinha Lima tenha menos relação com divergências pessoais e mais com cálculo eleitoral. Zequinha tem peso político no Juruá, especialmente em Cruzeiro do Sul, mas também carrega desgaste, conflitos internos e ruídos que podem contaminar uma chapa que precisa ampliar alianças.

Quando um aliado passa a gerar rejeição, atrito ou insegurança entre partidos, ele deixa de ser ativo eleitoral e vira custo de composição. E Mailza, hoje, precisa de estabilidade política muito mais do que de novas crises dentro da própria base.

O MDB está exatamente nesse ponto. A sigla ganhou espaço estratégico na construção da chapa e Mailza reafirmou que a indicação da vice permanece reservada ao partido. Isso não é detalhe: é uma tentativa de ampliar musculatura política, reduzir resistências e montar um palanque mais competitivo.

Manter Zequinha no centro da articulação poderia dificultar esse movimento. Um nome desgastado ou conflituoso tende a fechar portas, especialmente quando a candidatura depende de alianças amplas e de uma composição capaz de dialogar além do núcleo tradicional do governo.

Por isso, “soltar a mão” pode ter sido menos ruptura pessoal e mais reposicionamento tático. Mailza pode ter percebido que insistir numa aliança já desgastada custaria mais do que abrir espaço para o MDB e para uma nova configuração de chapa.

Não significa que Zequinha seja irrelevante. Ele continua sendo ator importante no Juruá. Mas, para Mailza, a prioridade parece ser outra: evitar que os conflitos dele inviabilizem uma aliança maior e contaminem uma candidatura que já entra na disputa pressionada a provar força política.

Foto: Sérgio Vale Segue ele no Instagram @sergiovaleac

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Direto ao ponto

A eleição no Acre ainda procura o eleitor

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No Brasil, sempre aparece um motivo para dizer que o ano ainda não começou. Primeiro é o Carnaval. Depois a Páscoa. Em seguida vêm as festas juninas. Quando se percebe, já tem férias, segundo semestre, Natal se aproximando e em ano eleitoral, político correndo atrás do tempo perdido.

É, em ano eleitoral, essa sensação fica ainda maior. E, quando tem Copa do Mundo no meio, a política precisa disputar atenção com quase tudo: futebol, arraial, igreja, família, rede social, festa de bairro, conversa de esquina e conta para pagar.

É nesse clima que a nova pesquisa Real Time Big Data no Acre deve ser lida. Não como sentença, nem como ponto final. O levantamento mostra um momento em que a política já se mexe nos bastidores, os grupos já fazem suas contas, os pré-candidatos tentam ocupar espaço, mas boa parte do eleitorado está de longe.

A eleição, por enquanto, ainda não pegou fogo.

Tem Copa, tem São João, tem roçado, tem comércio, tem gente trabalhando, tem família se organizando e tem muito eleitor que só vai parar para olhar política mais adiante. Os nomes aparecem quando são colocados na mesa, mas isso não quer dizer que a disputa já tenha tomado conta da rua, da feira, do bairro, da igreja ou da conversa espontânea do povo.

O ambiente, neste momento, parece mais importante do que o placar.

Mas há uma contradição que não pode passar despercebida.

O Acre foi, nos últimos ciclos eleitorais, um dos estados onde o discurso conservador, antipetista e moralizante encontrou terreno fértil. Pátria, família, Deus, bons costumes e combate à corrupção viraram palavras repetidas em palanques, redes sociais, igrejas e rodas de conversa.

Também se tornou comum ouvir que não se vota em “ladrão”, que não se protege “bandido de estimação” e que corrupção não pode ser tolerada.

Por isso, chama atenção que, dentro da amostra de 1.600 eleitores ouvidos pela pesquisa, apareça em posição de destaque para uma disputa majoritária um condenado pelo Superior Tribunal de Justiça a mais de 25 anos de prisão por crimes ligados a organização criminosa, corrupção ativa e passiva, peculato, lavagem de dinheiro e fraudes em licitações. A defesa nega irregularidades e ainda pode recorrer. Mas o fato político está posto.

A questão, portanto, não é apenas eleitoral. É cultural.

Esse talvez seja o ponto mais sensível do levantamento. A pesquisa não mede apenas intenção de voto. Ela também expõe o espaço que existe entre aquilo que parte do eleitorado diz defender e aquilo que aceita na prática.

É cedo para cravar qualquer coisa. Mas não é cedo para observar o ambiente.

A política ainda tenta entrar de vez na rotina do eleitor. Enquanto isso, a Copa, os arraiais, o trabalho, a igreja e a vida real ocupam o centro da cena.

A eleição ainda não começou para muita gente.

Mas as contradições já entraram em campo.

Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

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